Cartão amarelo não é arma

É inadmissível algumas cenas vergonhosas do Campeonato Brasileiro: a ameaça do árbitro de puxar o cartão com o intuito de atemorizar os jogadores

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A história diz que a criação dos cartões amarelo e vermelho foi engendrada pela mente prodigiosa do tenente-coronel do exército britânico, Kenneth George Aston. Aston, além de militar foi árbitro do futebol inglês e um dos mais respeitados apitos do continente europeu. Foi o primeiro árbitro a utilizar a indumentária de preto, que posteriormente se tornou o uniforme oficial em todo o planeta, e daí, segundo os estudiosos, deriva a expressão "homens de preto". Assim que encerrou a carreira, Kenneth Aston foi convidado por Stanley Rouss, presidente da Fifa de 1961 a 1974, a ocupar a direção do Comitê de Arbitragem da entidade que controla o futebol no planeta.

Mas a implementação dos cartões que hoje se vê no futebol ocorreu em função de dois episódios: o primeiro, na partida entre Inglaterra e Alemanha, na Copa de 1966, quando o árbitro  Rudolf Kleitlein expulsou verbalmente o meia-argentino Rattin, que se recusou a sair do campo de jogo, já que o atleta platino alegava desconhecer os motivos da sua expulsão e somente deixaria o campo se lhe fosse explicado o motivo. Como as diferenças de idioma eram gritantes à época, a situação descambou e o episódio ganhou proporções extremamente negativas.

O segundo ocorreu com o atleta inglês Jack Charlton que, ao ler os jornais do dia seguinte, observou que havia sido advertido verbalmente pelo árbitro na partida contra a Argentina. Mas tanto o jogador como os membros da seleção inglesa desconheciam tal advertência. Este fato gerou um telefonema dos ingleses para Aston, que prometeu equacionar o problema.

No dia posterior ao ocorrido, Aston retornava do Estádio de Wembley para Lancaster Gate, e ao volante de seu veículo, refletiu sobre a confusão de  linguagem e o desconforto do árbitro com os atletas Charlton e Rattin. Foi ali no seu carro que Aston teve a ideia de criar os cartões coloridos com a codificação nas cores (amarelo e vermelho). Ele avaliou que a exibição de cartões coloridos para os jogadores iria superar as barreiras  linguísticas e esclarecer para os espectadores, a imprensa e atletas, quem fora advertido ou expulso do campo de jogo.

O cartão amarelo apareceu pela primeira vez no futebol na Copa do Mundo de 1970, no jogo entre México e União Soviética, pelas mãos do árbitro alemão Kurt Tscherncher. Posteriormente, em outras partidas, o cartão  vermelho e a partir dali estava superado o impasse de idioma e de desentendimento entre árbitros e jogadores. Porém, ficava ainda como está até os dias atuais, o grande imbróglio dos critérios de sua utilização.

O cartão amarelo é um valioso instrumento de auxílio à  manutenção da disciplina durante o jogo, daí a importância de o árbitro conhecer os meandros da sua correta aplicação. O árbitro não deve usar indiscriminadamente o cartão amarelo. Antes de tomar a decisão  de aplicá-lo, deve ter discernimento se a natureza da infração cometida é ou não passível da sua aplicação. Muitas vezes, uma advertência verbal equaciona o problema.

Um amarelo aplicado indevidamente coloca o árbitro como alguém que ficou "devendo" e isto dificultará o uso do segundo e a consequente expulsão do atleta infrator. Em contraposição, no momento que sentir que a justa medida é a aplicação do cartão, o árbitro não deve hesitar em usá-lo tantas vezes quanto necessário, no resguardo das Regras do Jogo de Futebol.

No futebol brasileiro há enorme distorção sobre os métodos de aplicação do cartão amarelo. Aqui em muitas situações nossos apitos o utilizam como uma "arma", como objeto de coação a todo o momento, chegando ao absurdo, em alguns casos, em que o árbitro leva a mão ao bolso da camisa, mas não aplica o cartão. O cartão amarelo é um instrumento de correção de uma infração que mereça advertência severa, após o que, em caso de reincidência, cabe apenas o cartão vermelho.

É inadmissível as cenas "vergonhosas" que vivenciamos a cada rodada do Campeonato Brasileiro nas Séries A e B via TV, a ameaça do árbitro de puxar o cartão com o intuito de atemorizar os jogadores. Ao árbitro cabe punir os infratores, diz a Fifa, e não atemorizá-los.

PS: e, por derradeiro, a Fifa determina que o árbitro, quando for advertir um jogador que estiver caído ao solo, deve aguardar o atleta se pôr em pé para daí apresentar-lhe o cartão. No atual Brasileirão, tem árbitro aplicando cartão amarelo aos atletas que estão sentados ou deitados no campo de jogo.

Valdir Bicudo é investigador da Polícia Civil em Curitiba/PR e ex-árbitro de futebol

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