Do mestre João Bittar, “Passagens” brilha na Ímã
No dia em que completaria 62 anos, 40 trabalhos do fotojornalista João Bittar tomam as paredes da Ímã Foto Galeria, na Vila Madalena; editor de Veja, IstoÉ e Folha, era chamado de mestre pelos colegas e marcou sua trajetória na imprensa por uma visão crítica do mundo e a forte personalidade de suas imagens; "Fotografia é questão de caráter", gostava de dizer o profissional falecido em 2011; exposição vai de hoje até 24 de abril, com fotos à venda; textos da curadora Thays Bittar, Alex Solnik e Nunzio Briguglio; serviço
247, com Ímã Foto Galeria _Nesta quinta-feira, 14 de março, será inaugurada a exposição "Passagens", de João Bittar. Não por acaso, a mostra tem início no mesmo dia em que Bittar completaria 62 anos. O público terá a oportunidade de ver as fotografias do "mestre", como era chamado pelos amigos, por outro ponto de vista, diferente dos trabalhos que realizou durante sua carreira.
As 40 imagens expostas na Ímã Foto Galeria foram postadas originalmente no Facebook, Bittar as postava sem cortes ou tratamento. Clicava as imagens, flagrantes da cidade e seus personagens, e no mesmo dia as colocava na rede.
Além da exposição dessas fotografias, será exibido o documentário inédito "João Bittar: Retratos de um Pensador", realizado por sua filha, e também fotógrafa, Thays Bittar, juntamente com Pedro Carnachioni, Luiz Almeida e Luiz Braz. O filme é um retrato íntimo da vida de Bittar e conta com depoimentos de familiares, amigos e fotógrafos que estiveram ao lado dele em diferentes momentos ao longo da vida. O próprio Bittar aparece em depoimentos realizados durante os anos em que trabalhou e ministrou aulas na Ímã.
Quem foi João Bittar
João Bittar nasceu no dia 14 de março de 1951, em São Paulo. Iniciou sua carreira aos 17 anos e trabalhou como fotojornalista e editor de várias publicações: Veja, IstoÉ, Contigo, Época, Quem, Diário de S. Paulo, Gazeta Mercantil, Diário do ABC e Folha de S. Paulo. Na Folha de S. Paulo assumiu o cargo de editor de fotografia, sendo responsável pelo processo de digitalização fotográfica no jornal.
Em 1982, em paralelo ao trabalho na grande imprensa, fundou a Agência Angular, pioneira no fotojornalismo independente.
Algumas fotos de sua carreira são bastante conhecidas, entre as várias imagens que registrou está uma do ex-presidente da República, Luiz Inácio "Lula" da Silva, mostrando o umbigo em uma convenção dos metalúrgicos no ano de 1979. Também fez fotografias do sambista Cartola se preparando para um show, além de Rita Lee, Tom Jobim, Paulo Maluf, Fernando Henrique Cardoso e outras personalidades marcantes na história do país.
João Bittar faleceu no dia 18 de dezembro de 2011, vítima de um infarto fulminante.
Exposição "Passagens" João Bittar
Abertura: 14 de março, quinta-feira, às 19h.
Duração: Até 24 de Abril de 2013.
Horário: De segunda a sexta das 10h às 19h30 e sábado das 10h às 17h.
Contato: (11) 3816-1290, (11) 2594-3687 ou pelo
email: ima@imafotogaleria.com.br
Abaixo, texto de Thays Bittar, curadora da mostra, sobre seu pai João:
Passagens
As fotos desta exposição foram selecionadas a partir de mais de 40 mil imagens que João Bittar clicou durante cerca de dois anos. Eu diria que foi um desafio enorme para mim escolher as finalistas. Ele publicava quase diariamente no Facebook, e o título dos seus álbuns eram relacionados às suas músicas preferidas ou reflexões do dia. Além disso, identificava a data e o local em que foram fotografadas, e com o intuito de preservar a integridade de suas fotografias mencionava que eram "sem corte ou tratamento de imagem", em uma época que a imagem é manipulada por filtros, cortes, montagens e outros aplicativos que a tecnologia supera a nossa imaginação. São mais de 4.962 amigos no Facebook, e nele, compartilhava além de fotos que fazia pelas ruas, os músicos que ele mais gostava, os fotógrafos que mais admirava e tantos outros conteúdos relacionados à arte, política, atualidade e que fizeram parte da nossa história. Em seus últimos anos de vida, essa foi sua ferramenta de expressão, João tinha necessidade de se comunicar e vivia uma fase de poucas oportunidades de trabalho.
O "street photographer" é princípio pétreo do fotojornalismo, um gênero da fotografia relacionado a imagens de pessoas em lugares públicos. Henri Cartier Bresson e sua 35mm tornaram essa prática uma ferramenta habitual dos caçadores de imagem, assim como Robert Capa, Eugene Atget e tantos outros nomes respeitados na área.
