Com discurso de candidato, Serra ataca governo
No Rio Grande do Sul, ex-governador tucano diz que Estado brasileiro sofre por ter sido “apropriado por um partido e seus sócios”, no que classificou como um “patrimonialismo bolchevique”; ele também criticou o “troca-troca eleitoral” e deixou em aberta a possibilidade de disputar a presidência em 2014; em artigo, criticou a "balcanização do Estado brasileiro"; até março do ano que vem, quando o PSDB oficializará seu nome, ele ainda fará o possível e o impossível para tomar o lugar de Aécio Neves
247 - José Serra fará o impossível e o impossível para ter uma nova chance de disputar a presidência da República, em 2014. Nesta quinta, ele publica artigo no Estado de S. Paulo contra o que chama de balcanização do Estado brasileiro. Ontem, em Porto Alegre, também adotou discurso de candidato.
Abaixo o artigo de Serra:
Para romper a inércia do atraso
Uma certeza, no entanto, é possível ter: a diversidade e o tamanho dos problemas que o presidente que vier a ser eleito terá de enfrentar a partir de 2015 para administrar o País e corresponder às expectativas da população. O problema n.º 1 será o desequilíbrio externo da economia, que trava o crescimento com qualidade. O indicador mais sintético é a evolução do déficit em conta corrente do balanço de pagamentos, perto de 4% do PIB este ano - cerca de US$ 75 bilhões. O Brasil, na última década, não utilizou a notável bonança externa - juros internacionais baixíssimos e preços de nossas exportações agrominerais nas nuvens - para investir e fortalecer a competitividade. O modelo lulista transformou os recursos dessa bênção em consumo privado e público, substituindo boa parte da produção doméstica da indústria, que vem regredindo em marcha forçada, perdendo mercado interno e capacidade para exportar.
O desequilíbrio no balanço de pagamentos não vai ser atenuado durante o próximo mandato por algum novo surto de bonança externa: pode não ocorrer um desabamento dos preços das commodities, mas não haverá novo salto para cima. E os juros internacionais vão subir, pois, tudo indica, as economias desenvolvidas vão puxar o crescimento mundial. Assim, o governo terá de enfrentar duas questões difíceis: a desvalorização do real, pressionando a inflação, e os juros reais domésticos elevados, a fim de atrair capitais para fechar as contas externas. As grandes reservas de divisas do Brasil não são panaceia nesse caso. Este ano o Banco Central já vendeu US$ 50 bilhões a câmbio futuro para segurar o valor do real.
O próximo presidente será o herdeiro da falta de uma política de comércio exterior, uma anomalia para uma nação continental e tão dependente do exterior. A ponta do novelo dessa aberração está no Mercosul, um monumental equívoco. Ao eliminar a soberania comercial brasileira, forneceu pretexto à inércia nos acordos bilaterais e à doutrina do dolce far niente do Itamaraty.
A inflação será o terceiro grande problema: não é explosiva, mas, no mundo de hoje, é alta, mesmo sendo reprimida. O novo governo não terá raio de manobra para expandir os atuais preços controlados - haverá pressão para absorvê-los. Até quando os preços de combustíveis e tarifas de transporte podem ser reprimidos? Mais ainda, o próximo presidente terá de lidar com a indexação da economia, ampliada e intensificada no último decênio.
Dominará a agenda uma quarta questão: a da infraestrutura de energia e transportes, hoje em estado crítico em razão da incapacidade das gestões petistas de investir, seja diretamente, seja mediante parcerias com a área privada. Nessa área, o PT não revelou apenas impaciência para aprender. Contaram também a ideologia, a propaganda e a malandragem com dinheiro público. Exemplo eloquente em transportes: o frete de livros brasileiros impressos na China, por navio, é inferior ao custo Rio-São Paulo.
Será preciso também encarar a estreiteza do espaço para manobras fiscais. Não há perspectiva de desastre até 2015, mas cessou o repertório abusivo do último decênio, que permitiu sustentar o consumo governamental, fazer financiamentos públicos sem critérios e, em suma, desperdiçar recursos. Nem mesmo é possível elevar a carga tributária, hoje a maior do mundo em desenvolvimento, expediente principal do combate ao déficit público desde a segunda metade da década de 1990. Essa carga explica três quintos do custo Brasil, que corresponde ao acréscimo de 25% nos preços da produção doméstica na comparação com a média dos nossos parceiros comerciais!
Essa perda do raio de manobra fiscal vai limitar não apenas a gastança em consumo governamental, mas também a chamada "bolsa BNDES" e, mais amplamente, a atuação do Tesouro Nacional como fonte transbordante de crédito da economia. Acrescente-se que o próximo presidente é que terá de arcar com os inevitáveis micos na cobrança dos juros e do principal desses financiamentos.
