Livro revela bastidores da Operação Ouro Negro, em Catalão-GO

Obra do jornalista Cristiano Silva revela o destino de mais de R$ 10 milhões que, segundo investigações do Ministério Público e da Polícia Civil, teriam sido  desviados dos cofres da prefeitura de Catalão. A organização supostamente responsável pelo esquema ainda permanece impune

Livro revela bastidores da Operação Ouro Negro, em Catalão-GO
Livro revela bastidores da Operação Ouro Negro, em Catalão-GO (Foto: Divulgação)

Brasil247_ Com o livro Operação Ouro Negro – a história do milionário assalto aos cofres da prefeitura de Catalão - o jornalista investigativo Cristiano Silva se propõe a jogar luz sobre um dos maiores escândalos de corrupção já descobertos no Estado de Goiás. Em 2007, o Estado foi sacudido por uma operação de nome inusitado e objeto comum nesses tempos imprensa livre e população ainda muito tolerante com a corrupção: o desvio de R$ 10 milhões dos cofres da prefeitura de Catalão na gestão do então prefeito Adib Elias.

Deflagrada pelo Ministério Público e pela Polícia Civil de Goiás, a operação, que ganhou esse nome por conta da cor do material betuminoso utilizado na massa asfáltica, descobriu um esquema  ousado de fraudes em licitações de obras de pavimentação. Uma mesma empresa, a Tecnel, venceu 27 dos 36 certames promovidos pela prefeitura. As outras ganhadoras eram empresas que mantinham ligações com a empreiteira.

Análises contábeis detectaram pagamentos feitos em duplicidade, superfaturados, fragmentação de obras para evitar licitações, emissões de notas frias etc. Também foram detectados depósitos feitos por empresários em contas de secretários. O mais contundente, porém, foram as mais de 1,7 mil horas de gravação, feitas com autorização da Justiça, que flagraram diálogos nada republicanos entre secretários da prefeitura de Catalão, à época comandada por Adib Elias e empresários e funcionários de empreiteiras.

O nome do prefeito Adib Elias foi citado algumas centenas de vezes como beneficiário do esquema que incluía pagamento de propina. Em 8 de agosto de 2007, nove pessoas foram presas em Catalão, incluindo dois secretários municipais, que deixaram a prefeitura algemados.

Os auxiliares do prefeito Adib Elias, ocupavam pastas viscerais. Lázaro José da Silva respondia pela Secretaria de Finanças. Nelson Faiad, primo e compadre do peemedebista, era secretário de Administração.

O prefeito à época, mesmo diante da robustez das provas, se limitou a dizer que tudo não passava de perseguição política. "Nem foi a Polícia Federal que fez essa investigação, mas essa policiazinha civil", desdenhou.

Cinco anos se passaram os acusados permanecem impunes. A Justiça entendeu que as principais provas – justo as gravações feitas com autorização judicial – eram ilegais! Diante disto, o processo foi arquivado e os indiciados ainda saíram se gabando da "inocência".

Cristiano Silva revela bastidores das investigações. Para isso, ele usa reportagens feitas à época nos principais veículos de comunicação de Goiás e do Brasil, além de horas de incontáveis degravações de conversas indecorosas entre políticos e empresários.

O escândalo, infelizmente, colocou Goiás nas páginas policiais de todo o Brasil. Veja algumas manchetes da época.

Jornal O Popular: "Denúncia de desvio de R$ 10 milhões de recursos em Catalão. Nove pessoas foram presas, entre elas dois secretários de Adib Elias".

Jornal do Meio Dia (TV Serra Dourada): "Operação Ouro Negro, desencadeada na manhã de hoje nas cidades de Catalão e Anápolis, resultou na prisão de nove pessoas, além de buscas e apreensões nos dois municípios."

Jornal Anhanguera 2ª Edição (TV Anhanguera): "Ainda estão prestando depoimentos à Justiça os secretários de Finanças e de Administração de Catalão e outras seis pessoas, entre elas, o empreiteiro de Anápolis. Eles foram presos hoje sob suspeita de fraude em licitação e formação de quadrilha."

Bom Dia Goiás (TV Anhanguera): "Devem começar a ser analisados hoje os depoimentos prestados pelos acusados de fraudar licitações da Prefeitura de Catalão, no sudeste do Estado. Dos nove presos na Operação Ouro Negro, quatro ainda não foram liberados. Entre eles estão os dois secretários municipais que prestaram depoimento ontem."

Grampos

As provas do Ministério Público são compostas basicamente por escutas telefônicas autorizadas pela Justiça, quebras de sigilos bancários que resultaram  nas prisões de pessoas do alto escalão e do convívio diário do ex-prefeito Adib Elias. As interceptações aparecem nas páginas do livro. Algumas são de arrepiar. Nesta, por exemplo, o gerente da Tecnel, Tancledes Vieira, ameaçava entregar Adib Elias para a justiça caso seu chefe, Marcius Sallum, não recebesse a sua parte no negocio.

