Cachoeira, o homem que quis ser Michael Corleone

A vaidade do bicheiro, que na terça será o astro da CPI, e sua compulsão pelo poder só podem ser explicadas pela estética: Don Cachoeira sonhava em ser Michael Corleone, estrelado pelo jovem Al Pacino, em “O Poderoso Chefão”

Cachoeira, o homem que quis ser Michael Corleone
Cachoeira, o homem que quis ser Michael Corleone (Foto: Edição/247)
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247 – Nesta terça-feira 15, Carlos Cachoeira irá depor na CPI Mista do Congresso Nacional. Seu advogado, Marcio Thomaz Bastos, trabalha para adiar o julgamento ou para lhe dar o direito de permanecer calado, mas, até agora, o patrono de causas impossíveis mais caro do País perdeu todas. Não conseguiu um mísero habeas corpus. Portanto, o mais provável é que Cachoeira deponha e seja obrigado a responder a todas as perguntas dos parlamentares.

Será a oportunidade para decifrar a alma de um personagem complexo e intrigante. Um homem que tentou comprar o Brasil inteiro – e quase conseguiu. E que, no nosso entendimento, sofreu uma transformação cerebral quando, em algum momento de sua juventude, em Anápolis (GO), assistiu à trilogia de “O Poderoso Chefão”, clássico de Francis Ford Coppola. Charlie Waterfall, nosso Carlinhos Cachoeira, se apaixonou pelo personagem interpretado pelo jovem Al Pacino, que encarnou Michael Corleone, filho do inesquecível Don Vito Corleone.

Já se sabe, graças ao trabalho de Gerson Camarotti, nome em ascensão no jornalismo da Globo, que Cachoeira gostava de ser chamado de Don. Era assim que o senador Demóstenes Torres (sem partido/GO) se referia a ele em conversas mais íntimas – nos diálogos menos importantes, Cachoeira era o “professor”. Também é sabido que Cachoeira gostava de deixar maços de dinheiro à mostra para impressionar seus aliados. E que buscava influência em todos os poderes: Executivo, Judiciário, Legislativo e Imprensa. Não se sabe ainda, no entanto, se seus auxiliares lhe beijavam a mão, da mesma maneira como o “padrinho” Don Vito Corleone era tratado por seus capangas.

A comparação com a família Corleone não é de todo descabida. Carlinhos Cachoeira era também filho de bicheiro. Seu pai aprendeu as artimanhas do bicho com Anísio Abrahão Davi, dono da Beija-Flor de Nilópolis, e decidiu levar o jogo para Goiás. Carlinhos nasceu rico na cidade de Anápolis, mas, assim como Michael Corleone, nunca teve o reconhecimento social por ser filho de “mafioso”. O que talvez tenha feito com que ele decidisse comprar reconhecimento social de toda a sociedade goiana e também brasileira. A ponto de ser chamado de “Don” por um dos senadores mais importantes da República.

Uma fachada para os negócios

Assim como Michael Corleone, Cachoeira também tentou migrar de negócios ilícitos para outros, não menos imorais, mas encobertos pelo manto da legalidade. E foi assim que ele passou a se apresentar em Goiás como dono de laboratório farmacêutico e representante dos interesses de uma empreiteira. Os Corleone também tinham uma loja de azeites em Nova York como fachada para os negócios ilícitos. Quando Michael tomou o lugar do pai, o que antes era comércio ilegal de bebidas passou a ser uma atividade lícita, com a exploração de cassinos em Las Vegas.

Andressa, mulher de Cachoeira, também deve enxergar no marido um Michael Corleone tupiniquim. Ela já disse que, depois de sair da prisão, Cachoeira trabalhará até o fim dos dias para combater a hipocrisia e legalizar o jogo no Brasil. Nas cenas em que aparece nos telejornais, de CPIs passadas, quando era um alvo lateral, e não o protagonista, pode-se observar também um Cachoeira extremamente vaidoso no ato de caminhar, de fechar o paletó do terno, de ajustar os óculos e de sorrir. Sim, Cachoeira queria ser um Al Pacino do Cerrado. E só sua vaidade explica o fato de ter feito questão de morar numa casa que pertenceu ao governador Marconi Perillo – a mesma em que foi preso. Aquele imóvel, mais simples do que outras casas que ele já havia ocupado, não foi comprado pelo conforto, mas por ser um símbolo de status e poder na sociedade. O garoto desprezado de Anápolis agora morava na casa do governador, na capital Goiânia.

O Poderoso Chefão, em Veja

Nos grampos que já apareceram até agora sobre sua relação com a revista Veja, um é também intrigante. Cachoeira conversa com um de seus arapongas sobre as fitas que vinham sendo pedidas pelo jornalista Policarpo Júnior sobre o que se passava no corredor do hotel onde se hospedava José Dirceu. Cachoeira deixa bem claro ao araponga que as fitas só deveriam ser entregues se Policarpo lhe pedisse diretamente.

Duas semanas depois, Veja circulou com a imagem de José Dirceu na capa e o título “O Poderoso Chefão”. Terá sido esse o único pedido do nosso Michael Corleone?

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