Cristina tem razão?

A reestatizao da petroleira YPF dividiu a imprensa argentina; o governista Pgina 12 elogiou a iniciativa, enquanto o oposicionista Clarn a condenou; em mos espanholas, a empresa privilegiava dividendos aos acionistas, que enfrentam uma crise na Europa, em vez de investimentos na Argentina

Cristina tem razão?
Cristina tem razão? (Foto: Divulgação)
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247 – Ao retomar da espanhola Repsol o controle da YPF, a “Petrobras da Argentina”, a presidente Cristina Kirchner abriu um precedente e uma discussão que, mais cedo ou mais tarde, poderão chegar ao Brasil. Nos anos 90, quando os países latino-americanos enfrentavam crises pesadas, governantes privatizaram as chamadas “joias da coroa”, que foram entregues, predominantemente, a grupos espanhóis, portugueses e italianos. Hoje, com a Europa em crise profunda, muitas dessas companhias têm enfrentado prejuízos em seus países de origem que, em parte, são compensados por lucros obtidos na América Latina. Era o caso flagrante da Repsol na Argentina, mas não o único. Para os grupos espanhóis Telefônica e Santander, por exemplo, o Brasil se transformou num verdadeiro maná. E, aqui, os serviços prestados não estão entre os melhores, nem as tarifas cobradas pelos serviços parecem ser as mais justas.

No caso da Repsol, a situação era dramática. Tradicional exportadora de gás e petróleo, a Argentina estava se transformando em importadora, em razão dos baixos investimentos da YPF. De acordo com o colunista Alfredo Zaiat, do Página 12, a presidente Cristina Kirchner deu um passo decisivo para que o país comece a recuperar sua “soberania energética”, depois do que definiu como “14 anos de predação espanhola”. De acordo com Zaiat, o desenvolvimento de um país está intimamente ligado à oferta de energia, cuja oferta não pode ficar à mercê apenas de interesses privados.

No Clarín, a reação foi inversa. O jornal, que faz oposição ao kirchnerismo, destacou as ameaças de represália da Espanha e o cancelamento de uma missão europeia à Argentina. Autoridades espanholas acusam Cristina Kirchner de usar a crise para tapar sua crise econômica e social. Detalhe: a Argentina, que vem crescendo a taxas próximas a 8% ao ano, só não cresce mais porque tem esbarrado na baixa oferta de energia, enquanto a Espanha está mergulhada na maior recessão de sua história.

Em diferentes momentos históricos, governantes brasileiros, como Leonel Brizola, Getúlio Vargas e Juscelino Kubitschek também nacionalizaram companhias estrangeiras, quando tiveram a percepção de que as mesmas vinham investindo abaixo da necessidade e drenando recursos para o exterior. O caso mais emblemático foi o da antiga Light, que era conhecida como o “polvo canadense”. Recentemente, Itamar Franco retomou do grupo americano AES o controle da Cemig. A mesma empresa foi parcialmente privatizada por Aécio Neves e, segundo reportagem desta semana da revista Exame, passou a funcionar sob o controle do Estado, mas sob a lógica de resultados da iniciativa privada. Em São Paulo, onde os apagões são frequentes, a AES continua à frente da Eletropaulo.

Portanto, no caso da YPF, a análise não é tão simples quanto parece ser o corte dos que dividem o mundo entre neoliberais e chavistas. Talvez Cristina Kirchner tenha tomado a decisão correta. E é possível ainda que essa discussão chegue ao Brasil, quando as pessoas começarem a se perguntar, por exemplo, por que a telefonia aqui é uma das piores e mais caras do mundo.

 

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