Indústria perde 1º semestre e já torce pelo 2º
Com recuo no emprego, nas horas trabalhadas, salário e faturamento, o primeiro semestre do setor em Minas Gerais está comprometido. Mas a expectativa é otimista para os últimos seis meses do ano, quando as medidas econômicas adotadas pelo governo e Banco Central, principalmente a redução dos juros, terão efeito
Minas 247 – O IBGE divulgou recuo de 1,3% nos postos de trabalho nas indústrias mineiras. O resultado se refere ao mês de abril, e é o sétimo negativo seguido. Os números do emprego refletem a queda na produção nos quatro primeiros meses do ano, que foi de 1,4% se comparada ao mesmo período do ano passado. A expectativa é de que as medidas de estímulo à economia adotadas pelo governo federal e pelo Banco Central, como a redução da taxa de juros, só surtam efeitos na indústria a partir do próximo semestre. No entanto, ainda não se sabe se a recuperação esperada para iniciar em julho será suficiente para salvar o ano.
Confira a reportagem da jornalista Marta Vieira, do jornal Estado de Minas
A queda do emprego na indústria brasileira em abril jogou num precipício as projeções que as empresas ainda alimentavam para reverter o desempenho negativo das fábricas até junho. O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou, ontem, recuo de 1,3% dos postos de trabalho no setor frente a abril do ano passado, sétimo resultado no vermelho e que atinge 13 dos 18 segmentos pesquisados. Com diferente metodologia, os indicadores da Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais (Fiemg) mostraram nova piora em retração generalizada frente a março, de 0,9% do quadro de pessoal; 6,2% nas horas trabalhadas; 12,1% no conjunto dos salários pagos e de 9,1% no faturamento. O primeiro semestre está praticamente perdido, a despeito das medidas adotadas pelo governo para reanimar a economia, reconheceu o presidente do Conselho de Política Econômica e Industrial da Fiemg, Lincoln Gonçalves Fernandes.
O recuo do emprego reflete o nível menor de produção da indústria, que no Brasil baixou 2,8% de janeiro abril e em Minas está 1,4% inferior ao acumulado nos primeiros quatro meses do ano passado, ainda de acordo com o IBGE. “Vamos fechar o semestre com índices muito fracos e uma perspectiva de recuperação no segundo semestre. Não sabemos é se essa retomada será suficiente para salvar o ano”, afirma Lincoln Fernandes. Diferentemente da Fiemg, o IBGE ainda não apurou redução do emprego industrial em Minas, mas a perda de fôlego como tendência do indicador ficou evidente nos números.
O quadro de pessoal da indústria, de acordo com o levantamento do instituto, cresceu 1,1% em abril, ante o mesmo mês do ano passado, influenciado pelo resultado melhor que na média nacional de ramos como a indústria automotiva, de produtos químicos e de metal, de calçados e couro e da mineração. No acumulado dos últimos 12 meses, no entanto, o IBGE mostra decréscimo das contrações também no estado desde junho do ano passado. Nessa base de comparação até abril, o emprego cresceu 2%, frente a expansão de 2,23% nos últimos 12 meses até março e de 2,32% até fevereiro.
Paliativos
Quando a produção fraqueja, em geral, as empresas tentam cortar o número de horas trabalhadas antes de gastar com demissões ou se ver obrigadas a recontratar pessoal mais tarde, observa o analista do IBGE Antônio Braz de Oliveira e Silva. “A exemplo do Brasil, o emprego industrial em Minas vem decrescendo e a tendência é de que em poucos meses caia a um nível de estabilidade ou se retraia”, avalia. As medidas de estímulo à economia, como a redução das taxas de juros, e a ata do dólar que favorece as exportações só deverão ter impacto efetivo sobre o setor no segundo semestre, para Felipe Queiroz, analista da empresa de consultoria Austin Rating.
“É bem provável um resultado negativo da indústria neste semestre. As medidas adotadas pelo governo são paliativas, embora estejam surtindo efeito, mas que só se ampliam a partir de junho”, afirma Queiroz. Para o analista, não há dúvidas de que instrumentos complementares aos juros menores e a maior oferta de crédito na economia serão necessários num ambiente em que a crise internacional ganhar força.
Aposta
Repetindo o discurso da presidente Dilma Rousseff, o presidernte do Banco Central, Alexandre Tombini, defendeu, ontem, que a economia brasileira terá um crescimento mais forte a partir de julho. Tombini admitiu, entretanto, que a crise internacional vai trazer volatilidade e expansão abaixo do esperado nos próximos dois anos. “Teremos um crescimento mais forte no segundo semestre deste ano, pela série de estímulos que a economia já recebeu”, disse o presidente do BC. O governo trabalhava com meta de crescimento de 4% a 5% neste ano, mas já não enfatiza esses números. Há analistas apostando em percentuais de 2,5% a no máximo 3%.
Falta fôlego suficiente para retirar a indústria do vermelho nos próximos dois meses, observa Guilherme Veloso Leão, gerente de estudos econômicos da Fiemg. Com uma pesquisa mais abrangente que a do IBGE, que cobre o estado, enquanto o instituto oficial tem como base o comportamento da Região Metropolitana, a Fiemg constatou de janeiro a abril a primeira queda do emprego industrial, de 0,28%, depois de 27 taxas de crescimento no acumulado do ano, desde janeiro de 2010.
O faturamento real da indústria mineira caiu 4,4% no ano, repetindo o comportamento já verificado a partir de fevereiro. De 15 segmentos analisados, só três fugiram da retração, os de alimentos, vestuário e acessórios e de metalurgia básica. Segundo Lincoln Fernandes, presidente do Conselho de Política Econômica da Fiemg, os dados mostram que parte das empresas estão operando em nível semelhante ao de janeiro a abril do ano passado quando se trata do uso da capacidade instalada. “Se estamos nesse ritmo e sofremos queda de faturamento, significa que os estoques estão aumentando, o que é ruim. Estoque alto adia investimentos”, afirma.