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NYT aponta Adam Back como possível criador do Bitcoin após investigação

Reportagem analisa mensagens antigas, padrões linguísticos e comportamento online para sustentar que o criptógrafo pode ser Satoshi Nakamoto

Adam Back, criptógrafo britânico que o NYT alega ser o criador anônimo do Bitcoin, Satoshi Nakamoto (Foto: Reuters | Divulgação/Blockstream)

247 - Uma investigação conduzida por mais de um ano pelo The New York Times afirma ter identificado o criptógrafo britânico Adam Back, de 55 anos, como o enigmático Satoshi Nakamoto, criador do Bitcoin. A apuração foi assinada pelo repórter Joe Rodota e combina análise linguística computacional, registros históricos de listas de e-mail e um encontro direto com Back em El Salvador.

De acordo com a reportagem, Back negou repetidamente ser o responsável pela criação da criptomoeda durante a conversa com o jornalista. Após a publicação, voltou a rejeitar a hipótese em sua conta na rede X, afirmando: “Não sou Satoshi, mas fui precoce no foco nas implicações sociais positivas da criptografia, da privacidade online e do dinheiro eletrônico, o que levou ao Hashcash e outras ideias.”

Ideias antecipadas antes do Bitcoin

O ponto central da tese apresentada pelo jornal está em mensagens publicadas por Back entre 1997 e 1999 em listas de discussão ligadas ao movimento Cypherpunks. Nessas trocas, ele já discutia conceitos que mais tarde se tornariam pilares do Bitcoin, como uma moeda digital independente de bancos, baseada em uma rede descentralizada e com emissão controlada por resolução de problemas computacionais.

A reportagem descreve esse conjunto de ideias como um “roteiro soterrado” para o Bitcoin, elaborado cerca de uma década antes da publicação oficial do white paper da criptomoeda, em 2008. Back também é o criador do Hashcash, sistema de prova de trabalho citado diretamente por Satoshi no documento original.

Filtros linguísticos e análise de dados

Para sustentar a hipótese, o jornal reuniu um banco de dados com mais de 34 mil usuários ativos em listas como Cypherpunks, Cryptography e Hashcash, entre 1992 e outubro de 2008. Após uma série de filtros — incluindo frequência de postagens e participação em debates sobre moeda digital — restaram 620 possíveis candidatos.

A equipe então aplicou critérios baseados em características linguísticas atribuídas a Satoshi, como uso de grafia britânica, padrões de pontuação e escolhas específicas de palavras. Ao final do processo, apenas um nome permaneceu: Adam Back.

O linguista forense Robert Leonard, da Universidade Hofstra, classificou essas marcas como “indicadores de variação sociolinguística”, capazes de sugerir origem geográfica e perfil profissional de um autor.

Um estudo adicional sobre erros de hifenização reforçou a conexão: Back compartilha 67 dos 325 erros identificados nos textos atribuídos a Satoshi, enquanto o segundo colocado apresentou apenas 38. Expressões raras como “proof-of-work” com hífen, “partial pre-image” e “burning the money” também aparecem de forma coincidente.

Comportamento considerado suspeito

Outro elemento apontado pela investigação envolve o comportamento online de Back ao longo dos anos. Segundo o jornal, ele deixou de participar de discussões sobre moeda digital justamente em 2008, quando o Bitcoin foi lançado, retomando suas manifestações públicas apenas em junho de 2011, poucas semanas após o desaparecimento de Satoshi.

Há ainda coincidências posteriores, como a criação de sua conta no fórum Bitcointalk no mesmo dia em que foi divulgado um estudo sobre a fortuna acumulada por Satoshi. Em 2015, um e-mail atribuído ao criador do Bitcoin apresentou argumentos semelhantes aos defendidos publicamente por Back na mesma época.

Encontro em El Salvador e suposto deslize

Durante a reunião com o jornalista em El Salvador, Back reafirmou sua negativa: “Claramente não sou Satoshi, essa é minha posição”, declarou, segundo o jornal. Questionado sobre sua ausência nas discussões no período crítico de 2008, respondeu apenas que estava ocupado com trabalho.

A reportagem relata ainda um possível deslize durante a conversa. Ao ouvir uma citação de Satoshi, Back teria dito: “Eu falei bastante para alguém que… quer dizer, não estou dizendo que sou bom com palavras, mas eu realmente tagarelei muito nessas listas.” O jornal interpretou a fala como uma possível referência indireta à autoria, mas Back negou essa leitura posteriormente.

Lacunas e limites da apuração

Apesar do conjunto de evidências, o próprio The New York Times reconhece que a conclusão não é definitiva. A análise estilométrica conduzida pelo linguista Florian Cafiero apontou Back como o mais próximo do estilo de Satoshi, mas o resultado foi considerado inconclusivo. O programador Hal Finney apareceu logo atrás, com diferença mínima.

Segundo a reportagem, a única prova conclusiva seria a movimentação de bitcoins associados aos primeiros blocos minerados, o que exigiria acesso à chave privada de Satoshi — algo que nunca ocorreu. Estimativas da empresa Arkham indicam que essa fortuna pode chegar a cerca de US$ 73 bilhões, valor que permanece intocado até hoje.

Outro ponto não esclarecido envolve os metadados de e-mails trocados entre Back e Satoshi em 2008. O jornal solicitou essas informações, mas não obteve resposta.