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Joanna Maranhão denuncia xenofobia em escola alemã contra seu filho: "seus pais serão deportados"

Filho da ex-atleta ouviu de colega que seus pais seriam deportados da Alemanha.

Joanna Maranhão (Foto: Reprodução)
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247 - A ex-nadadora olímpica Joanna Maranhão afirmou que precisou explicar ao filho Caetano, de 6 anos, que ele não seria separado dos pais depois que um colega de escola, na Alemanha, ameaçou chamar a polícia para deportar sua família. Ex-nadadora disse que Caetano, de 6 anos, temeu ser separado dos pais após ameaça de colega, as informações são da BBC.

Joanna vive há três anos e meio em Potsdam, no leste alemão, com o filho e o marido, o ex-judoca Luciano Corrêa. Caetano está no 1º ano da escola primária e contou à mãe, no último sábado (9), que havia sido alvo de um ataque xenofóbico no dia anterior.

“Ele me contou que um colega da escola tinha chegado para ele e dito que iria chamar a polícia para mandar o pai e a mãe dele de volta para o país deles”, relatou Joanna.

Segundo a ex-atleta, o menino ficou assustado porque imaginou que a ameaça poderia levar à separação da família. Ela disse que precisou traduzir para o filho, em linguagem adequada à idade, uma situação marcada por preconceito, imigração e violência simbólica.

“Ele não tem noção de imigração, fronteira e política”, disse a ex-nadadora pernambucana em entrevista à BBC News Brasil. “Não é para ser uma realidade na vida de uma criança de 6 anos.”

Joanna levou o caso à escola, que prometeu conversar com os alunos sobre o episódio e ampliar ações voltadas ao combate ao racismo. Para a ex-nadadora, o caso não se limita à xenofobia, mas também envolve racismo.

“O Caetano não se parece fisicamente com a média do alemão, né? O meu marido é um homem negro e eu sou uma pessoa parda”, afirmou.

De acordo com Joanna, a professora responsável pela turma teria confirmado que o pai do colega que fez a ameaça tem uma postura fortemente anti-imigração e seria apoiador da AfD, sigla da Alternativa para a Alemanha. O partido foi classificado como organização de “extrema direita” pelo Departamento Federal de Proteção da Constituição da Alemanha, o Verfassungsschutz, no ano passado.

Em relatório citado na reportagem, o órgão alemão observou que a AfD não considera pessoas com “origens migratórias de países predominantemente muçulmanos” como integrantes da sociedade alemã com o mesmo valor dos demais cidadãos.

A ex-nadadora disse que o episódio foi duro não apenas pelo sofrimento imposto ao filho, mas também pelo ambiente em que outra criança passou a reproduzir esse tipo de discurso.

“É muito duro esse tipo de coisa”, disse Joanna. “Não acho muito cruel somente com Caetano, eu acho cruel com essa criança também, né? Criança é um jardinzinho em que a gente pode plantar muita coisa, inclusive erva daninha.”

Depois do caso, Caetano voltou à escola e levou bolinhos feitos por ele e pela mãe para toda a turma, inclusive para o colega que havia ofendido sua família. Joanna afirmou acreditar que a escola pode cumprir um papel decisivo na formação das crianças e na interrupção de ciclos de preconceito.

“A escola é o ambiente que pode salvar e resgatar essa criança de não se tornar um pequeno nazista”, disse.

Apesar da resposta da instituição, Joanna afirmou continuar preocupada com o cotidiano do filho e com a convivência dele com o colega. Ela relatou que ainda se pergunta se o episódio poderá se repetir e se a professora terá condições de evitar novas agressões.

“Eles vão estar se vendo todos os dias, será que vai acontecer de novo? Será que a professora vai conseguir evitar que isso aconteça?”, afirmou.

A ex-nadadora também contou que não estava preparada para abordar com o filho um tema tão pesado. Segundo ela, foi necessário explicar que a família tem documentação regular para viver e trabalhar na Alemanha e que a polícia não poderia separá-lo dos pais.

“Eu confesso que me faltou vocabulário para falar disso, sabe? Eu não estava preparada para ter essa conversa com ele”, disse.

Durante a conversa com Caetano, Joanna buscou tranquilizar o filho diante do medo de que a ameaça feita pelo colega pudesse se concretizar.

“Ele perguntou: ‘Mas a polícia pode vir?’. E aí eu falei: ‘Alguém pode chamar a polícia, mas a polícia vai chegar e não vai acontecer nada’”, relatou.

A pernambucana, natural de Recife, afirmou que conversa com frequência com o filho sobre diversidade racial e linguística. Segundo ela, a família busca cultivar o orgulho pelas raízes brasileiras e valorizar a trajetória de adaptação de Caetano em diferentes países.

“Caetano tem muito orgulho de ser brasileiro [...] e a gente tem uma conversa de que falar muitos idiomas é o superpoder dele”, disse.

“O meu filho não é perfeito de maneira nenhuma, mas saiu do Brasil com 1 ano de idade, nos mudamos para a Bélgica e ele se adaptou lá. E depois com 2 anos e meio veio para a Alemanha, teve que esquecer o holandês, aprender o alemão e se adaptar à escola. Eu tenho muita muita admiração pela resiliência dele.”

Joanna relatou ainda que o episódio vivido por Caetano não foi o primeiro caso de racismo ou xenofobia enfrentado por sua família na Europa. Quando moravam na Bélgica, Luciano Corrêa, que atualmente trabalha como treinador de judô, foi acusado de ter roubado um carrinho usado para transportar crianças em bicicletas.

Segundo Joanna, a pessoa responsável pela acusação “preferiu concluir que o homem negro tinha roubado” o carrinho, em vez de considerar que Luciano estava transportando o próprio filho, ainda bebê.

A ex-atleta também mencionou outros episódios de racismo sofridos pelo marido na Alemanha, inclusive na presença do filho. Ainda assim, afirmou que se recusa a generalizar a sociedade alemã a partir desses casos.

“Apesar do que está acontecendo na Alemanha, na Europa e no mundo, eu me recuso a acreditar que isso define o povo alemão”, disse a ex-atleta olímpica.

“E eu digo isso pelas pessoas que conheço, que estão no meu convívio. E eu não me importo se numa votação isso vai ser 5%, 10% ou 15%, mas são essas pessoas que lutaram lá atrás pela democracia desse país e estão lutando hoje, sabe?”, afirmou.

Joanna reconheceu, no entanto, que imigrantes enfrentam um cenário difícil em meio ao avanço de discursos anti-imigração. “Emigrar não é fácil, tem que ter muita coragem para recomeçar a vida”, afirmou. “Fico muito triste de perceber que é esse grupo que está sendo atacado.”

Joanna Maranhão representou o Brasil em quatro edições dos Jogos Olímpicos e conquistou medalhas em Jogos Pan-Americanos ao longo da carreira. Em 2008, denunciou ter sofrido abuso sexual por parte de seu treinador quando era criança, aos 9 anos, e desde então se tornou uma das principais vozes no combate à violência sexual e à pedofilia no esporte.

Atualmente, a ex-nadadora integra a Sport & Rights Alliance, organização que atua na defesa dos direitos humanos no esporte. O relato sobre o filho amplia sua atuação pública em defesa de crianças e reforça o debate sobre racismo, xenofobia e proteção de famílias imigrantes na Europa.