Influencers denunciam golpe de agência e calote de 500 mil
Com mais de 2,5 milhões de seguidores nas redes sociais, o casal afirma que as irregularidades só foram percebidas após um longo período
247 - Os influenciadores Gustavo Catunda e Robert Rosselló, criadores do perfil 2depais, afirmam ter identificado um prejuízo superior a R$ 500 mil em um acordo firmado com a agência Hello Group, responsável por intermediar campanhas publicitárias e administrar os pagamentos recebidos em nome do casal. O caso veio à tona após os dois decidirem confrontar informações repassadas pela empresa com dados obtidos diretamente junto às marcas.
As informações foram relatadas em entrevista ao G1. Com mais de 2,5 milhões de seguidores nas redes sociais, o casal afirma que as irregularidades só foram percebidas após um longo período de orientações para que eles se mantivessem afastados de marcas, colegas de profissão e até de comparações de valores praticados no mercado.
Segundo Gustavo e Robert, a agência justificava o isolamento como uma forma de “cuidar da imagem” dos influenciadores. “Era sempre assim: ‘nunca conte qual é o seu trabalho, quanto você está ganhando, nunca fale com as pessoas, porque isso vai te derrubar’”, relatou Robert. Ele afirma que a condução era marcada por um discurso de controle e medo. “Deixa que eu tomo conta de tudo, eu resolvo tudo”, completou.
O contrato previa que 70% dos valores das campanhas seriam repassados aos influenciadores, enquanto a agência ficaria com 30% de comissão. No entanto, de acordo com o casal, os pagamentos começaram a atrasar com frequência, sempre acompanhados de explicações genéricas, como dificuldades do mercado ou burocracias internas das empresas contratantes.
No início, os atrasos pareceram pontuais. “A gente via briefing, valor, prazo. Mas, quando chegava a parte do pagamento, sempre tinha um porém”, lembrou Robert. Como toda a comunicação com as marcas era feita exclusivamente pela agência, eles afirmam que não tinham meios de confirmar as informações.
A parceria teve início em 2021, quando o perfil ainda era pequeno e retratava a rotina do casal rumo à paternidade. Naquele momento, o dono da agência teria prometido profissionalizar o conteúdo e ampliar as oportunidades comerciais. O acordo concedia à Hello Group exclusividade para negociar campanhas, assinar contratos, emitir notas fiscais, receber pagamentos e fazer os repasses.
De acordo com os influenciadores, nos primeiros meses a relação parecia funcionar. O perfil cresceu, as campanhas aumentaram e eles se mudaram para São Paulo. “Ele entregou tudo o que prometeu no começo”, disse Gustavo. Com o tempo, porém, os atrasos se tornaram recorrentes e o acesso às informações financeiras passou a ser cada vez mais restrito.
Sem relatórios formais ou prestação de contas, o casal decidiu montar uma planilha própria para controlar campanhas e valores. A desorganização aparente levou à suspeita de que algo não estava certo. “Quando alguém se coloca como amigo, como protetor, você não quer acreditar”, afirmou Robert.
A situação se agravou no fim de 2024, quando campanhas fechadas em novembro ainda não haviam sido pagas no início de 2025. O casal afirma que passou meses sem receber valores, o que começou a comprometer o orçamento familiar. Foi então que decidiram entrar em contato direto com algumas marcas.
Segundo Robert, a confirmação veio em um momento crítico. “Nossa filha estava com meningite (…) ela estava passando mal. A gente levou ela para o hospital. No caminho para o hospital, recebemos o primeiro comprovante de que não existia nenhum pagamento em atraso em relação àquela marca.” O documento mostrava que o valor havia sido quitado cinco ou seis meses antes.
“Ali, a ficha caiu”, recordou Gustavo. Após esse episódio, eles procuraram outras empresas e, segundo o casal, todas confirmaram que os pagamentos já tinham sido feitos à agência.
Com os comprovantes reunidos, Gustavo e Robert buscaram um advogado e levaram o caso ao Ministério Público, apontando a possibilidade de apropriação indébita majorada, quando alguém recebe valores em nome de terceiros e não os repassa. Também foram solicitados bloqueio de bens e prestação de contas.
Em decisão proferida na segunda-feira (19), o juiz Caio Hunnicutt Fleury Moraes entendeu que não havia provas suficientes para autorizar o bloqueio de valores da agência ou o depósito judicial. No entanto, determinou que uma patrocinadora com contrato de R$ 42 mil pague diretamente aos influenciadores a parte que lhes cabe.
Além do prejuízo direto, o casal afirma que teve de arcar com consequências fiscais. Sem receber os valores, precisaram emitir notas fiscais e acabaram acumulando dívidas tributárias superiores a R$ 40 mil, que foram parceladas. “Era para estarmos vivendo uma fase boa (…) e estávamos vivendo apertados”, desabafou Robert.
Ele também relatou impactos emocionais e de saúde, incluindo o desenvolvimento de uma doença autoimune associada ao estresse. “Você passa a achar que qualquer um pode te enganar”, disse.
Após a repercussão do caso, outros influenciadores teriam procurado o casal relatando experiências semelhantes com a mesma agência, o que, na avaliação deles, indica que o problema pode não ser isolado. “É um assunto de que ninguém fala (…) é importante levar informação às pessoas para que mais ninguém caia em uma situação como essa.”