Mercado de aeronaves se fecha em Porto Alegre com demissões

Centenas de postos de trabalho altamente especializados no setor de engenharia e manutenção de aeronaves estão sendo extintos em Porto Alegre por conta do processo de reestruturação da TAP Maintenance & Engineering (TAP ME);  500 pessoas já teriam sido demitidas e outras 600 estariam sob risco de demissão; a TAP ME é a empresa de manutenção e engenharia de propriedade da TAP Air Portugal

Mercado de aeronaves se fecha em Porto Alegre com demissões
Mercado de aeronaves se fecha em Porto Alegre com demissões

Por Luís Eduardo Gomes, em Sul21 - Centenas de postos de trabalho altamente especializados no setor de engenharia e manutenção de aeronaves estão sendo extintos em Porto Alegre desde setembro do ano passado em razão do processo de reestruturação da TAP Maintenance & Engineering (TAP ME). Pelo menos 500 pessoas já teriam sido demitidas e outras 600 estariam sob risco de perderem o emprego, uma vez que este processo pode resultar no encerramento da operação da companhia na Capital. Uma alternativa seria os hangares do aeroporto Salgado Filho, que eram ocupados para a revisão de aeronaves pela companhia, serem ocupados por outras empresas, com novas vagas sendo abertas, mas também há o temor de que a Fraport, concessionária do aeroporto, passe a destiná-los ao serviço de terminal de cargas, o que geraria um número menor de empregos.

A TAP ME é a empresa de manutenção e engenharia de propriedade da companhia aérea TAP Air Portugal. Ela é antiga VEM (Varig Engenharia e Manutenção), que foi formalmente criada em 2001, mas cujas atividades de mecânica aeroviária foram iniciada ainda 1927. A operação da VEM no aeroporto Salgado Filho passou para o controle da TAP ME ao final de 2005, quando a empresa portuguesa a comprou, por meio de sua subsidiária brasileira Aero-LB, por US$ 24 milhões, além de assumir um passivo de US$ 100 bilhões.

Osvaldo Rodrigues, representante do Sindicato dos Aeroviários, destaca que há muitos anos a TAP ME vem apresentando problemas de gestão, mas que no ano passado iniciou um processo de reestruturação com o objetivo de reduzir suas dívidas. As demissões na companhia começaram ainda em janeiro de 2017, por trabalhadores que atuavam no Rio de Janeiro, com pelo menos 400 pessoas sendo desligadas através de um Plano de Demissão Voluntária (PDV) e um número equivalente de empregos sendo mantidos. As primeiras demissões em Porto Alegre ocorreram entre setembro e outubro do ano passado, mas sem que fosse oferecido um PDV aos trabalhadores que atuavam na Capital.

Na ocasião, um acordo foi firmado com o Sindicato dos Aeroviários para que fossem pagos aos trabalhadores demitidos quatro salários e mantido o plano de saúde por mais cinco anos. Contudo, as demissões continuaram a ser feitas. Até o momento, pelo menos 500 pessoas teriam sido demitidas e há uma ameaça de que a TAP ME encerre ou venda a sua operação em Porto Alegre e o restante dos trabalhadores, que chegaram a ser cerca de 1,1 mil, percam o emprego.

Paulo Sérgio, funcionário da TAP ME, destaca que um grupo de trabalhadores realizou um ato no Salgado Filho, no último dia 11 de julho, contra as demissões, que continuam, para cobrar um posicionamento da empresa a respeito dos trabalhadores que permanecem e dos que já foram demitidos, além de exigir que os governos municipal e estadual se posicionem pela manutenção dos empregos e a utilização dos hangares do aeroporto para a manutenção e engenharia de aeronaves. Segundo ele, todas as 10 pessoas que participaram da manifestação, organizada pela CSP-Conlutas, foram suspensas por tempo indeterminado e sem pagamento — eles estão judicializando a questão. “A empresa está trocando um padrão de excelência por nada. Até porque não tem um pessoal qualificado como aquele para ir para lá, porque ali era a melhor escola”, diz Paulo Sérgio.