"O Március não quer saber mais da prefeitura, num quer saber mais disso, e tem outra coisa, seu Lázaro... Se o trem complicar muito, ele vai jogar bosta no ventilador, ele tem prova, ele acaba com essa festa docêis todinha, e acaba com essa carreira política do Adib na hora."

"Quero jogar luz sobre este caso"

Cristiano Silva é um daqueles raros jornalistas meticulosos, que não temem polêmicas nem a perseguição dos poderosos. Durante quatro anos, ele se dedicou a pesquisar documentos sobre a Operação Ouro Negro. Bem humorado e mostrando ter uma memória invejável, ele fala sobre o lançamento do livro que vai deixar em situação muito delicada o presidente licenciado do PMDB de Goiás, Adib Elias. "Meu objetivo não é perseguir ninguém. Mas mostrar os fatos. O leitor é que vai chegar a uma conclusão após avaliar todos os dados apresentados."

A partir de que momento você resolveu escrever este livro?

Acredito que vivemos um período de faxina moral em nosso país, estamos cansados de ouvir falar em julgamento de mensaleiros, Paulo Maluf devolvendo dinheiro aos cofres públicos de São Paulo, enfim, as pessoas estão indignadas. Políticos que tanto prejudicaram o povo com suas negociatas precisam pagar pelo que fizeram. Quero aproveitar e destacar que o objetivo do livro não é, nem nunca foi, prejudicar fulano ou beltrano. A ideia não é essa. Pretendo mostrar fatos. Dia desses a revista Veja trouxe como tema de capa o título "A imprensa acende a luz". E é exatamente esse o papel do livro, do jornalismo. Cabe ao cidadão ler o livro, verificar a autenticidade das provas que apresento e chegar à sua conclusão. Não pretendo entregar uma opinião prontinha e ditar regras. Não, democracia é diferente. O leitor experimenta meu livro, saboreia as páginas, verifica as denúncias feitas pelo MP, avalia as escutas telefônicas e por fim, após uma reflexão, forma a sua opinião.

Você afirma que vasta documentação no livro Operação Ouro Negro, que comprovariam corrupção na prefeitura de Catalão. Você teve dificuldades para ter acesso a essa provas?

Tomei o cuidado de fazer um rastreamento detalhado, procurar pessoas, futricar mesmo até encontrar inclusive trechos de escutas em áudio, escutas telefônicas feitas pela Justiça, que são de deixar qualquer um de cabelo em pé. Foram quatro anos de pesquisa exaustiva e o resultado agora está na mão do leitor.

Você sofreu algum tipo de represália?

Faço questão de deixar bem claro que não tenho nenhum problema pessoal com Adib Elias. Ele, tampouco, sabia do meu trabalho. Se soubesse, creio que teria tomado suas "providências" (risos). Em Catalão, em tem fama de trator, de passar por cima de todo mundo, de ser truculento.

Você tem medo?

Vivemos em um País democrático e com ampla liberdade de imprensa. Estou do lado da verdade. Apresento denúncias feitas pelo Ministério Público. Escutas telefônicas realizadas pela Polícia Civil com autorização judicial. Não fui eu, Cristiano Silva, quem fez a denúncia. Os fatos estão aí e quem não gostar que brigue com os fatos. Cumpro aqui o papel jornalístico. Não tenho nada a temer. Porém, se alguma coisa me acontecer todo mundo saberá quem foi. Porém, reafirmo. "Não tenho nada a temer, estou do lado da verdade."

O que você pretende com este livro?

Prestar informações sobre ocorrências, de interesse público, decorrentes de investigações, ou seja, atuar dentro do âmbito da liberdade de imprensa e da manifestação de pensamento. Contribuir para a limpeza moral de Catalão, uma cidade ótima e de gente boa. Catalão não merecia esse golpe financeiro arquitetado por empresários e políticos. Todo dia o cidadão deve se perguntar: "Como estão cuidando do dinheiro público que saiu do meu bolso?" A cidade poderia ter asfalto de qualidade? A cidade tem atendimento digno? Tenho um transporte coletivo decente? Existem creches suficientes para atender as mães trabalhadoras? O que foi feito para resolver o problema do abuso de drogas em minha cidade? É bom se perguntar e refletir, pois os R$ 10 milhões retirados dos cofres públicos de Catalão nunca foram devolvidos. Um grupo privilegiado ficou rico e ponto. Sei que o ex-prefeito Adib Elias fez muita coisa boa em Catalão, mas isto não é salvo-conduto para práticas criminosas. Infelizmente os políticos aprenderam a usar estratégias jurídicas para invalidar provas contundentes, mas eles não podem apagar os fatos.

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