Fukushima. Os impactos do desastre sobre a saúde dos moradores
Com base em um questionário enviado anualmente às 210 mil pessoas deslocadas da área do acidente nuclear após janeiro de 2012, um estudo tenta elaborar uma avaliação da saúde dessas populações.
Por Marc Cherki – Le Figaro
Cinco anos após o desastre nuclear, seus impactos sobre a saúde dos japoneses ainda estão controversos. Depressões em série afligiram populações diretamente afetadas pelo acidente: o Instituto Waseda de antropologia médica, no final de uma pesquisa recente realizada com 16 mil refugiados, avaliou que 40 % deles foram afetados por uma síndrome de estresse pós-traumático.
As pessoas deslocadas superaram seu trauma, mas as famílias mais jovens não querem mais voltar às cidades-fantasmas situadas no condado de Fukushima, sobretudo aquelas nos arredores da central, apesar dos esforços das coletividades locais e do ministério do Meio Ambiente para reduzir as marcas do desastre. Essas famílias refizeram suas vidas em outro lugar, em áreas onde a radioatividade não é mais um desafio. Com base em um questionário enviado anualmente para essas 210 mil pessoas deslocadas após janeiro de 2012, um estudo tem tentado estabelecer uma avaliação de saúde dessas populações. Apesar de uma taxa de resposta elevada para a pesquisa de 2012 (cerca de 40 %), «ao longo dos anos, as pessoas devem sentir-se menos implicadas. O número de pessoas respondendo à avaliação diminuiu, diz Jean-René Jourdain, assistente executivo na diretoria do homem no Instituto de Radioproteção e de Segurança Nuclear (IRSN). Durante a quarta campanha, o sobrepeso havia diminuido, exceto para as mulheres entre 40 e 64 anos de idade, enquanto o ganho de peso foi significativo no começo.» Mas qual é a validade destas pesquisas com base no voluntariado?
Compensação financeira
Estudos mais específicos sobre o câncer da tireóide que pode ser radioinduzido, são objeto de controvérsia. Segundo especialistas da área nuclear, ainda é muito cedo para se vincular o acidente nuclear aos 114 casos de cânceres da tireóide confirmados no final de 2015 em moradores da prefeitura de Fukushima que tinham menos de 18 anos de idade em março de 2011. « Somente se a incidência anual do câncer da tireóide em crianças aumentar, a partir do período de 2016-2018, ou durante os períodos subsequentes, é que um vínculo com o acidente poderá ser mencionado », acrescenta o IRSN. A incidência foi de 11 casos em 100 mil crianças no período 2011-2014 e entre 4 e 14 para os próximos dezoito meses. No final de um estudo publicado na revista Epidemiology no final de 2015, o Prof. Toshihide Tsuda, da Universidade de Okayama, calculou uma incidência de 30 casos em 100 mil. Mas «não houve registros de cânceres da tireóide antes do acidente na prefeitura de Fukushima. Para este estudo, os casos dos meninos e meninas são agregados, o que é uma pena, pois a Universidade de Fukushima tem dados separados por sexo. Finalmente, os casos anteriores ao acidente não são levados em consideração?», pergunta o especialista do IRSN.
Quanto aos trabalhadores que intervieram na central, por enquanto, apenas um trabalhador da área nuclear foi elegível para uma «compensação financeira » após ter desenvolvido uma leucemia. Três outros casos estão sob investigação, enquanto três casos foram rejeitados e um retirou sua queixa.
«Alguns milhares de mortes foram atribuídas à radioatividade após o acidente de Tchernobyl. Nunca teremos o número exato mesmo sabendo que houve 57 mortes e cerca de 500 mil pessoas obtiveram uma pensão por danos», explica Jacques Repussard, o chefe do IRSN. O desastre de Tchernobyl ocorreu 25 anos antes de Fukushima. Portanto, ainda muito cedo para se afirmar, como querem alguns, que mais de mil mortes relacionadas com a radioatividade já foram constatadas na região de Fukushima.