Essas fotos são passagens que ele fazia em busca do "momento decisivo", uma reflexão da sociedade e um encontro pessoal. A câmera fotográfica sem dúvidas sempre foi sua melhor amiga, amante e companheira, mas a obsessão pela captura de cenas urbanas iniciou-se quando ele começou a dar aula de fotojornalismo na Ímã Foto Galeria. E foram as saídas fotográficas que fazia com os alunos, que tornaram esse hábito seu exercício diário.
Como o João nunca gostou de dirigir, costumava caminhar pelas ruas, usar transporte público ou até mesmo ser um passageiro nos automóveis, isso fez com que ele registrasse um infindável arquivo das cidades do Brasil, mais particularmente de sua cidade natal, São Paulo. Seu olhar buscava encontrar respostas para suas angústias, indignações e para o que a sociedade e os meios de comunicação insistem em ignorar. Esse é o trabalho mais recente que ele produziu, descompromissado, mas sempre atento em mostrar que ninguém vive sozinho e que as pessoas não querem ser ignoradas, e que no fim, nossa maior dificuldade é aprender a conviver em harmonia.
Bittar fotografava com uma lente grande angular (35-105 ou 10-20mm), bem de perto, assim como o Robert Capa o ensinou.
As fotografias são autênticas; ele tinha um hábito de fotografar sem olhar, com a câmera na altura do peito, enrolada na mão, e conseguir o enquadramento perfeito, ele se divertia fazendo isso. A beleza existe em tudo que nós queremos ver, e a fotografia era um espelho tanto da realidade dos outros, como a realidade do próprio João, por isso que fazia também tantos autoretratos. Assim como diz um grande amigo dele, Nunzio Briguglio- João não era um espectador, ele era um participante!
E para comemorar a passagem do Bittar por aqui, os 62 anos que completaria esse grande fotógrafo, o maravilhoso homem e um pai que me ensinou o que é ser feliz, compartilho com vocês um pouco desse olhar sensível, dessa bagagem cultural e dessas fotos que falam por si só.
Thays Bittar
"Esta vida é uma viagem, pena eu estar só de passagem..." Paulo Leminski
Abaixo, texto do jornalista Alex Solnik sobre o fotojornalista:
JOÃO BITTAR: DORMIU COM A MÁQUINA FOTOGRÁFICA E ACORDOU NO LABORATÓRIO
ALEX SOLNIK
João, é o seguinte: o Egberto pediu para eu escrever teu perfil. Pô, essa é a última coisa que eu queria ser: teu biógrafo. Como escrever teu perfil se eu não sei que dia você nasceu? Nunca soube. A gente
passou muitas e boas junto, mas a maioria delas não dá pra contar. Tudo o que eu penso de você, eu já te disse nas inúmeras conversas que tivemos. Eu fiz os cálculos. Sabe quantos dias de amizade tivemos?
Uns 90 mil. Claro, não estivemos juntos religiosamente todos os 90 mil dias. Mas um sabia do outro, não é? Eu sabia que você estava na Folha. Você sabia que eu estava na Sras&Sras. Eu sabia que você estava
na Gazeta Mercantil. Você sabia que eu estava na Brasileiros.
Quase chegamos a trabalhar juntos agora, um pouco antes de você parar de fotografar. Achei um lugar para você na Secretaria de Esportes. Mas não deu certo. Sabe o que os caras que iam te contratar
alegaram ao secretário? Que você pediu muita grana. Eu disse logo: esse não é o João. Nunca pediria um alto salário, nunca teve. Mas tentaram vender essa ideia: que você era um cara ganancioso. Logo você
que nunca foi proprietário de nada a não ser máquinas fotográficas, lentes, filtros, ampliadores.
Eu sei que você nunca ganhou grana com fotos, nada mais que a sobrevivência. Nunca foi dono de casas, nem de carros. Bastava pra você ter uma máquina, do jeito que fosse, de qualquer tamanho. Não sei
se uma coisa tem a ver com outra, mas você nunca abriu mão de princípios. Podia estar desempregado, sem grana, mas seu ponto de vista não mudava. "Vocês estão me explorando" escreveu, brincando, no e-
mail ao seu último empregador. O sujeito não entendeu, levou a sério, justificou, "aqui não exploramos ninguém". E você respondeu à altura, demitindo o empregador. Tem que ter colhão pra fazer isso sem
um tostão no bolso.
Desde o dia em que eu entrei naquele laboratório da Isto É e nos conhecemos em dezembro de 1977 (será isso?) eu mudei minha ideia sobre jornalistas. Eu tinha trabalhado no Jornal da Tarde. Era um pega
pra capar. Era um querendo pisar no pescoço do outro. Uma vez trocaram o resultado de uma corrida de carros que eu mandei do Rio Grande do Sul. Mudaram pra me sacanear. Era uma coleção de redatores
brilhantes, mas alguns de caráter discutível. Muitos ali se achavam o máximo. Foder com os focas era o esporte favorito de muitos. Mas, tudo bem, eles eram considerados de fato os maiorais, a melhor
redação da imprensa brasileira de todos os tempos.
