No RS, herdeiros políticos buscam espaço em eleição
Tiago Simon, do PMDB (foto), Cajar Nardes (PR), Covatti Filho (PP), João Pedro Grill (PSB) e Regina Fortunati (PDT); esses sobrenomes parecem familiar a você, eleitor? Acertou! são especialmente conhecidos no cenário político gaúcho e disputaram vários pleitos; agora, é hora de apostar nos herdeiros políticos no caso, principalmente, no caso de pais para filhos
Jaqueline Silveira, Sul 21 - Cajar Nardes (PR), Covatti Filho (PP), João Pedro Grill (PSB), Regina Fortunati (PDT) e Tiago Simon (PMDB). Esses sobrenomes parecem familiar a você, eleitor? Acertou! São especialmente conhecidos no cenário político gaúcho e disputaram vários pleitos. Agora, é hora de apostar nos herdeiros políticos no caso, principalmente, no caso de pais para filhos.
Clã Covatti
Aos 27 anos, Covatti Filho (PP), por exemplo, irá se aventurar pela primeira vez numa eleição e partiu direto para a disputa de uma cadeira à Câmara Federal, justamente, para ocupar a vaga, que hoje é do pai, Vilson Covatti. O caminho para candidatura começou a ser pavimentado há dois anos, quando Covatti Filho começou a visitar a base eleitoral – concentrada em grande parte na Região Norte – do pai e também da mãe, a deputada estadual Silvana Covatti. "É um desafio muito grande, mas está sendo muito bem aceito. E já tenho um trabalho de militância", conta o jovem, sobre a recepção da candidatura na base eleitoral dos Covatti.
Apesar de nunca ter disputado uma eleição, Covatti Filho acumula experiência de acompanhar o trabalho nos gabinetes do pai e mãe, em Porto Alegre e Brasília, e também como presidente estadual e nacional da Juventude do PP. As bandeiras defendidas pelo pai – a agricultura familiar, a microempresa e a educação – serão abraçadas pelo filho na Câmara dos deputados, em caso de ser eleito. Mas ele também pretende propor ações para a juventude e intensificar o trabalho em prol da educação. “Quero levar a renovação para o Congresso”, acrescenta Covatti Filho, que é estudante de Direito.
Para o candidato, o fato de o pai ter uma longa trajetória na política o ajuda – Covatti pai foi três vezes deputado estadual e duas vezes federal, além de ter sido presidente da Assembleia Legislativa. “Facilita porque já tem um trabalho prestado”, avalia Covatti Filho. Já em relação à desvantagem sobre ser filho de um casal de políticos, ele ressalta que não “há nenhuma”, mas, talvez, possa haver “uma resistência” pelas posições contundentes que o pai é conhecido.
Coordenador das campanhas da mulher e do filho, Vilson Covatti explica que lançou o herdeiro para concorrer a uma vaga na Câmara dos Deputados já de primeira, porque “é lá que se decidem as coisas, se fazem as leis”. “Eu entendo que a juventude tem de participar mais da sociedade. Eu estou dando lugar ao novo, por mais que seja uma sucessão de país para filho”, ressalta o pai, acrescentando que é preciso acompanhar as mudanças, como o uso da internet. “Eu costumo dizer que é uma sucessão de pai para filho com outra cabeça”, completa Covatti Filho, enfatizando que é um adepto das redes sociais, enquanto Covatti pai ainda se familiariza com as novas tecnologias.
Legado Simon
Respaldado pelo sobrenome Simon, Tiago (PMDB), 44 anos, também disputa a primeira eleição. Ele disputa uma das 55 vagas à Assembleia Legislativa. A exemplo de Covatti Filho, Tiago começou há dois anos a preparar a campanha, quando iniciou roteiros pelo Estado. Além de acompanhar o trabalho do pai, senador Pedro Simon, ele integrou o governo Germano Rigotto (PMDB) como diretor de Desenvolvimento. “Seria uma hipocrisia negar que isso não te abre caminhos. Aonde eu vou tem histórias e coisas boas plantadas”, comenta o filho, sobre o trabalho do pai, que foi governador, ministro e está há 32 anos no Senado.
Apesar de afirmar que não há uma transferência automática do capital eleitoral do pai, ele admite que alguns eleitores declaram que votarão nele por ser “filho do Simon”. Ao mesmo tempo em que gera uma confiança por representar Simon com uma vida pública reconhecida no país, o empresário diz ficar meio “chateado” com essa situação. Tiago também quer que o eleitor vote pelas propostas que defende e pelo trabalho desempenhado. “Uma campanha tem de ser conquistada com muito trabalho, olho no olho e no aperto de mão. Há um descrédito gigantesco”, destaca Tiago, sobre a decepção dos eleitores com a política. O peemedebista tem, entre suas bandeiras, o desenvolvimento com justiça social e uma melhor distribuição de renda, apoio a microempresas, além do desenvolvimento sustentável.
Durante uma palestra na Federasul, no mês de setembro, Pedro Simon afirmou que poderia ter lançado o filho em eleições anteriores, principalmente quando foi presidente do estadual do PMDB e tinha “força”, mas preferiu deixar para o futuro. Concorrente à reeleição ao Senado, Simon, de 84 anos, não deverá mais disputar cargos público após o pleito de 5 de outubro, abrindo caminho para os herdeiros.
Além de sua campanha, o senador tem se dedicado a pedir votos ao filho tanto no horário eleitoral gratuito quanto em outras atividades. Ele, inclusive, elogiou o trabalho de Tiago nos debates em que participou. O filho, por sua vez, admite que, ao mesmo tempo, que “é uma honra” representar o legado do pai é também “uma responsabilidade”.
