Nanomedicamentos. Um potencial ainda mal explorado

Em parceria com Le Figaro, membros da Academia das tecnologias, da França, abordam as grandes questões da atualidade científica. A contribuição de Patrick Couvreur, farmacêutico, é sobre o momentoso tema dos nanomedicamentos.

Nanomedicamentos. Um potencial ainda mal explorado
Nanomedicamentos. Um potencial ainda mal explorado

 

 

Por Patrick Couvreur – Le Figaro

 

Geralmente, os tratamentos tradicionais não conseguem controlar o destino de um medicamento no organismo: a molécula ativa vai, de fato, se dirigir para os órgãos, os tecidos e as células com base em suas características físico-químicas próprias. Esta distribuição pouco específica do medicamento pode resultar, por um lado, em uma atividade terapêutica fraca devido às concentrações insuficientes uma vez tendo alcançado o alvo biológico e, por outro lado, os efeitos tóxicos resultantes da impregnação das partes sadias do organismo. É por isso que é tão difícil tratar eficazmente muitos tipos de câncer. Da mesma forma, alguns tratamentos inovadores, tais como a terapia gênica, são muitas vezes limitados pela baixa capacidade dos genes terapêuticos em penetrar eficazmente nas células.

O advento das nanotecnologias permitiu controlar a entrega do medicamento no espaço (direcionamento específico dos tecidos, das células e até mesmo das organelas subcelulares) e no tempo (controle de sua velocidade de liberação). Tudo isso foi possível graças aos avanços gravados na concepção de nanomateriais biocompatíveis e biodegradáveis: trata-se de uma verdadeira revolução!

Nanovetores superespecializados

Como isso é feito na prática? A superfície dos nanovetores (dedicados ao transporte de medicamentos) pode, por exemplo, ser «decorada» de ligandos específicos, capazes de reconhecer os marcadores expressos exclusivamente sobre a superfície das células doentes, a fim de liberar o princípio ativo. É também possível conceber nanovetores que só entregarão seu conteúdo medicamentoso em resposta a um estímulo físico (por exemplo, a aplicação de um campo magnético extracorpóreo em um tumor) ou para um ambiente químico específico. Este é o caso de alguns nanovetores capazes de libertar a substância ativa que eles carregam no ambiente mais ácido de certos tumores.

Outra vantagem: a encapsulação de medicamentos frágeis, tais como proteínas, péptidos ou ácidos nucleicos podem impedir sua degradação por enzimas no organismo, o que prolonga e reforça sua atividade terapêutica. Finalmente, o tamanho destes nanovetores, semelhante ao de um vírus, dá-lhes uma grande variedade de interações com as células e permite introduzir, no centro destas últimas, medicamentos que não se acumulam espontaneamente.

Pesquisas marginais

Estes grandes avanços conceituais podem contribuir para satisfazer o grande desafio do tratamento de doenças graves ou incuráveis. Este é particularmente o caso quando medicamentos anticâncer, antivirais ou antibacterianos induzem o desenvolvimento através de mecanismos de resistência a estes mesmos tratamentos. Para contorná-los, alguns nanomedicamentos encapsulam os princípios ativos, tornando-os invisíveis em relação aos mecanismos de desentoxicação da célula cancerosa, na origem destas resistências.

Avanços espetaculares são esperados em outras áreas da terapêutica ou de imagens, tal como a marcação das células estaminais a fim de assegurar o controle no organismo após sua implantação ou uso da micro/nanoeletrônica para a libertação «autoregulada» de medicamentos em resposta à detecção de uma anomalia bioquímica. Finalmente, o projeto de nanosistemas multifuncionais com ambas as propriedades terapêuticas e diagnósticas («nanotheragnostics») abre o caminho para a medicina personalizada.

Nanomedicamentos já estão disponíveis para o tratamento de cânceres (Doxil®, Abraxane®, Daunoxone®), de certas doenças infecciosas (Ambisome® e Amphocil®) ou para o diagnóstico (Endorem® e Sinerem®), enquanto outros se encontram na fase de estudos clínicos de fase I, II ou III.

No entanto, apesar de seu potencial, a área de nanomedicamentos não é suficientemente explorada. Quanto aos poderes públicos, esforços deveriam ser feitos para encorajar a pluridisciplinaridade por meio de projetos ambiciosos tais como o «Nano-Innov» que deve consolidar, na plataforma da Saclay (Essonne), físicos, químicos e farmacêuticos. Mas esta operação ainda não foi implantada devido à falta de financiamentos adequados… Do lado dos laboratórios farmacêuticos, as pesquisas em nanotecnologias permanecem marginais sendo que elas poderiam gerar benefícios significativos e ser uma fonte de crescimento, numa hora em que a expectativa por novos medicamentos, em muitas áreas da saúde, nunca foi tão forte.

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