"Não terá ministério para partido chamar de seu"

O presidenciável pelo PSB, Eduardo Campos, voltou a afirmar que caso seja eleito irá construir uma política baseada em um programa e não na base do loteamento de cargos, como, segundo ele, acontece atualmente no governo da presidente Dilma Rousseff (PT); de acordo com o ex-governador de Pernambuco, “não vai ter sentada na mesa para entregar ministério a partido que vai chamar de seu”; o socialista também votou a criticar os investimentos e ações do Governo Federal em mobilidade, segurança pública e saúde

SÃO PAULO, SP - 19.08.2013: CAMPOS/REUNIÃO/SECOVI/SP - O governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, concede entrevista coletiva após participar de reunião no Secovi, maior sindicato do mercado imobiliário da América Latina, na Vila Mari
SÃO PAULO, SP - 19.08.2013: CAMPOS/REUNIÃO/SECOVI/SP - O governador de Pernambuco e presidente do PSB, Eduardo Campos, concede entrevista coletiva após participar de reunião no Secovi, maior sindicato do mercado imobiliário da América Latina, na Vila Mari (Foto: Paulo Emílio)

Pernambuco 247 -  Os últimos dias foram agitados para o presidenciável pelo PSB, Eduardo Campos. Logo após anunciar oficialmente a sua pré-candidatura ao Planalto, tendo a ex-senadora Marina Silva como sua vice, Campos mudou-se para São Paulo com a família. E é da base paulista que Campos dará início a uma série viagens a cerca de 150 municípios brasileiros para tornar-se mais conhecido pelo eleitorado. A primeira fase desta etapa da pré-campanha, contudo, começou na semana passada, quando o socialista visitou a maior cidade administrada pelo PSB em São Paulo: Campinas.

Ali, em uma entrevista ao jornal Correio Popular, ele afirmou quem caso seja eleito, “não vai ter sentada na mesa para entregar ministério a partido que vai chamar de seu”, além de tecer críticas contra os investimentos e ações em mobilidade, segurança pública e Saúde. 

Confira aqui ou leia abaixo os principais trechos da entrevista concedida por Eduardo Campos ao Correio Popular.


Correio Popular - O senhor escolheu Campinas para iniciar sua apresentação aos eleitores. A cidade é a maior governada pelo PSB no Estado. Como será a formação do palanque?

Eduardo Campos - Decidimos começar por Campinas para dar sorte. A cidade é importante. Tenho aqui o prefeito do nosso partido (Jonas Donizette), um querido amigo e companheiro. Uma cidade com a qual tenho relação desde estudante, seu polo de formação, pela expressão da Unicamp e outras universidades e centros de pesquisa. Depois, como ministro da Ciência e Tecnologia. Na última segunda-feira, fizemos o anúncio das pré-candidaturas de presidente e vice e hoje (quarta-feira) já estou por aqui para ouvir Campinas e região, colher sugestões para o nosso programa, para que a gente possa oferecer ao Brasil uma alternativa consistente, madura, para o Brasil poder preservar suas conquistas e começar um novo ciclo. Um novo ciclo político, econômico, de transformação para enfrentar essa situação que o Brasil entrou. 

Uma situação que coloca em risco as conquistas que tivemos, uma situação que a população percebe que parou de melhorar e começou a piorar em muitos aspectos. O trabalhador percebe que hoje, com o seu salário, dá para fazer muito menos do que era possível antes. A mobilidade nas cidades é um drama. A Segurança Pública não tem atenção do governo federal. A Saúde, que é o problema número um nas pesquisas de opinião, tem a União cada vez mais fora do seu financiamento. 

Quando o senhor percebeu esse descompasso?

Eu acho que a gente percebeu, sobretudo, quando encerrou o ano de 2012. A presidente Dilma teve a possibilidade de chegar ao governo e acendeu uma grande expectativa de que ela poderia fazer aquilo que não foi feito durante o governo do presidente Lula e do presidente Fernando Henrique Cardoso e que ela teria ainda mais liberdade para fazer um enfrentamento da velha política, dos velhos costumes, e fazer algo que agradasse a sociedade brasileira já cansada de pagar uma carga tributária de 36%. O tempo foi passando e a gente percebeu que aquelas primeiras atitudes de intolerância com a velha política terminaram perdendo força, a economia foi parando, o governo foi cada vez ouvindo menos as pessoas, foi se enredando na velha aliança do presidencialismo de coalizão. 


Entramos em 2013, eu cheguei a falar para a presidenta que era um ano em que ela precisava ganhar e, para ganhar, era preciso ver que existia um novo pacto social, que as urnas de 2012 já mostraram com as derrotas que o PT teve Brasil afora, com sinais de mudança, a gente imaginava que ela poderia ali fazer uma reflexão e repactuar a governança, mas não foi o que houve. Os ministérios passaram a ser distribuídos mais e mais pela velha lógica. As estatais brasileiras foram sendo entregues pela velha lógica de distribuição dos cargos à luz do dia como se distribuíssem cachos de banana sem discussão do programa e do mérito, do que fazer, e aí veio junho do ano passado, o governo assustou-se, o governo estava se achando completamente forte, empoderado e, daí em diante, a gente percebeu que o Brasil cansou disso tudo. 

