Cofre enterrado sob a Antártida guarda os segredos do clima da Terra
O cofre fica próximo à Estação de Pesquisa Concordia
247 - Enterrado sob a neve da Antártida, um cofre natural escavado no gelo guarda amostras de geleiras ameaçadas pelo aquecimento global e preserva registros fundamentais sobre a história climática da Terra.
As informações são da CNN. O projeto é liderado pela Ice Memory Foundation e busca conservar núcleos de gelo retirados de geleiras de montanha em risco de desaparecimento, antes que o avanço das mudanças climáticas destrua dados ambientais acumulados ao longo de séculos e até milênios.
O cofre fica próximo à Estação de Pesquisa Concordia, uma base franco-italiana localizada em uma das regiões mais isoladas do continente antártico, a mais de 1.000 quilômetros da costa mais próxima. Diferentemente de estruturas tradicionais, o espaço não depende de aço, concreto ou sistemas artificiais de refrigeração.
A instalação foi escavada diretamente na neve antártica. Dentro dela, cientistas armazenam cilindros de gelo antigo extraídos de geleiras localizadas em diferentes partes do mundo, incluindo regiões dos Alpes, dos Andes e das montanhas do Pamir, no Tadjiquistão.
Essas amostras funcionam como arquivos naturais do planeta. Presas no gelo, há informações sobre erupções vulcânicas, fumaça de incêndios florestais, poluição industrial e alterações nas condições atmosféricas ocorridas ao longo da história.
O objetivo da iniciativa é preservar esse material para pesquisadores do futuro, que poderão usar novas tecnologias para analisar dados climáticos que talvez já não estejam mais disponíveis nas geleiras originais.
“É um local único. É uma ideia única. É realmente inédito em muitos aspectos”, disse Thomas Stocker, presidente da fundação e professor de física climática e ambiental na Universidade de Berna, na Suíça.
“Não podemos salvar a geleira inteira, mas podemos salvar as informações ambientais e climáticas armazenadas nessas geleiras.”
Bolhas de ar guardam o passado da atmosfera
A importância científica dos núcleos de gelo está nas pequenas bolhas de ar aprisionadas em seu interior. Elas contêm amostras da atmosfera de diferentes períodos da história da Terra.
“Essas bolhas estão cheias de ar atmosférico da época em que foram formadas — talvez cem anos, mil anos, um milhão de anos atrás”, afirmou Stocker.
Ao analisar essas bolhas, os cientistas conseguem reconstruir concentrações históricas de dióxido de carbono, metano e outros gases de efeito estufa. Esses registros ajudam a comparar o clima atual com períodos anteriores e a entender a velocidade das transformações provocadas pela ação humana.
Segundo Stocker, dados obtidos a partir de núcleos de gelo mostram que os níveis atuais de dióxido de carbono são de 30% a 35% superiores a qualquer outro momento dos últimos 800 mil anos. Ao mesmo tempo, muitos dos arquivos naturais que ainda poderiam ampliar esse conhecimento estão desaparecendo.
“Vivo na Suíça, então observamos há muitas décadas que as geleiras estão recuando em um ritmo acelerado”, disse ele.
“Os registros climáticos locais, como os das geleiras alpinas, do Himalaia ou dos Andes, estão desaparecendo a uma velocidade alarmantemente crescente.”
Geleiras ameaçadas viram prioridade científica
Nas últimas décadas, milhares de geleiras desapareceram em diferentes regiões do planeta. De acordo com um estudo de 2025 citado pela CNN, até 4.000 geleiras poderão desaparecer a cada ano até meados do século, caso as emissões que impulsionam as mudanças climáticas continuem elevadas.
Foi diante dessa perda acelerada que cientistas passaram a defender, há cerca de uma década, a criação de um arquivo permanente de gelo. A ideia era coletar amostras de geleiras ameaçadas e transportá-las para a Antártida, onde o frio natural poderia preservá-las por séculos.
O trabalho, porém, é complexo. As equipes precisam perfurar geleiras em áreas remotas, transportar equipamentos pesados e manter as amostras congeladas e sem contaminação durante todo o trajeto.