Eu não estava acostumado a jornalistas como você, João e teu grande amigo Helio Campos Mello. Vocês faziam uma bela dupla, e com minha chegada formamos, por assim dizer, um triângulo jornalístico
muito interessante.
Lembra da matéria que fizemos na divisa de São Paulo com Paraná? Era o início da colheita da soja, eu acho. Estávamos de pé às cinco da manhã. Nunca combinamos, mas por eu ser como sou e você como
você era sempre trabalhamos um para o outro. Se eu descobria um ângulo interessante informava pra você. Se você ouvia uma boa declaração de um personagem, também me relatava, on que enriquecia a
matéria. Corremos da polícia nas ruas de São Paulo. Vimos Lula nascer nas greves do ABC.
Desconfio que a gente concordava em quase tudo. Sempre fui de esquerda, como você. Mas nunca militei num partido, como você. Nem eu nem você aguentávamos. Hierarquia, disciplina etc etc não faziam
nossa cabeça. Odeio a formalidade, como você odiava. Odeio, principalmente a autoridade que se impõe somente por ser autoridade. Os dois apoiávamos tudo que dissesse respeito a liberdade em todos os
sentidos, inclusive a liberdade de expressão, é óbvio, detestávamos imposições, regras, tudo que viesse de cima para baixo.
Até hippies fomos juntos. Moramos por um tempo na mesma casa, onde me refugiei com minha namorada. Numa vilinha escondida no final da Brigadeiro. Seis ou sete gatos pingados dividindo aluguel,
despesas, arrumação. Fiquei besta com a tua ausência de egoísmo. Nunca tinha visto. Dividir o último pedaço da última barra de chocolate não é fácil.
Também sempre fomos ateus, graças a Deus. Em igreja ou sinagoga a gente só entrava para fazer matéria. Casamento, missa, batizado, algum figurão em grande estilo. Negócio de se preocupar com roupa
também não era a da gente. Em último caso, João, você até colocava gravata. Uma gravata amarfanhada, provavelmente guardada numa gaveta. Eu também nunca primei pelo estilo.
Você, João, nunca foi só um fotógrafo. Pauteiro, repórter, redator – você podia fazer qualquer coisa num jornal. Mas seu caso era com a fotografia. Pode acreditar, João. Eu acho que nunca te encontrei sem
alguma máquina. Pequena, grande, média, automática, digital, 6 por 6, quadrada, retangular – alguma estava no seu bolso. Essa obsessão por registrar tudo à sua volta, mostrar personagens célebres e
anônimos remete a outra característica sua: a busca da verdade. Foto não mente. (Eu disse foto, não fotoshop.) Um repórter tem mais recursos. As palavras. Pode até enfeitar o bolo, pode demolir se quiser,
pode tornar mais morno, mais azedo. O fotógrafo não consegue mentir nem se quiser. A luz não deixa. Ninguém pode inventar uma cena impressa no papel.
Eu acho, João, que tua obsessão em sempre fotografar tem a ver com obsessão pela verdade. Jornalista é isso. O lance dele é procurar a verdade. Mesmo sabendo que depois, na edição, podia sair a mentira
no lugar da verdade. No futebol tem aquela máxima: craque dorme com a bola. Você, João, tenho impressão que dormia com a máquina fotográfica. E acordava no laboratório.
"Dormiu com a máquina fotográfica e acordou no laboratório." Às vezes o sensacionalismo é inevitável.
Abaixo, texto do jornalista Nunzio Briguglio, secretário de Comunicação do Município de São Paulo, sobre seu colega de reportagens e edições:
Legado de Bittar ficará para as próximas gerações
Escrever sobre João Bittar não é só escrever sobre o seu trabalho, marco de uma geração de repórteres fotográficos que documentou o Brasil e os principais personagens brasileiros nos últimos 50 anos. É preciso associar as imagens que ele captou com o caráter de quem sabia que desempenhava este papel e desempenhava bem.
Duas marcas impressionantes em seu trabalho: a generosidade e a correção ética. João Bittar sempre acreditou que seu trabalho era uma parte de um todo, e que este todo dependia do concurso de muitas pessoas. Por isso, nunca se inebriou de sua capacidade de interpretar a realidade, fosse através de um retrato ou de uma foto-reportagem. Nunca desprezou as pessoas que o cercavam. E até onde eu me lembro jamais se valeu de qualquer truque ou artifício para se destacar ou emprestar importância ao que, ele sabia, era importante por si só.
A maior marca da generosidade do João foi a formação de várias gerações de repórteres-fotográficos que ele orientou. Mestre e professor, ele tratava com carinho aqueles que buscavam na sua experiência e no seu saber um atalho para o trabalho.
Vivi grandes histórias com o João. Foram 40 anos de parceria jornalística e de amizade. Aprendemos e ensinamos juntos. O legado do seu trabalho vai ficar para as próximas gerações e com ele a marca do seu talento, da sua criatividade, da sua ousadia e sobretudo do seu caráter.
Nunzio Briguglio
