Inflação, Selic e investimentos

Entenda como as duas variantes interferem nas decises do investidor. Taxa bsica de juros em queda indica tendncia de alta nos preos dos ativos de renda varivel

Inflação, Selic e investimentos
Inflação, Selic e investimentos (Foto: Shutterstock)

Arthur Vieira de Moraes* para o 247 - Inflação e selic ficam nas pontas da vara que o equilibrista usa para caminhar pela corda bamba. Esse equilibrista é o Banco Central do Brasil. Sua principal função é garantir que a inflação fique dentro da meta estabelecida pelo CMN (Conselho Monetário Nacional), e sua maior ferramenta para o controle da inflação é a taxa selic.

Todos querem juros baixos para estimular a economia e gerar crescimento, mas ninguém quer inflação alta. Esta difícil equação é a eterna preocupação do Banco Central: encontrar a medida certa da taxa selic para permitir um crescimento sustentável, mas com inflação dentro da meta.

Muitos fatores pressionam os preços e causam inflação, e talvez o principal deles, atualmente, seja a falta de infraestrutura no País. Mas não compete ao Banco Central mandar construir aeroportos e estradas, isto é decisão para o Executivo. Resta ao Banco Central cuidar da febre (e não da doença), e isto é feito com o amargo remédio da taxa selic.

Toda vez que a inflação (febre) sobe, o Banco Central aumenta a taxa selic (remédio) para encarecer o crédito, desestimular o consumo e frear a inflação. Se após 45 dias (na reunião seguinte do Copom) a febre não tiver baixado, o Banco Central aumenta a dose do remédio, ou seja, sobe mais os juros. Até que a situação se normalize, e a febre comece a baixar. Neste caso, os juros podem voltar a cair, para estimular a economia, e seguem caindo enquanto possível. Mas se o estímulo for demasiado, a inflação volta, e os juros precisam subir novamente.

Sempre assim, em busca do equilíbrio, a taxa selic vai subindo e descendo.

E os investimentos com isso?

A taxa selic serve de referência para as aplicações financeiras atreladas ao CDI, como CDB, LCI, fundos de renda fixa etc. Estas aplicações de baixo risco definem o custo de oportunidade de um investimento.

Custo de oportunidade é um raciocínio que todo investidor consciente faz, comparando uma aplicação financeira de baixo risco com um investimento que possui riscos. Quer dizer, se existe oportunidade de ganhar x% em uma aplicação de baixo risco, só vale a pena investir em ativos de risco se a expectativa de ganho for maior.

Vejamos na prática: um CDB que pague 100% do CDI deverá render 8,75% em um ano -- considerando a taxa selic atual, em 9% ao ano. Esse rendimento é tributado na ordem de 20%. Portanto, o rendimento líquido será de 7% ao ano. Quem tem oportunidade de ganhar 7% em uma aplicação de baixo risco só vai pensar em fazer um investimento arriscado (ações, fundos imobiliários, imóveis, negócio próprio, agropecuária etc.) se acreditar que pode ter um retorno superior.

Custo de oportunidade muito alto desestimula os mercados de risco. Investidores de todos os portes preferem deixar dinheiro aplicado no banco ao invés de investir. O efeito deste comportamento é menor demanda para os ativos de risco. As taxas de juros no Brasil sempre foram muito altas, até pouco tempo atrás era fácil ganhar dinheiro na renda fixa, o custo de oportunidade para investimentos de risco era alto.

Com as quedas na taxa básica de juros que o Copom vem promovendo neste ano, a situação está mudando rapidamente. Os ganhos fáceis das aplicações financeiras estão "secando", e os investidores que quiserem rentabilidades maiores terão que colocar o dinheiro para circular nos mercados de risco.

Então, quanto mais alta a inflação, mais alta a taxa selic, maiores os ganhos das aplicações de baixo risco, maior o custo de oportunidade. A consequência é tendência de queda nos preços dos ativos de renda variável. O inverso é verdadeiro. Quanto mais baixa a inflação, mais baixa a taxa selic, menores os ganhos das aplicações de baixo risco, menor o custo de oportunidade. Portanto, tendência de alta nos preços dos ativos de renda variável.

Tendência não é certeza de alta ou de baixa nos preços dos ativos. Além disso, os mercados são influenciados por "n" fatores, uns matemáticos e racionais, outros subjetivos e emocionais. Mas o custo de oportunidade é uma medida racional importante para a tomada de decisão do investidor. Portanto, é preciso ficar atento também aos rumos da economia para fazer bons investimentos.

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* Arthur Vieira de Moraes é agente autônomo de investimentos, membro orientador do Instituto Nacional de Investidores (INI) e autor do blog Bastidores da Bolsa

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