Médico denuncia internação forçada após revelar ser gay
Caso ocorrido em Teresina envolve denúncia de internação involuntária e isolamento
247 - Um médico de 27 anos denuncia ter sido submetido a uma internação forçada após revelar ser gay aos pais, permanecendo cerca de 40 dias em uma clínica de reabilitação em Teresina, no Piauí, sem acesso a telefone, advogado ou contato externo. As informações são do Metrópoles.
Segundo o relato do profissional e de sua defesa, a internação teria ocorrido de forma involuntária e estaria ligada à orientação sexual do médico, revelada à família poucos dias antes. Os pais, porém, alegaram que o filho enfrentava problemas relacionados ao uso de drogas.
A advogada Juliana Irineu, que representa o médico, afirma que ele foi retirado da casa dos pais por funcionários da clínica. De acordo com a defesa, o profissional dormia no apartamento da família quando foi chamado pela mãe para ajudar o irmão. Ao abrir a porta do quarto, encontrou quatro homens que o imobilizaram.
“Houve luta corporal. Ele resistiu por cerca de duas horas, pedia um advogado, dizia que não estava drogado e solicitava exames”, afirmou a advogada.
Ainda segundo a defesa, o médico foi colocado em uma ambulância do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) e levado diretamente para a clínica de reabilitação.
Defesa questiona laudo e falta de exame toxicológico
Durante o período em que ficou internado, o médico afirma que teve o celular e os documentos retidos. Ele também relata que permaneceu dias sem avaliação adequada e sem possibilidade de comunicação com pessoas de fora da clínica.
De acordo com Juliana Irineu, somente três dias após a entrada no local o médico foi submetido a um laudo psiquiátrico, que o classificou como dependente de cocaína. A defesa, no entanto, contesta a conclusão e afirma que não houve exame toxicológico para confirmar a suposta dependência.
“Não houve exame toxicológico para comprovar essa dependência. Ele pedia insistentemente novos exames e uma reavaliação psiquiátrica, mas não era atendido”, disse Juliana.
O médico também afirma que recebia medicamentos todos os dias sem consentimento e sem saber quais substâncias estava ingerindo. Segundo ele, a rotina de isolamento, a ausência de autonomia e a falta de contato com o exterior agravaram seu estado emocional.
“Ele entrou em colapso psicológico. Dizia que não se sentia incapaz e não entendia por que estava ali”, acrescentou a defesa.
Advogada aponta motivação ligada à orientação sexual
Para a advogada, a revelação da homossexualidade do médico à família foi o principal fator que levou à internação. Conforme o relato apresentado pela defesa, os pais, descritos como conservadores e ligados à política no interior do estado, teriam decidido interná-lo dias depois da conversa, por receio de exposição pública.
No momento da internação, no entanto, a justificativa apresentada pela família foi a suposta dependência química do filho. A defesa afirma que os critérios legais para uma internação involuntária não teriam sido devidamente observados.
A advogada sustenta que medidas desse tipo exigem requisitos rigorosos, como histórico comprovado de dependência química, esgotamento de alternativas terapêuticas e garantia dos direitos básicos do paciente.
Contato com amigos e tentativa de retirada da clínica
O médico conseguiu acessar um celular dentro da clínica e entrou em contato com amigos. A partir disso, foi indicado à advogada Juliana Irineu, que passou a atuar no caso.
A defesa afirma que tentou inicialmente obter uma solução pela via judicial. Juliana diz ter apresentado um pedido de habeas corpus no plantão, mas a solicitação não chegou a ser analisada.
“Entrei com um habeas corpus no plantão, mas o pedido não foi analisado. O juiz entendeu que o caso não era recente, já que a internação havia ocorrido há mais de 24 horas”, explicou.
Segundo a advogada, outro delegado avaliou que poderia haver indícios de cárcere privado ou sequestro e orientou que ela fosse até a clínica acompanhada da Polícia Militar.
Juliana foi ao local com policiais e pediu acesso ao cliente e aos documentos que autorizavam a internação. De acordo com ela, houve resistência por parte da clínica e da família.
“Eles pediam para esperar os pais. Quando chegaram, disseram que ele era drogado e me ameaçaram, afirmando que eu seria responsável se algo acontecesse”, contou Juliana.
Caso foi levado à Central de Flagrantes
Após a confusão na entrada da clínica, os envolvidos foram encaminhados à Central de Flagrantes de Teresina. Na delegacia, segundo a defesa, um novo delegado analisou o episódio e entendeu inicialmente que a internação poderia estar amparada pela legislação federal, que permite internações involuntárias mediante autorização familiar e laudo médico.
A advogada contestou essa interpretação. Para ela, a situação não preenchia os requisitos necessários para justificar a permanência do médico na clínica, especialmente diante da ausência de exame toxicológico e de histórico comprovado de dependência química.
Antes de prestar depoimento formal, o médico deixou a delegacia sem impedimento policial. Juliana Irineu afirma que ele não recebeu orientação para fugir.
Após a repercussão do caso na imprensa local, os pais solicitaram o encerramento da internação e devolveram os pertences do filho.
Órgãos foram procurados
O Ministério Público do Piauí e o Conselho Regional de Medicina foram procurados para comentar a legalidade da atuação da clínica, mas não haviam respondido até a última atualização da reportagem original.
A Polícia Civil do Piauí e a clínica responsável pela internação também foram procuradas, mas não se manifestaram. O espaço segue aberto para posicionamento.