Processo de reestruturação

Em conversa com o Sul21 em outubro passado, a presidente da TAP ME Brasil, Glaucia Loureiro, que assumiu o cargo naquele ano, informou que as demissões faziam parte de um processo de reestruturação da companhia iniciado ainda no final de 2016 e que vinha sendo elaborado em conjunto com duas consultorias contratadas para auxiliar a TAP ME com o objetivo de aumentar a competitividade internacional da empresa — as demissões no Rio de Janeiro fazendo parte do mesmo processo. Na ocasião, 164 trabalhadores estavam sendo desligados, permanecendo outros 830 em atuação na sede de Porto Alegre.

Procurada nesta semana a respeito da continuidade do processo e da possibilidade de a empresa encerrar ou vender sua operação na Capital, a TAP Manutenção e Engenharia Brasil, por meio de sua assessoria, respondeu apenas que “confirma que está reestruturando sua operação para se adequar à atual demanda do mercado de MRO (Manutenção, Reparos e Overhaul). A empresa continuará atendendo as demandas de seus clientes, com os serviços sendo realizados pelos colaboradores da TAP M&E”.

Porém, Paulo Sérgio diz que a desestruturação da operação de manutenção e engenharia de aeronaves está em pleno vigor. Segundo ele, entre o final de junho e início de julho, um avião que estava em manutenção num hangar teve o serviço concluído e todos os trabalhadores que atuaram nele foram demitidos. Dos cinco hangares voltados para manutenção de aeronaves, apenas um estaria funcionando com o restauro dos aviões propriamente ditos, isso porque haveria um contrato com a Força Aérea Brasileira (FAB) em vigor. Fora isso, a empresa estaria apenas realizando o trabalho de oficina, isto é, de manutenção em peças, como trens de pouso e motores, mas não em aeronaves inteiras. Este último serviço demandava um número muito maior de trabalhadores do que o primeiro, uma vez que incluía revisões a serem feitas diretamente nos aviões, de motores, de equipamentos eletrônicos, dos interiores, de poltronas, etc. “Como praticamente não existe mais hangares e a maioria dos mecânicos foram demitidos, já não se executa mais esses trabalho”, diz Paulo Sérgio. “O que acontece: nós éramos o maior centro de manutenção da América Latina e, com isso, praticamente se perde. Outras companhias, que faziam revisões em Porto Alegre, já não vão fazer mais”, complementa.

Responsável pelo setor de logística interna da empresa, ele estima que entre 600 e 700 trabalhadores já foram demitidos neste processo, uma vez que, antes de ser suspenso, o refeitório estava servindo apenas 380 refeições durante o dia e 60 na parte da noite. O Sul21 questionou a TAP ME sobre o número de demissões já efetivadas, mas não obteve resposta. Até o fechamento desta reportagem, o Sindicato dos Aeroviários também não havia informado quantas demissões já foram homologadas.

Vilmar Schumacher atuava como chefe de equipe na empresa até 21 de junho, quando resolveu aceitar o PDV que, posteriormente, passou a ser oferecido aos trabalhadores de Porto Alegre e se aposentar. Ele também estima que mais de 500 pessoas já foram demitidas e diz acreditar que a companhia irá encerrar suas atividades na Capital. “Só tem um hangar que está funcionando com um avião que vai ser entregue em breve para uma empresa polonesa. Quando acabar, vão demitir e ficar apenas com de oficina que eles têm um contrato com a FAB em vigor. No momento que todos os contratos expirarem, acho que vão fechar e vão embora”, afirma Vilmar.

A TAP ME operava cinco hangares para manutenção de aeronaves e outras oficinas para revisão de peças numa área do Salgado Filho próxima a onde hoje opera o shopping Boulevard Laçador. Vilmar destaca que o maior dos hangares, o de número 4, que pode ser visto à distância por quem trafega nas proximidades, inclusive já não leva mais o emblema da TAP ME.

