Faz extensão de cabelo? Estudos indicam riscos na prática
Os resultados reforçam preocupações antigas de especialistas sobre a segurança desses produtos
247 - Um dos levantamentos mais amplos já realizados sobre a composição química de extensões de cabelo encontrou dezenas de substâncias associadas a riscos à saúde, incluindo compostos ligados a câncer, desregulação hormonal, problemas reprodutivos e impactos no sistema imunológico.
O estudo chama atenção para um mercado pouco regulado, mas amplamente difundido em diferentes países. As informações são do g1, em reportagem de Talyta Vespa, e têm como base uma pesquisa conduzida pelo Silent Spring Institute e divulgada na revista científica Environment & Health, da American Chemical Society.
Os resultados reforçam preocupações antigas de especialistas sobre a segurança desses produtos, especialmente pelo uso frequente entre mulheres negras. Dados citados pelos pesquisadores indicam que mais de 70% das mulheres negras relataram ter usado extensões de cabelo ao menos uma vez no último ano, proporção significativamente maior do que a observada em outros grupos raciais e étnicos. Para os autores, essa diferença de exposição amplia a relevância do tema como uma questão de saúde pública e de equidade.
Para chegar às conclusões, a equipe liderada pela cientista Elissia Franklin comprou 43 produtos populares, adquiridos tanto pela internet quanto em lojas especializadas. As amostras incluíam extensões feitas de materiais sintéticos, geralmente derivados de plásticos, e também opções de origem biológica, como cabelo humano, fibras de banana e seda.
Os pesquisadores também avaliaram as alegações feitas pelos fabricantes. Entre os produtos sintéticos, havia extensões anunciadas como resistentes ao fogo, ao calor ou à água. Outras eram apresentadas como “não tóxicas” ou “mais seguras”. Segundo os autores, esses tratamentos químicos costumam ser usados para aumentar a durabilidade, reduzir a inflamabilidade e permitir o uso de calor durante a modelagem, mas as empresas raramente informam quais substâncias utilizam para alcançar esses efeitos.
Para identificar a composição dos produtos, foi empregada uma técnica chamada análise não direcionada, que permite rastrear uma grande variedade de substâncias, inclusive aquelas que não costumam aparecer em testes tradicionais. Com métodos avançados de laboratório, a equipe detectou mais de 900 sinais químicos nas amostras e conseguiu identificar 169 substâncias diferentes, agrupadas em nove grandes classes químicas.
Entre esses compostos estavam agentes usados para reduzir a inflamabilidade, aumentar a flexibilidade dos plásticos ou preservar o material. Muitos deles já haviam sido associados, em pesquisas anteriores, a alterações hormonais, irritação da pele, efeitos no desenvolvimento, impactos no sistema imunológico e câncer.
O dado que mais chamou a atenção foi o fato de que 41 das 43 amostras continham substâncias consideradas potencialmente perigosas à saúde. As únicas exceções foram produtos rotulados como “não tóxicos”. Além disso, 48 das substâncias identificadas aparecem em listas internacionais de risco, e 12 estão incluídas na Proposição 65 da Califórnia, que reúne agentes associados a câncer, malformações fetais ou danos reprodutivos.O estudo também
encontrou 17 substâncias relacionadas ao câncer de mama em 36 dos produtos analisados. Quase 10% das amostras continham compostos organoestânicos, alguns em concentrações acima dos limites considerados seguros na União Europeia, o que reforça o alerta sobre possíveis riscos regulatórios e sanitários.“Ficamos especialmente surpresos ao encontrar esse tipo de composto”, afirma Franklin. “Eles são usados principalmente na indústria de plásticos e já foram associados a irritação da pele —uma queixa comum entre usuárias de extensões— além de efeitos hormonais e risco aumentado de câncer.”
Para os pesquisadores, os resultados indicam a necessidade de maior transparência por parte dos fabricantes, de regras mais claras sobre a composição desses produtos e de mais estudos para avaliar o impacto da exposição prolongada. Enquanto isso, especialistas defendem que consumidores sejam informados sobre os potenciais riscos e que autoridades de saúde acompanhem mais de perto um mercado que cresce rapidamente e atinge milhões de pessoas.