Dor dos bebês. Ela é ainda mais aguda nas crianças com poucos meses de vida

Um médico italiano denuncia jornais médicos que deveriam recusar a publicação de estudos científicos, incluindo bebês cuja dor não foi aliviada durante tratamentos dolorosos. Cerca de quarenta pesquisas efetuadas entre janeiro de 2013 e junho de 2015 estão em causa.

Dor dos bebês. Ela é ainda mais aguda nas crianças com poucos meses de vida
Dor dos bebês. Ela é ainda mais aguda nas crianças com poucos meses de vida

 

 

Por Delphine Chayet - Le Figaro

 

Em um artigo publicado on-line na revista internacional Acta Paediatrica, um médico italiano denuncia as dores inúteis infligidas em recém-nascidos. «Os jornais e revistas médicos deveriam se recusar a publicar estudos científicos que incluem bebês cuja dor não foi aliviada durante tratamentos dolorosos», indigna-se o Dr. Carlo Bellieni, neonatologista em uma unidade de cuidados intensivos no hospital de Siena, após ter revisto cerca de quarenta pesquisas realizadas entre janeiro de 2013 e junho de 2015.

Todos esses ensaios clínicos foram efetuados com o objetivo de medir a eficácia de tratamentos da dor, administrados nas coletas de sangue e de picadas no calcanhar, mas também de tratamentos mais específicos, como a intubação. Em quase dois terços dos estudos, os recém-nascidos incluídos no grupo «controle» receberam um simples placebo ou não receberam nenhum tratamento para reduzir seu desconforto, enquanto analgésicos com eficácia comprovada existem.

A formação de tais «grupos de controle» serve para medir e também para questionar os benefícios de um medicamento. «Ao compararmos, um novo tratamento com um analgésico já validado, a diferença entre os dois grupos tende a ser menos espetacular », decifra o Dr. Bellieni, observando por outro lado, que a dor experimentada pelos recém-nascidos durante estes exames é muitas vezes considerada «menor» pelos cientistas.

Procedimentos impossíveis na França

O professor Claude Ecoffey, anestesista pediátrico no Hospital Universitário de Rennes, contesta esses argumentos: «A percepção de desconforto é mais aguda em um bebê antes dos 6 meses de vida, devido à imaturidade do controle inibitório da transmissão da dor.» Além disso, ela produz efeitos fisiológicos (aceleração da frequência cardíaca, aumento da pressão arterial) que podem ter consequências prejudiciais para o cérebro, especialmente em prematuros. Vários tratamentos foram reconhecidos como eficazes para reduzir essa inconveniência: solução de açúcar, aleitamento, chupeta ou creme anestésico.

Os protocolos incriminados violam também as normas éticas que se aplicam à pesquisa internacional, denuncia o Dr. Bellieni. Na França, esses ensaios clínicos seriam rejeitados pelos comitês de proteção das pessoas (CPP), que supervisionam os aspectos éticos. Sua aprovação é necessária para qualquer ensaio clínico.

Os CPP´s avaliam o interesse da pesquisa em função dos riscos e restrições impostas à criança. As medidas tomadas para limitar os movimentos, as coletas de sangue e para aliviar a dor, também são vigiadas de perto, disse a Dra. Catherine Cornu, presidente de um CPP em Lyon, que relata: «A própria relevância destas pesquisas parece provavelmente questionável, na medida em que analgésicos já demonstraram sua eficácia nestas situações.»

A visão geral realizada pelo Dr. Bellieni inclui estudos efetuados na Turquia, no Brasil, na Índia e em Taiwan. «Eles foram autorizados por comitês de ética e foram aceitos por revistas internacionais conhecidas », lamenta o médico que sugere que os pais recusem estes ensaios para seus bebês.

 

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