Em uma campanha recente no Tadjiquistão, os cientistas trabalharam a 5.820 metros de altitude. Para chegar aos locais de coleta, transportaram quase 450 quilos de equipamentos de perfuração em terrenos de grande dificuldade.
“Dá para imaginar o quão difíceis devem ter sido as condições de trabalho para os perfuradores e os cientistas que foram para lá”, disse Stocker.
Como os núcleos de gelo são coletados
A coleta é feita com uma broca cilíndrica equipada com cortadores em formato de anel. O equipamento perfura a geleira e extrai um núcleo vertical de gelo, camada por camada.
Quanto mais profunda é a amostra, mais antigo é o registro climático preservado. Antes da perfuração, no entanto, os cientistas passam meses analisando as geleiras com radar de penetração no solo, para identificar os pontos mais estáveis e com camadas internas intactas.
“Quando fazemos esse levantamento por radar, é basicamente como olhar para uma fotografia de toda a estrutura interna do gelo, desde os seus pés até a interface com a rocha matriz abaixo”, explicou à CNN Alison Criscitiello, diretora do Laboratório Canadense de Núcleos de Gelo da Universidade de Alberta, que não participa da Ice Memory Foundation.
Segundo ela, alguns registros climáticos essenciais estão sendo perdidos diariamente em diferentes partes do mundo.
“Existem lugares no planeta com registros climáticos cruciais que estão sendo perdidos todos os dias”, disse.
“A cada dia que passa em que ocorre derretimento nesses locais, mais tempo é perdido desse registro climático.”
Caverna mantém gelo sem refrigeração artificial
A área próxima à Estação Concordia foi escolhida porque oferece uma condição rara: frio extremo e estável o suficiente para preservar os núcleos de gelo sem necessidade de refrigeração artificial.
A estação está localizada no alto do planalto antártico, a mais de 3.000 metros acima do nível do mar. Durante o inverno, as temperaturas podem cair abaixo de -80°C, e a base permanece isolada do restante do mundo por meses.
“Este é realmente um lugar seguro. Tornamos ainda mais seguro escavando uma caverna a 10 metros (33 pés) abaixo da superfície”, afirmou Stocker.
“Nessa caverna, nesse local, temos uma temperatura constante de -52 graus Celsius (-61,6 graus Fahrenheit). A caverna é protegida por uma camada de neve; é essencialmente um cofre, mas feito de neve compactada.”
A construção envolveu a abertura de uma trincheira e o uso de um balão inflável para moldar o espaço interno. Depois que a neve ao redor foi compactada, o balão foi removido, deixando uma caverna em formato de túnel com 60 metros de comprimento e 5 metros de largura.
Dentro do cofre, os núcleos de gelo são armazenados em recipientes brancos isolados, empilhados em fileiras e cuidadosamente identificados. A fundação pretende preservar amostras de 20 geleiras ao redor do mundo. Até agora, dez já foram perfuradas.
Arquivo climático para as próximas gerações
Os núcleos de gelo reúnem informações globais e locais sobre o clima. Eles podem revelar variações atmosféricas de escala planetária, mas também registrar fenômenos regionais, como incêndios florestais, contaminação ambiental, monções e mudanças no abastecimento de água.
“Os núcleos de gelo contêm informações climáticas globais, então há certas coisas que cada núcleo de gelo na Terra contém”, disse Criscitiello.
“Mas os núcleos de gelo também contêm uma enorme riqueza de informações climáticas muito locais.”
“São registros climáticos que não existirão mais”, afirmou.
A preservação desse material ganha urgência diante da velocidade do derretimento das geleiras. Stocker afirmou que as geleiras da Suíça já perderam cerca de 35% de seu volume. Em um cenário de altas emissões, até 90% das geleiras de baixa altitude do país podem desaparecer até o fim do século.
Embora não seja possível impedir a perda de todas essas formações, os pesquisadores defendem que ainda há tempo para preservar parte de sua memória científica. O cofre sob a Antártida foi criado com esse propósito: guardar, em temperaturas extremas e sem dependência de energia artificial, informações que poderão ajudar as próximas gerações a compreender melhor o clima da Terra.