Mas existe uma maneira de se governar hoje no Brasil sem sucumbir à política das alianças e das distribuições de cargos para agraciar os partidos?

Eu acho que a gente precisa aprender com os bons momentos políticos que o Brasil viveu e aprender com bons momentos que grandes nações maduras democraticamente viveram e vivem. O Brasil fez nova política quando grandes pessoas se reuniram em torno de uma pauta que tem relação com a sociedade e com o povo. Quando o Brasil reuniu jovens e velhos políticos em torno das Diretas 

Já, que vai fazer agora aniversário de 30 anos, ali era uma nova política. A gente vê a população que reclama da carga tributária, reclama que o padrão do serviço público não está adequado e precisa ser ampliado. Se você precisa arrecadar menos para a economia ter dinâmica, se você precisa melhorar o padrão e a assistência do serviço público, como é que você vai colocar no serviço público agentes que são escalados não porque têm competências, não porque sabem o que vão fazer, mas porque são nacos de poder distribuídos para a manutenção daqueles grupos e subgrupos no poder? 

Mas o senhor vai fazer alianças para a campanha...

Nós vamos fazer alianças em torno do programa. Eu e Marina lançamos uma plataforma com três pontos muito claros. Evoluímos para as diretrizes. Estamos fazendo seminários regionais, estamos fazendo seminários temáticos. Estamos acolhendo reivindicações. Isso tudo para dizer o seguinte: nós vamos nos unir em torno dessas ideias. Quem vier conosco vai saber que no nosso governo não vai ter sentada na mesa para entregar ministério a partido que vai chamar de seu. 

Ministério não vai ser propriedade de partido nenhum nem estatal será propriedade de partido nenhum. Nós vamos sentar para discutir o que fazer para que o Brasil possa romper esse ciclo de baixo crescimento, inflação em alta, de juros voltando a subir, de redução da expressão do Brasil no contexto internacional para viver um novo momento em que o Brasil volte a acreditar e que a sociedade se anime com o futuro para ter um ciclo de crescimento de qualidade. 

Em relação à disputa no Estado de São Paulo, o PSB colocou a pré-candidatura do presidente estadual da legenda, Márcio França. Essa candidatura é sólida?

Nós estamos discutindo com um conjunto de partidos com os quais o PSB tem relação. Havia dentro do partido quem defendesse a manutenção da aliança com o Geraldo Alckmin (PSDB), havia quem defendesse a candidatura própria. O debate evoluiu para que a gente exercitasse a candidatura própria. Esse debate está em curso. Nós estamos ouvindo outros companheiros da Rede, do PPS que está na nossa aliança nacional e aqui está com o governador Alckmin. Nós estamos ouvindo e conversando com outros partidos, como o PV. 

A decisão que o partido tomou aqui é o caminho para candidatura própria e que o nome é o do nosso companheiro Márcio França, que é presidente do partido em São Paulo. Esse debate, neste momento, está acontecendo num conjunto de partido. Temos até junho para decidir. 

Não é algo definitivo imposto pela Marina?

Não tem imposição nem da nossa parte nem da parte da Marina. É uma leitura política. A leitura política é que, na hora em que a gente tem uma disputa nacional, é importante que aqui a gente tenha alguém falando em sinergia, em linha, para defender nossas ideias. 

O resultado das pesquisas não mostra o repasse imediato dos votos dados a Marina para o senhor. Qual será a ação para tentar convencer o eleitorado dela?

A estratégia não é eleitoral, é política. Nós começamos pelas ideias. Você pode fazer muita coisa boa quando ganha a eleição. Foi assim que eu fiz quando fui candidato em Pernambuco em 2006. Parti com 4%. Enfrentava dois candidatos muito fortes, com muito tempo de televisão, muita estrutura. Fui lá, promovi o debate, fui em todas as regiões como estou indo agora, ouvi, propus e ganhei a eleição com 65%. Quando ganhei, eu sabia o que fazer com a vitória porque eu tinha um programa. Tem gente que ganha e não sabe o que fazer com a vitória porque só disputou o cargo. Não disputou a oportunidade de fazer. Fiz quatro anos de governo e fui novamente para eleição. Fui eleito com 83% dos votos no primeiro turno. 

O quanto o PSB mudou com a chegada da Rede?

Eu acho que o PSB melhorou e a Rede melhorou. Esse encontro faz com que a gente aprenda com a Rede e a Rede aprenda com a gente. A vida é um eterno aprendizado. O Luis Fernando Verissimo tem uma frase muito boa: “Tem gente que acha que tem todas as respostas e vem a vida e faz novas perguntas”. Eu acho que é bom a gente sempre estar aberto para aprender as novas respostas para as novas perguntas. A Rede traz um jeito novo, o debate da sustentabilidade, que, a meu ver, é uma releitura do próprio socialismo. A gente mantêm as nossas identidades, não somos exatamente a mesma coisa, nós aprendemos um com o outro.

 

Conheça a TV 247

Ao vivo na TV 247 Youtube 247