Grupo criminoso falsifica assinatura de médicos
Mais de 20 médicos alagoanos de diferentes especialidades tiveram assinaturas, registros profissionais e receituários falsificados por uma rede criminosa que atua no Estado. Entre os beneficiários estão dois cabos da Polícia Militar que confessaram - em depoimento à Polícia Civil - que compravam as licenças médicas por R$ 30. Objetivo era fugir do trabalho
Alagoas247 - Atendendo a um expediente encaminhado pelo procurador-geral de Justiça de Alagoas, Sérgio Jucá, o delegado Carlos Reis, diretor de Polícia Judiciária Metropolitana, ficou responsável pelas diligências do caso. Durante a investigação, que acontece há pouco mais de três meses, o delegado chegou à conclusão que essa prática pode ser maior do que a apontada inicialmente pelo Ministério Público. Ele não descarta a existência de uma organização criminosa, mas assegura que os responsáveis apostavam que não iriam chamar atenção das autoridades.
"Impressionante o número de vezes que essas pessoas ficaram doentes nos últimos meses. A enxurrada de licenças médicas chamou atenção e o Ministério Público pediu investigação. São inúmeros casos e ainda estamos investigando dezenas. No entanto, neste primeiro momento, já indiciamos dois militares e uma comerciária. Outras pessoas serão ouvidas e podem ter o mesmo caminho, inclusive outros policiais. Os cabos confessaram que compravam por R$ 30, com objetivo de curtir um feriadão. Fato este completamente lamentável. A Polícia Civil cumpre, mais uma vez, seu papel institucional", destacou Reis.
A audácia dos criminosos foi tanta que eles chegaram ao ponto de falsificar também receituários de grandes hospitais de Alagoas. Com o inquérito policial em mãos, Carlos Reis falou que muitas vezes a 'doença' dos cabos apontada na licença não batia com a especialidade do médico, que supostamente havia assinado a concessão.
"Todos os médicos que tiveram suas assinaturas falsificadas, prestaram depoimento e negaram participação. Em alguns casos, houve a necessidade de exame técnico e a inocência deles foi constatada. Neste caso, os profissionais também são vítimas. Identificamos a pessoa responsável pela confecção das falsas licenças e estamos à sua procura. Ele pode ser preso a qualquer momento", avisou o delegado. Só com a prisão, Reis acredita que poderá precisar o tamanho da rede criminosa.
Diante do conjunto probatório juntado ao inquérito policial, o Conselho Regional de Medicina de Alagoas (Cremal) acredita que há uma rede criminosa atuando na falsificação das licenças. O presidente da entidade, Fernando Pedrosa, sugere que os responsáveis sejam punidos ao rigor da lei. Pedrosa aponta o sentimento de impunidade como maior combustível para o crescimento dos casos não só em Alagoas, como em todo Brasil.
"Não há a mínima fiscalização da confecção de carimbos ou receituários. Nós, médicos, passamos uma medicação e esses criminosos conseguem facilmente reproduzir uma cópia. É preciso que Estado e Prefeitura trabalhem em parceria para coibir essas situações. A sociedade não pode sofrer mais com essas ações criminosas", sugeriu.
O presidente do Conselho de Medicina lembra que as licenças têm legalmente fé de ofício e muitas vezes Instituições Pública e Privadas ficam reféns dos criminosos. "Ficaria muito satisfeito se os responsáveis por esses crimes fossem presos. Quem arca com todo prejuízo é a população. Havendo suspeita, denuncie o caso. A Polícia não encontra dificuldade para localizar essas pessoas", sugeriu.
O subcomandante da Polícia Militar, coronel Mário da Hora, reconhece que o atual modelo facilita a prática criminosa em surpreende ao afirmar que o número de militares que apresentam atestado falso é bem maior do que o anunciado pela Polícia Civil. Para reprimir tal ação, o Conselho Estadual de Segurança Pública de Alagoas (Conseg) aponta mudanças na concessão das licenças médicas e, para isso, os deputados da Assembleia Legislativa de Alagoas (ALE) devem apreciar a sugestão elaborada pelo conselheiros nos próximos dias.
"Acredito que a decência moral é o que falta a esses policiais. Infelizmente, essa situação não deve ser isolada deste caso in loco. O número de falsificação é maior, não tenho dúvida. É importante que possamos identificá-los e, assegurando o direito a ampla defesa, puni-los exemplarmente. Em todas as profissões, existem as frutas podres e essa ação criminosa não recebe apoio do comando da Polícia Militar", lamentou, lembrando que os acusados responderão ao Inquérito Policial Militar (IPM), que pode resultar, inclusive, na expulsão.
Entre as sugestões apontadas pelo Conseg, destacam-se duas: a primeira diz respeito à digitalização de todas as licenças apresentadas pelos militares, além da junção das respectivas nas fichas funcionais. Caso não haja alteração no atual modelo, reforça Mário da Hora, a população alagoana seguirá como a maior prejudicada. "Em virtude da série de atestados médicos apresentados, a população figura no topo como a maior prejudicada. Sem força policial nas ruas, fica muito difícil realizar rondas. A proposta do Conselho ainda está aberta a sugestões, mas estamos no caminho certo", informou o oficial.
A segunda proposta versa sobre o período de readaptação dos militares. Hoje, havendo danos físicos irreversíveis o policial é reformado (aposentado). Entretanto, com a nova proposta ele passará a desempenhar funções administrativamente de acordo com a capacidade motora. "Por ora, este é meio que encontramos para otimizar o serviço. O período de readaptação é fundamental e todo processo será acompanhado por uma junta médica. A atualização destas normas resultará num ambiente agradável não só para a população, como também para nossa classe militar", concluiu.
Com gazetaweb.com