Muricy é o cara. E ponto final!

O técnico do Santos fez todos os jogadores se entregarem ao projeto coletivo e esquecerem interesses individuais

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No dia 11 de maio publiquei um artigo neste site sobre Muricy Ramalho. No artigo, eu fazia uma análise sobre a característica principal deste treinador, que no meu ponto de vista é ser um verdadeiro “cientista”, ou um “técnico”, no sentido de pensar o time como uma máquina, com todas as peças devendo estar funcionando em equilíbrio.

Naquele momento, o Santos havia jogado o primeiro jogo da final do Paulistão contra o Corinthians. Faltava jogar o segundo, tendo ainda de enfrentar o Once Caldas no meio da semana, lá na Colômbia. Levando em conta o desgaste físico extremado do time, que enfrentava inúmeras viagens longas, mais o cansaço e esgotamento mental de estar passando por uma maratona de partidas decisivas em dois campeonatos diferentes, sem tempo para desopilar ou mesmo treinar direito, somando-se a isso ainda os seguidos desfalques de jogadores importantes (o Santos vem perdendo praticamente um jogador por lesão a cada partida), eu encerrei aquele artigo dizendo que Muricy era, com certeza, um dos melhores, mas que após os dois próximos jogos, que seriam contra o Once Caldas e o Corinthians, é que saberíamos se Muricy, além de cientista e técnico, era também o cara.

Duas coisas se sucederam após a publicação do artigo: a primeira foi a reação positiva de alguns leitores, concordando com meu argumento. A segunda foi a negativa, daqueles que não concordavam. Os argumentos utilizados pelos segundos diziam, resumidamente, que Muricy era vencedor, mas era retranqueiro, ou que não tinha visão de jogo, ou que era um grande treinador, mas ruim em campeonatos de mata-mata. Bem, os resultados, e o que o Santos jogou nessas duas partidas seguintes, falaram por si. A reação publicada no twitter do Santos, exatamente às 18h e 03hmin do dia 15 de maio, ou seja, logo após o encerramento da final do Paulistão, resumiu-se na sentença: “Muricy é o cara!” Bem, àqueles que discordaram, agradeço muito o diálogo, e trago agora só alguns argumentos para nos fazer refletir.

Penso que quando dizem que Muricy é retranqueiro devem estar confundindo futebol com irresponsabilidade. Antes o Santos jogava, de certa forma, irresponsável sim, visto que só preocupava-se com o gol. E isso era lindo! Mas quando isso começou a atrapalhar os planos de ganhar o Paulistão e a Libertadores, ninguém da sua torcida gostou. Com Muricy, o time passou mesmo a fazer menos gols, porque passou a se preocupar também com a defesa. Mas passou, em contrapartida, a tomar muito menos gols, e a ganhar tudo. E o mais importante: jogando muito bem, até mesmo perdendo gols, como se viu na final do Paulistão. Então, se o time retranqueiro é aquele que joga bem, que joga melhor que o adversário, que domina a partida e a ganha, perdendo inclusive gols, todo o futebol devia ser assim. Todo jogo seria brilhante de se ver.

Aqueles que argumentam que Muricy não tem visão de jogo, eu coloco as perguntas: como poderia um treinador com visão estreita do jogo ganhar tantos títulos em cima de outros grandes treinadores? Como poderia um treinador sem visão de jogo fazer a leitura do andamento da partida e reverter a postura do time na volta do intervalo, como aconteceu em várias oportunidades já agora mesmo no Santos? E, por último, como poderia um treinador sem visão de jogo conseguir ganhar mesmo qualquer campeonato que fosse, visto que há outros tantos times bons e com excelentes treinadores? Acho que as perguntas servem como respostas.

No que diz respeito ao argumento de que Muricy é ruim em mata-mata, quero lembrar que estamos falando de um treinador que já ganhou nada mais nada menos do que oito campeonatos nesse sistema. Se isso é ser ruim, quero ser treinador, e quero ser ruim assim! O que vejo é que as seguidas conquistas do Brasileirão de pontos corridos que ele obteve pelo São Paulo e Fluminense, que se deram no mesmo período em que foi seguidamente eliminado na Libertadores, fez surgir essa idéia. E convenhamos que parte da imprensa, quando encontra um clichê para se apoiar, não para mais de repeti-lo. Vanderlei Luxemburgo, por exemplo, também é um grande treinador e, igualmente, nunca ganhou uma Libertadores. Nem por isso o chateiam toda hora. Outro dia, em entrevista coletiva no CT do Santos, um repórter iniciou uma pergunta a Muricy repetindo esse clichê. Muricy disse para o repórter ir à internet e procurar o currículo dele, para deixar de ser mal informado…

Em um mês e meio no Santos, todo mundo pôde acompanhar o peso do talento e experiência de Muricy. Ele conquistou todo o grupo com facilidade, e fez todos os jogadores se entregarem ao projeto coletivo e esquecer interesses individuais. E, curiosamente, cada um passou a render mais também individualmente (com exceção de Zé Eduardo). Consegue fazer o time jogar bem, mesmo estando sempre com desfalques. Ao ser campeão paulista, não se esqueceu de valorizar o trabalho dos dois treinadores anteriores, demonstrando integridade. E, apesar de ser um cara sério, sabe muito bem administrar a hora da seriedade e a hora de deixar os meninos da Vila caírem na molecagem. Domingo e segunda foram dias de molecagem. Ontem, quarta-feira, foi noite de seriedade. E quem viu o show que o Santos deu no Pacaembu sobre o Once Caldas (quem não viu, não se deixe enganar pelo empate), não teve dúvidas: o time é muito bom sim, mas Muricy é o cara. E ponto final.

Kelson Oliveira é doutorando em antropologia, escritor e poeta.

www.twitter.com/kelsongok

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