Do lado do vice-governador
Aos 25 anos, João Pedro Grill (PSB) não é um novato em eleição. Filho do vice-governador, Beto Grill (PSB), ele foi vereador em Cristal, município da zona sul do Estado, cargo que renunciou mais tarde para concorrer a vice-prefeito de São Lourenço do Sul, em 2012, também na Região Sul, mas acabou inelegível, devido à lei eleitoral, uma vez que o pai precisou assumir o governo do Estado durante viagem do governador Tarso Genro ao Exterior. Também “para ajudar o partido” disputou vaga na Assembleia Legislativa, no pleito de 2010. Agora, João Pedro aposta todas as fichas na eleição a deputado estadual.
O jovem admite que o fato de o pai ser vice-governador “me abriu muitas portas” no partido, e que “o bom trabalho, o bom serviço” de Beto como prefeito em Cristal e São Lourenço do Sul “é um legado que fica” e contribui para “o carinho da população” com sua candidatura, que representa a renovação. “Isso traz uma responsabilidade da boa política. Meu pai nunca teve contas reprovadas quando foi prefeito” afirma João Pedro, que também tem a mãe política, a vereadora Carmem Revoré, em São Lourenço do Sul.
Quanto à ajuda do vice-governador na sua campanha, o filho conta que o pai, que concorre a deputado federal, tem 26 dobradinhas no Estado e que só fazem roteiro juntos na Região Sul. “Eu sou mais uma dobradinha, não tenho preferência até os coordenadores são diferentes” ressalta João Pedro. Na Assembleia, se eleito, quer combater as desigualdades regionais para a Zona Sul retomar o crescimento e defender políticas para a juventude.
Concorrente à deputada estadual, a primeira-dama Regina Becker Fortunati (PDT), mulher do prefeito da Capital, José Fortunati PDT), foi procurada para falar sobre sua participação como candidata, mas sua assessoria não deu retorno às ligações e e-mail do Sul 21.
Mais herdeiros – Nesta eleição, ainda há outros candidatos de sobrenomes conhecidos no cenário político. Filho do vice-prefeito de Porto Alegre, Sebastião Melo, Pablo Melo (PMDB) disputa uma vaga à Assembleia Legislativa. Sergio Turra (PP), filho do ex-ministro da Agricultura Francisco Turra, Matteo Chiarelli (DEM), filho do ex-senador Carlos Chiarelli, também disputa vaga ao Legislativo.
Nada de herança política
Apesar de mencionar no horário eleitoral obrigatório ser irmão do ex-deputado federal do PP e hoje presidente do Tribunal de Contas da União (TCU), João Augusto Nardes, Cajar Nardes (PR), que concorre a deputado federal, não se considera um herdeiro político do irmão. “Falo porque ele tem uma trajetória muito bonita. Não quero ser sombra de ninguém”, justifica ele, sobre a menção ao irmão presidente do TCU. Cajar argumenta que o irmão concorreu a última vez em 2002 e sua base eleitoral é em todo o Estado, enquanto a do presidente do TCU era a Região Noroeste. “Eu não consigo herdar o patrimônio eleitoral”, argumenta ele. Também, diz Cajar, pelo fato ele poiar o governador Tarso Genro à reeleição e o PP ter Ana Amélia Lemos como candidata dificulta ainda receber votos dos progressistas. “O PP se fechou”, acrescenta ele.
Famílias políticas não são só do Brasil
Cientista política e professora de História da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), Céli Pinto avalia que o fato de serem herdeiros de figuras conhecidas “só facilita” as candidaturas. “É um passo à frente”, completa. Ela destaca, por exemplo, que “muda muito” o fato de apresentar um candidato com o nome de “José da Silva” e outro, com o de “Tiago Simon”.
Mas os clãs políticos não é uma peculiaridade do Brasil. “As famílias políticas são muito estudadas na maioria do mundo”, ressalta a professora. Especificamente em relação às mulheres, Celi comenta que, muitas vezes, elas começam a trajetória bem antes dos maridos. No entanto, observa a cientista política, elas interrompem a carreira para se dedicarem aos filhos e quando retomam a vida política são vistas como se pegassem carona na carreira dos maridos.
Em 2010, herdeiros de políticos se deram bem nas urnas
Em 2010, vários herdeiros receberam o aval nas urnas respaldados pelo legado de políticos reconhecidos em solo gaúcho. Juliana Brizola (PDT), por exemplo, virou deputada estadual invocando a figura e as bandeiras do avô, o ex-governador Leonel de Moura Brizola, falecido há 10 anos. Na disputa eleitoral de 2014, ela concorre à reeleição e usa a mesma estratégia. O jovem Lucas Redecker (PSDB) também garantiu mandato na Assembleia Legislativa ancorado pela base eleitoral e bandeiras deixadas pelo pai, Júlio Redecker, morto num acidente aéreo. A exemplo de Juliana, o tucano permanece apostando no legado do pai para alcançar a reeleição.
Na lista, ainda, estão Edgar Pretto (PT) que se apresentou como a continuidade do legado do pai, Adão Pretto, morto em fevereiro de 2009. Edgar concorre a um segundo mandato, mas, em sua propaganda, destaca bandeiras defendidas pelo pai, no entanto, evidencia o próprio trabalho construídos nos quatro anos na Assembleia. Filho do atual deputado federal Sérgio Morares (PTB), Marcelo Moraes foi na disputa eleitoral de 2010 com o pai de padrinho e conta com suas bênçãos para garantir mais um mandato no Legislativo.