Colômbia alerta autoridades por ameaças a Zuñiga
Após mensagens ofensivas e ameaças na internet contra o jogador colombiano e sua família, o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia emitiu comunicado à sua embaixada em Brasília para garantir a segurança do lateral-direito da seleção; depois da joelhada que tirou Neymar da Copa, Camilo Zuñiga tem sido alvo de ofensas racistas e até ameaças de morte
Danilo Macedo - Repórter da Agência Brasil
Após mensagens ofensivas e ameaças na internet contra o jogador colombiano Camilo Zuñiga e sua família, o Ministério das Relações Exteriores da Colômbia emitiu um comunicado à sua embaixada em Brasília para que mantenha contato com as autoridades locais e da Federação Internacional de Futebol (Fifa) com o intuito de garantir a segurança do lateral-direito da seleção. Na última sexta-feira (4), na partida das quartas de final pela Copa, Zuñiga deu uma joelhada nas costas de Neymar o que ocasionou uma lesão na vértebra do atacante brasileiro e tirou o craque da competição.
O alerta também foi enviado à embaixada do país na Itália, onde Zuñiga defende a equipe do Napoli há cinco temporadas. A Embaixada da Colômbia em Brasília confirmou a preocupação com o caso de Zuñiga, mas informou que qualquer posicionamento oficial será publicado em sua página na internet.
A Colômbia tem triste histórico de violência relacionado ao futebol. Somente durante esta Copa, 17 mortes foram registradas em Bogotá, capital do país, nas comemorações das vitórias da seleção colombiana. Apenas na estreia da seleção, no dia 14 de junho, foram registradas nove mortes e mais de 100 pessoas feridas.
Este ano o país lembra os 20 anos da tragédia que tirou a vida do zagueiro da seleção colombiana Andrés Escobar, assassinado ao retornar da Copa do Mundo dos Estados Unidos. Liderada por Freddy Rincón, Faustino Asprilla e Carlos Valderrama, conhecida como "geração de ouro", a equipe chegou a ser apontada como uma das favoritas durante o Mundial, mas não passou da fase de grupos e foi eliminada no jogo com os anfitriões, no qual perdeu por 2 a 1, com um gol contra de Escobar.
A Confederação Brasileira de Futebol (CBF) pediu à Comissão Disciplinar da Fifa que o jogador colombiano fosse punido pela agressão que tirou Neymar da Copa do Mundo. Ontem, no entanto, a entidade máxima do futebol decidiu não punir Zuñiga, alegando que as condições descritas em seu código disciplinar (CDF) não permitem a intervenção no caso. A entidade diz lamentar profundamente o incidente e as graves consequências para a saúde de Neymar.
Ameaças e comentários contra Zuñiga expõem preconceito dentro e fora do campo
Helena Martins – Logo após a notícia de que o atacante Neymar ficaria fora da Copa do Mundo devido à lesão sofrida durante o jogo do Brasil contra a Colômbia, na última sexta-feira (4), o jogador Camilo Zuñiga, que alegou que a agressão contra o brasileiro não foi proposital, passou a sofrer ameaças e a ser alvo de comentários preconceituosos nas redes sociais. Em alguns desses comentários, ele chega a ser ameaçado de morte.
No Twitter, ao digitar "Zuñiga" aparece automaticamente como termo associado a palavra preto. Os comentários, de evidente preconceito racial, classificam o jogador de "preto desgraçado" e o comparam a "macaco", "bandido" e "assassino".
E não apenas o jogador é agredido. Em uma postagem no Instagram, a Colômbia é chamada de "país da cocaína". Em várias fotos da família de Zuñiga, multiplicam-se comentários ofensivos. Na foto em que a filha pequena do atleta aparece ao lado da frase "Papi, te amo", escrita na areia, o jogador é chamado de "animal". A criança é ameaçada e chamada de "puta": "Menina vai ser estuprada".
O zagueiro colombiano Zú iga atinge o atacante brasileiro Neymar (Manu Fernandez/AP/Direitos Reservados)
O zagueiro colombiano Zúñiga atinge o atacante brasileiro NeymarManu Fernandez/AP/Direitos Reservados
Integrante do Instituto Mídia Étnica, Paulo Rogério critica a postura dos internautas e destaca que a situação evidencia o racismo da sociedade brasileira. "A situação de racismo, principalmente no Brasil, onde temos uma falsa ideia de democracia racial, é quebrada no momento em que há uma tensão, como naquele jogo", afirma Rogério, relembrando a partida que terminou com a lesão de Neymar.
Ele destaca, contudo, que esta não foi a única demonstração de racismo vivenciada no Mundial. "A Copa do Mundo tem mostrado que esse é um assunto de grande importância porque os casos de racismo são cotidianos, seja esse caso mais recente contra o jogador colombiano, no caso dos espanhóis, que chamaram brasileiros de macacos, e em vários casos de xenofobia", diz o publicitário, que trabalha no acompanhamento da cobertura da mídia em relação à questão racial.
