Ir ao espaço. Para entender o ser humano na Terra
Os efeitos fisiológicos no corpo humano após uma estadia em uma nave espacial não estão apenas relacionados à ausência de gravidade. «As viagens ao espaço aparecem como um modelo acelerado das consequências da inatividade física no organismo humano aqui na Terra, diz a Dra. Marie-Pierre Bareille, coordenadora dos estudos de simulação espacial no Medes (Instituto de Medicina e de fisiologia espaciais). A observação dos astronautas, mesmo que ela nos faça sonhar com a conquista do espaço, nos permite sempre questionar sobre a fisiologia em terra e estudar soluções aplicáveis a todos.»
Por Pauline Léna – Le Figaro
Desde as primeiras viagens espaciais, os cientistas puderam observar as alterações fisiológicas em astronautas no seu retorno à Terra, relacionadas com a micro-gravidade. Perda óssea, muscular e descondicionamento cardiovascular: sintomas estes também observados no envelhecimento humano e que aumentaram as esperanças de que os remédios desenvolvidos para proteger os cosmonautas destes males do espaço, proporcionariam um tratamento de rejuvenescimento aos seres humanos aqui na Terra.
No entanto, experiências mais recentes identificaram um novo elemento que muda a situação: o envelhecimento prematuro das artérias dos espaçonautas está apenas parcialmente relacionado à microgravidade. De fato, ele tem sido observado no decorrer de testes de confinamento de longo prazo realizados na Terra, em plena gravidade, e parece mais relacionado ao estresse da vida em ambiente restrito ou a uma dieta pouco diversificada.
O sangue flui para a parte superior do corpo e do coração
No espaço, os seres humanos estão sujeitos a uma falta de gravidade, que desde as primeiras horas, modifica a distribuição de fluídos no organismo. O sangue flui para a parte superior do corpo e do coração, que registra esta informação como um excesso de líquido, provocando uma diminuição média de 1,5 litros do volume sanguíneo. Nenhum problema para um taikonauta (astronauta em chinês) enquanto ele permanecer em órbita, mas, ao retornar à Terra, o volume sanguíneo não é mais suficiente para irrigar o cérebro e a síncope é quase inevitável - 10 a 15 % dos espaçonautas sofrem com isso.
Na verdade, o sistema cardiovascular não está mais adaptado às condições terrestres. Este descondicionamento se aplica também aos músculos e aos ossos: na ausência de gravidade contra a qual resistem, os músculos perdem sua capacidade de esforço e, os ossos, por sua vez, perdem a estimulação constante dos músculos, necessária ao funcionamento dos osteócitos. Na falta de exercício físico, a frequência cardíaca não aumenta: o epitélio dos vasos não é mais estimulado pelas forças de atrito e entra em repouso. «Certos fatores protetores vasculares já não são mais produzidos, com um aumento de risco de aterosclerose », diz o Prof. Marc-Antoine Custaud, da Universidade de Angers, que há vários anos, participa de estudos sobre as consequências cardiovasculares após estadias no espaço. Este efeito de envelhecimento desaparece em alguns meses após o retorno à Terra. Os astronautas (aqueles que viajaram para mais de 100 km da Terra para os americanos) sofrem certos desequilíbrios metabólicos que causam a aterosclerose, o endurecimento da parede arterial ou a substituição da massa muscular pela massa gorda.
Surgimento de uma resistência à insulina
Os testes de confinamento realizados na Terra permitiram observar que alguns destes efeitos não estavam relacionados à ausência de gravidade mas à uma inatividade física que se assemelha a um repouso prolongado e às duras condições de vida em um espaço limitado, com as mesmas pessoas, durante vários meses. Durante testes de simulação por repouso, os pesquisadores observaram o surgimento de uma resistência à insulina ou ainda, um desequilíbrio de utilização dos substratos glucídicos e lipídicos que correspondem às fases iniciais do desenvolvimento de diabetes. Alguns indicadores metabólicos se assemelham também ao que foi observado em indivíduos com mais de 50 anos de idade, sujeitos a fatores de risco como o tabagismo, uma alimentação desequilibrada, um estresse importante e uma falta de atividade física. «Os cosmonautas (os russos), que estão em excelente condição física sem esses fatores de risco, são um modelo bastante puro de inatividade física em situação de estresse psicológico para entender melhor uma situação que pode existir aqui na Terra », se entusiasma o Prof. Custaud.
Se alguns anos ainda serão necessários para entender todos os mecanismos responsáveis por estas modificações, algumas das contramedidas aplicadas aos astronautas podem, portanto, a partir de hoje, se aplicar a todos os seres humanos presos na Terra, para melhorar sua saúde e, provavelmente, sua vida útil. Para os que escaparão para Marte, o verdadeiro desafio não consistirá em lutar contra a gravidade ou a radiação, mas aprender a apoiar os outros no espaço minúsculo de uma nave espacial por vários anos. Ida e volta!