Explosão da Deic faz um ano entregue ao descaso

O prédio da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic), no Farol, explodiu no dia 20 de dezembro de 2012 e segue sem resolução; unidade abrigava irregularmente um paiol; explosão na Deic foi investigada por uma comissão delegados da Polícia Civil e depois o inquérito policial encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE), mas às famílias atingidas pela tragédia só resta sofrimento

O prédio da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic), no Farol, explodiu no dia 20 de dezembro de 2012 e segue sem resolução; unidade abrigava irregularmente um paiol; explosão na Deic foi investigada por uma comissão delegados da Polícia Civil e depois o inquérito policial encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE), mas às famílias atingidas pela tragédia só resta sofrimento
O prédio da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic), no Farol, explodiu no dia 20 de dezembro de 2012 e segue sem resolução; unidade abrigava irregularmente um paiol; explosão na Deic foi investigada por uma comissão delegados da Polícia Civil e depois o inquérito policial encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE), mas às famílias atingidas pela tragédia só resta sofrimento (Foto: Romulo Faro)
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Gazeta Web - Revolta, saudade, tristeza e dor. Uma confusão de sentimentos que ainda estão vivos quase um ano depois. Mayara Kelly tem apenas 23 anos e já carrega o peso do sofrimento de perder a mãe de forma trágica. Genival Maurício ainda sente dores, no corpo e na alma. Perdeu uma colega de trabalho e ficou com sequelas. São histórias contadas a partir de um episódio ocorrido no dia 20 de dezembro de 2012.

O prédio da Divisão Especial de Investigação e Capturas (Deic), no Farol, abrigava irregularmente um paiol. Após sucessivas explosões, só restaram escombros. O pior é que o fato ainda está sem explicação.

Doze meses se passaram - policiais federais realizaram perícia, comissão de delegados da Polícia Civil fez investigação - e não se sabe exatamente o que aconteceu naquele dia. Não há culpados. O questionamento foi feito pelo Ministério Público Estadual (MPE), que aguarda respostas convincentes da cúpula da segurança pública. Apesar de passado tanto tempo, a família da agente Maria Amélia Lins Costa Dantas ainda quer saber o que ocorreu. Espera entender porque aquela profissional trabalhava num local tão perigoso.

"Passou muito rápido. A dor continua e a cada dia só aumenta. Ela exercia com orgulho a profissão. Fazia questão de trabalhar na polícia. Em relação à vida profissional, ela estava realizada. Tenho certeza que minha mãe não sabia de nada. Se ela soubesse que ali tinha explosivos, não iria trabalhar lá. Ela não aceitaria aquela situação", declarou Mayara Kelly Lins Costa, universitária, filha de Amélia, que era sindicalista.

Lembranças

A universitária afirmou que os dias se passaram, mas continuam na memória os detalhes do que aconteceu naquele dia 20 de dezembro - uma quinta-feira - no prédio localizado na Avenida Moreira e Silva, no topo da Ladeira dos Martírios, no Farol. "Na verdade meu sentimento é de revolta e saudade. Ela era corajosa, mas não colocaria a vida dela em risco. Minha mãe tinha claustrofobia e não sei como ela ficou naquele momento. Deve ter ficado muito nervosa. Fico pensando nisso. Isso fica na minha cabeça", disse Mayara.

Ela lembra que conversou com Amélia trinta minutos antes da explosão. No papo, pelo Facebook, a agente falou da vida, sempre de forma otimista, e as duas marcaram de se encontrar no dia seguinte. "Já tinha uns dias que a gente não se via, porque eu estava na casa da minha avó. Pretendo ser como ela, trabalhadora. Ela estava realizada profissionalmente", afirmou Mayara que cursa administração.

Dores

Vítimas estavam de plantão na Deic e ficaram feridas (Foto: Gazetaweb/Arquivo)
O policial civil Genival Maurício da Silva ficou ferido durante a explosão. Ele estava de plantão junto com Amélia e outros três colegas. Teve fraturas pelo corpo, ficou internado vários dias, sofreu e sofre até hoje. Voltou ao trabalho, ainda na Deic, no mês de agosto, mas nada é como antes.

"Tenho sequelas. Até hoje tomo remédios para dor. Voltei a trabalhar, mas não tenho o mesmo desempenho de antes. Não tem como esquecer, porque todo dia tenho dor. Todo dia lembro-me do que aconteceu e passo em frente ao local onde ficava a Deic. Isso acontece todos os dias", lembrou Genival.

As dores atingem, principalmente, os ombros e os joelhos de Genival. "Estou fazendo pilates para relaxar a musculatura, mas as dores continuam. No momento da explosão, fiquei consciente o tempo todo. A Amélia ficou desesperava, gritava muito", lembra Genival Maurício, que é missionário da Igreja Batista. O agente de polícia conta que não sabia que ali estavam estocados explosivos e conta que com a chegada do mês de dezembro, as lembranças foram ficando ainda mais fortes. "Uma cadeira protegeu minha cabeça, porque poderia ser bem pior", disse.

Descaso

Genival Maurício questiona o armazenamento dos explosivos no antigo prédio da Deic e denuncia o descaso com que foi tratado, em alguns momentos. "Alguém permitiu ou negligenciou e deixou o material lá. Aconteceu uma tragédia e o amparo foi muito pouco. Fiquei em casa sete meses. Aí recebia o salário, mas perdi dinheiro porque estava afastado das minhas funções. Como tinha que me deslocar todo dia para fazer tratamento e morava no Graciliano Ramos, gastava muito", afirmou.

Concursado de 1992, faltam apenas cerca de quatro anos para Genival se aposentar. Foram três meses de tratamento e apenas parte dele foi bancado pelo governo estadual. Apesar de questionar o descaso, preferiu desistir de cobrar ajuda, porque era trabalhoso demais. O agente não foi indenizado. "A burocracia foi o mais doloroso. Correr atrás de ajuda foi muito difícil para minha família", disse.

O presidente do Sindicato dos Policiais Civis de Alagoas (Sindpol/AL), Josimar Melo, criticou a investigação sobre a explosão. "Ninguém descobriu a causa, o motivo, o que provocou aquela explosão. Isso é um absurdo. Tanto tempo depois e ninguém foi responsabilizado pelo armazenamento dos explosivos. É inadmissível no tempo de hoje não se descobrir o que aconteceu", afirmou.

Investigação

A explosão na Deic foi investigada por uma comissão delegados da Polícia Civil e depois o inquérito policial encaminhado ao Ministério Público Estadual (MPE). Ao tomar conhecimento do resultado das apurações, o promotor de Justiça Cláudio Pinheiro pediu ao Corpo de Bombeiros nova perícia técnica do prédio. "Mandamos, na segunda-feira (9), para o Paulo Cerqueira (delegado-geral da Polícia Civil), documento que constata que não temos condições de fazer a perícia. Foi designada comissão de peritos que constatou isso", afirmou o assessor dos Bombeiros, Paulo Marques.

O delegado Robervaldo Davino, que também integrou a comissão que investigou a explosão na Deic, informou que o inquérito foi concluído há algum tempo e retornou a pedido do MPE que determinou novas diligências. O promotor Cláudio Pinheiro solicitou nova perícia no local porque a que foi realizada pela Polícia Federal não apontava os responsáveis pela explosão. Imóveis localizados próximos à antiga Deic tiveram a estrutura comprometida.

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