Se atos de preconceitos não são novos, um elemento ajuda as agressões a ganharem forma e a se proliferarem: as redes sociais. "Muitas vezes, o anonimato e a possibilidade de fala livre faz com que as pessoas se sintam mais à vontade para falar o que pensam. Tem um lado positivo, da ampliação da comunicação, mas também negativo, de uma série de violações de direitos humanos que a gente vê cotidianamente", alerta.
O advogado da organização Geledés – Instituto da Mulher Negra, Rodnei Jericó, lembra que casos de racismo são cotidianos. "Hoje a mídia tem pautado, mas esse tipo de situação sempre existiu", destaca. O advogado pondera, contudo, que a exposição dos casos pode contribuir para a conscientização e também para a responsabilização judicial.
Nas redes sociais não são encontrados apenas comentários racistas relacionados ao caso. Em muitas postagens, internautas criticam a postura preconceituosa dos demais, pedem cuidado e alertam que se trata apenas de um jogo de futebol. Outros cobram que os jogadores brasileiros se manifestem sobre as agressões, a fim de amenizar a situação. Diferentemente da campanha "#somostodosmacacos", lançada pelo próprio Neymar, em abril, após Daniel Alves ter reagido a um comentário racista na Europa, ainda há poucas manifestações de personalidades na situação que envolve o colombiano.
Até agora, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a Federação Internacional de Futebol (Fifa), que antes do início da Copa do Mundo lançou a campanha #SayNoToRacism (#DigaNãoAoRacismo, em português), também não se manifestaram oficialmente sobre o caso.
O procurador federal dos Direitos do Cidadão, Aurélio Rios, alerta que os comentários racistas podem terminar na Justiça, já que racismo é crime tipificado no Artigo 20 da Lei 7.716/89, com pena de um a três anos de prisão. "Isso não tem a ver com liberdade de expressão. É absolutamente inaceitável qualquer discurso de ódio e violência", afirma o procurador, que destaca que as pessoas que proferiram os comentários podem ser denunciadas judicialmente.
Rios avalia que o fenômeno da internet abriu a porta para um grupo que "estava adormecido e se sente à vontade, até porque o anonimato da rede facilita que haja essas intervenções". O fato de o possível crime ser cometido na rede pode agravá-lo. Isso porque, de acordo com a legislação em vigor, a pena prevista é de dois a cinco anos de prisão e multa, quando o crime ocorre por meio de veículos de comunicação.
Aqueles que ameaçaram o jogador também podem ser incriminados, já que o crime de ameaça é abstrato, isto é, a ameaça não precisa ser confirmada em ato para que seja considerada crime, segundo explica o procurador.
Até agora, a procuradoria não registrou ações impetradas sobre esse caso, mas é possível que o Ministério Público atue na identificação da origem das agressões e, a partir da investigação dos fatos, dê início a um processo criminal. Foi o que ocorreu em 2010, quando uma estudante de direito, ao comentar o resultado das eleições presidenciais, escreveu no Twitter que "Nordestino não é gente. Faça um favor a SP: mate um nordestino afogado!". Menos de dois anos depois, ela foi condenada a um ano, cinco meses e 15 dias de prisão pelo crime de racismo.
"A pessoa tem o direito de, dentro de determinados limites, defender as suas ideias, desde que não ofenda a dignidade de outras pessoas, sobretudo de grupos vulneráveis", alerta o procurador, que lamenta que, em uma Copa do Mundo que teve a luta contra o racismo como tema, expressões desse teor ainda sejam verificadas.
O governo federal traçou a meta de fazer uma Copa sem racismo e estimulou a exibição de faixas, nas partidas, bem como o desenvolvimento de políticas locais de combate ao preconceito.
No Distrito Federal (DF) e na Bahia, por exemplo, as secretarias de Promoção da Igualdade Racial fizeram campanhas específicas sobre o tema. No DF, cinco postos da campanha "Copa sem racismo" foram montados nas rodoviárias, no aeroporto e em lugares turísticos. "Para poder conscientizar as pessoas que estão vindo sobre a legislação do Brasil e também divulgar o nosso programa, o Disque Racismo", disse à Agência Brasil o secretário especial da Promoção da Igualdade Racial do DF, Viridiano Custódio.
Na Bahia, a coordenadora executiva de Promoção da Igualdade, Trícia Calmon, disse que o Centro de Referência de Combate ao Racismo e à Intolerância Religiosa também ficou disponível para o recebimento de denúncias. Além disso, a secretaria fez uma cartilha para informar sobre a legislação brasileira, material que tem sido distribuído em pontos de grande movimentação.
Até agora, contudo, esses equipamentos, tanto no DF quanto na Bahia, não receberam uma denúncia sequer. O descompasso entre o que se vê nas redes e o que se vê nos órgãos é explicado por Custódio como fruto da falta de informação.
Para Trícia, o reduzido número de denúncias relacionadas ao crime de racismo se deve ao "fato de [o racismo] ser muito banalizado e [de haver] a descrença no Judiciário, por conta de morosidade ou porque o sistema tem demorado ou não dado respostas satisfatórias nesses casos".