O aeroviário aposentado destaca que, se confirmado o fechamento da operação na Capital ou mesmo a permanência dela com um número muito menor de empregados, isso representaria um grande baque para o mercado de empregos da área, pois os profissionais demitidos são altamente especializadas no serviço de manutenção e engenharia de aeronaves, que inclusive receberam muito treinamento da própria empresa, e não haveria outras oportunidades semelhantes sequer na região Sul do País. “Aqui, em Porto Alegre, funciona a única empresa de manutenção de aeronaves da região Sul. A sede da TAM é em São Paulo. Gol tem sede em Minas. A Azul também em Minas e em Campinas. A não ser para as vagas de mecânico de pista do aeroporto, não tem onde realocar esse pessoal, só se eles forem embora para outros locais. A situação é critica e preocupante. O campo de trabalho ficou muito reduzido”, diz Vilmar.

Antiga glória da Varig

As demissões e a ameaça de fechamento chamaram a atenção do deputado estadual Pedro Ruas (PSOL), que passou a denunciar a situação. No último dia 4 de julho, Ruas abordou a questão na tribuna da Assembleia Legislativa, quando afirmou que, quando a TAP começou a sua operação no País, realizava 14 voos mensais, mas que agora já está com 85 semanais, obtendo lucros que chegariam a € 900 milhões anuais. Ele destacou ainda que a compra do centro de manutenção da Varig pela TAP foi feita com financiamento do BNDES. “O mínimo de contrapartida que se espera em qualquer contrato de financiamento com dinheiro público é a manutenção e criação de empregos. Esta é a contrapartida para o incentivo. Esta é a contrapartida para o dinheiro público que entregue em mãos privadas, neste caso mãos privadas estrangeiras”, defendeu.

Em conversa com o Sul21 nesta semana, ele voltou a expressar preocupação com a situação dos trabalhadores demitidos. “É um problema gravíssimo. Aquilo era a glória da Varig, tinha um padrão de excelência reconhecido mundialmente. Aí a TAP fica com tudo aquilo e agora estão promovendo demissões em setores estratégicos, um pessoal altamente qualificado”.

Para Osvaldo, da direção do Sindicato dos Aeroviários, a esperança é de que os hangares sejam adquiridos por outros empresas e que os serviços de manutenção e engenharia continuem a ser realizados na cidade. Ele destaca que deve haver interesse de outras companhias aéreas, justamente pelo tradição e qualidade do serviço praticado por aqui, e que chegou ao sindicato a informação de que a Azul estaria assumindo o hangar de número 4 e contratando profissionais.

Papel da Fraport

Fontes ouvidas para essa matéria indicaram que também circula a informação de que um dos motivos que estariam levando ao encerramento das operações da TAP ME é que a concessionária Fraport, que assumiu o controle do aeroporto Salgado Filho em janeiro deste ano, teria interesse em utilizar o espaço como terminal de cargas.

Sul21 entrou em contato com a Fraport, por meio de sua assessoria, que negou a informação e disse que a ideia era permanecer com a área destinada para a manutenção de aviões, salientando ainda que há contratos em vigor com a TAP ME que não foram renegociados. Posteriormente, com o pedido de mais informações, encaminhou uma nota que dizia apenas: “Informamos que as informações referentes aos cessionários do Porto Alegre Airport, bem como dados dos acordos comerciais vigentes e estratégia comercial são privados”.

Nota da Fraport – Brasil

A Fraport Brasil – Porto Alegre enviou nota, na manhã desta quinta-feira (26), manifestando-se sobre o tema. Segue a íntegra da nota:

A Fraport Brasil – Porto Alegre esclarece que ter um hangar de manutenção de aeronaves no aeroporto é muito importante, pois aumenta a possibilidade de novas rotas para as companhias aéreas, o que contribui para o desenvolvimento de toda a região. Por esta razão, nunca foi de interesse da Fraport que a TAP deixasse de operar no Porto Alegre Airport e gostaria muito que a empresa mantivesse as suas atividades. Ressaltamos o compromisso da Fraport com o desenvolvimento regional, por meio de investimentos da ordem de R$ 1.5 bilhão para as obras de extensão da pista e terminal de passageiros, gerando, ainda, mais de 800 empregos indiretos por meio do consórcio construtor contratado.

 

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