Um sexto problema, mas não nessa ordem, será o enfrentamento das demandas de saúde, principal item de insatisfação no Brasil de hoje. A demonização da classe médica é só uma cortina de fumaça que esconde os problemas de má gestão e de encolhimento relativo dos gastos do governo federal no setor em relação a Estados e municípios. Com realismo, sem uma recomposição para cima da distribuição das despesas as dificuldades prosseguirão, com ou sem a fantasia dos recursos do pré-sal.
Os nós da educação são ainda mais difíceis de desatar. Apesar do expressivo aumento de despesas públicas, o setor é administrado com mediocridade e controlado pelo corporativismo. Os números da propaganda mal escondem a incapacidade de atrelar a educação à questão do desenvolvimento. Só por isso o setor é considerado estratégico mundo afora. Por enquanto, entende-se a educação só pelo viés de uma suposta justiça social. É evidente que isso faz sentido, mas é só primeiro passo da equação. Há ainda questões prementes como a epidemia de drogas ou a sustentabilidade ambiental, ignoradas pelo petismo.
O fecho da lista de problemas é a necessidade de um novo estilo de governar, que aposente a estridência publicitária e a balcanização do Estado brasileiro. Esse modelo não só não resolve as dificuldades, como cria entraves adicionais. O primeiro passo para romper a inércia do atraso é o reconhecimento de que os problemas existem. E as respostas certamente não podem ser dadas por quem fez dessas dificuldades a razão de sua força.
Iuri Müller
Sul 21 - Ainda que não se apresente como candidato às eleições presidenciais de 2014, o ex-governador de São Paulo, José Serra, não se afasta da discussão. Em passagem por Porto Alegre nesta quarta-feira (9), Serra falou sobre a decisão de permanecer no PSDB, a falta de unidade na oposição ao governo Dilma Rousseff e o que tratou como profundas falhas do projeto petista, como a “desindustrialização”, a “dependência do Mercosul” e a “apropriação do Estado por um partido e os seus sócios”.
José Serra veio ao Rio Grande do Sul para ministrar, na sede da Federasul, a palestra intitulada “O desenvolvimento econômico brasileiro e seus principais problemas”. Em entrevista coletiva realizada antes da atividade, o representante tucano qualificou a repentina filiação de Marina Silva ao PSB – até aqui o movimento mais surpreendente a um ano das eleições – como “um fator extremamente inesperado”. “Quem diz saber o que vai acontecer em 2014 não está entendendo nada”, defendeu.
Candidato nas eleições de 2010, quando alcançou expressiva votação no Rio Grande do Sul, José Serra evitou tratar de quem será o escolhido pela sigla para concorrer no próximo pleito. Mesmo que Aécio Neves apareça exaustivamente na televisão aberta e se perfile como o provável indicado, Serra deixou a questão em aberto – não descartou concorrer e se limitou a dizer que “apoiaria a decisão do partido”.
Há poucas semanas, no entanto, o ex-ministro da Saúde do governo de Fernando Henrique Cardoso ainda analisava a proposta de integrar os quadros do PPS, que também integra o campo de oposição ao governo petista. “O interesse de outros partidos, desde que dentro da proximidade política e ideológica, é natural, como foi o caso do PPS. Mas tomei a decisão de não tomar uma decisão, de permanecer no PSDB”, afirmou.
Para José Serra, jamais houve “troca-troca eleitoral” tão grande como o deste ano. “O tempo de televisão virou mercadoria e há uma distorção enorme, com a qual o governo federal é cúmplice”, criticou. O ex-prefeito de São Paulo sugeriu a criação de uma cláusula de barreira que freasse a disseminação irrestrita de partidos nos pleitos seguintes.
Se nem todas as chapas estão oficialmente assumidas para concorrer em outubro do ano que vem, na opinião de José Serra os problemas que o presidente eleito irá encontrar em 2015 já estão postos na mesa. O tucano mencionou a desindustrialização da economia nacional, a dependência do Brasil em relação ao Mercosul – que frearia acordos de livre-comércio com outros blocos, como a União Europeia – e a falta de investimentos reais em áreas como o transporte público.
“É inadmissível que a Grande Porto Alegre, com seus quatro milhões de habitantes, não conte com linhas de metrô”, opinou. O Rio Grande do Sul seria, para Serra, um dos estados que mais sofrem com o que chamou de “desequilíbrio econômico”. O estado seria vítima tanto “da discriminação” como “da incompetência” dos governantes. Ao que acrescentou: “não é fácil ser oposição no Brasil, ainda mais com minoria no Congresso. Mas também não acho que seja tarde demais para integrar as forças de oposição”.
O Estado brasileiro, na visão de José Serra, sofre por ter sido “apropriado por um partido e seus sócios”, no que classificou como um “patrimonialismo bolchevique”. “Vocês querem um escândalo maior do que este?”, questionou os jornalistas. Por fim, se disse a favor da utilização da Lei de Segurança Nacional frente às manifestações em São Paulo e opinou que a Copa do Mundo “não deve ser tão importante assim para as eleições”. O candidato do PSDB para a disputa nacional, segundo Serra, só deve ser oficializado em março.
