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O alerta preocupante sobre a situação dos bebedouros do Brasil

A revisão científica reuniu dados de estudos realizados em vários continentes

O alerta preocupante sobre a situação dos bebedouros do Brasil (Foto: Freepik)

247 - Um item presente na rotina de escritórios, escolas e repartições públicas pode representar um risco silencioso à saúde. Bebedouros de uso compartilhado, tradicionalmente vistos como uma alternativa segura à água da torneira, aparecem associados a níveis elevados de contaminação bacteriana em um amplo levantamento científico internacional.

As informações fazem parte de uma reportagem publicada por O GLOBO, com base em um estudo divulgado na revista científica AIMS Microbiology, que analisou décadas de pesquisas sobre a qualidade da água em dispensers utilizados em diversos países.

A revisão científica reuniu dados de estudos realizados em vários continentes e revelou que, em média, entre 70% e 80% dos bebedouros avaliados apresentaram níveis de contaminação acima dos limites considerados seguros pelas normas sanitárias. Em muitos casos, a água desses equipamentos mostrou-se mais contaminada do que a própria água encanada que os abastece.

O dado que mais chama atenção envolve o Brasil. De acordo com os estudos analisados, mais de 76% dos bebedouros avaliados no país apresentaram presença de bactérias, enquanto apenas 36% das amostras de água da torneira mostraram algum tipo de contaminação. A discrepância reforça a conclusão de que a água encanada, frequentemente rejeitada por consumidores, pode ser uma opção mais segura do que a água oferecida por bebedouros e máquinas de venda automática.

Entre os microrganismos identificados nas amostras estão bactérias potencialmente perigosas à saúde. A Pseudomonas aeruginosa, por exemplo, é associada a riscos elevados para pessoas imunocomprometidas e pode causar pneumonia, infecções na corrente sanguínea e problemas urinários. Já as bactérias coliformes, as mais comuns encontradas nos bebedouros, indicam possível contaminação fecal da água.

Os pesquisadores destacam que um dos pontos mais críticos dos equipamentos são os bicos dos dispensers. Estudos apontam que essas partes podem concentrar até 100 vezes mais contaminação do que outras áreas do bebedouro, aumentando o risco de transmissão de microrganismos por entrarem em contato direto com copos e garrafas reutilizáveis.

A principal explicação para o problema está na formação de biofilmes, que são comunidades de bactérias aderidas às superfícies internas dos equipamentos, como mangueiras, filtros e torneiras. Essas estruturas são protegidas por uma camada viscosa que dificulta a eliminação completa dos microrganismos, mesmo após procedimentos de limpeza considerados rigorosos. Em alguns casos, os biofilmes podem se regenerar em poucos dias.

O risco se intensifica quando os bebedouros permanecem longos períodos sem uso, como durante a noite ou aos fins de semana. Nessas condições, a água parada favorece a multiplicação bacteriana. A ausência de cloro — substância comum nos sistemas municipais de abastecimento e essencial para controlar o crescimento de microrganismos — também contribui para o problema.

Outro fator apontado pelos estudos é o tipo de material utilizado nos equipamentos. Mangueiras com revestimento de borracha, por exemplo, tendem a estimular mais o crescimento bacteriano do que superfícies de vidro ou aço inoxidável.

Apesar do uso disseminado, os bebedouros não estão sujeitos às mesmas exigências rigorosas aplicadas à água municipal, como as previstas no Safe Drinking Water Act, nos Estados Unidos, ou em legislações equivalentes de outros países. Segundo os pesquisadores, a falta de fiscalização padronizada e de protocolos de manutenção frequente aumenta os riscos à saúde dos usuários.

O estudo reforça a necessidade de limpeza regular, troca periódica de filtros e maior controle sanitário desses equipamentos. O alerta final é direto: em muitos ambientes de trabalho, a água da torneira pode ser menos arriscada do que parece quando comparada à água de bebedouros compartilhados.