O bicho está solto na Assembleia de Minas Gerais
Em plena sede do Legislativo mineiro os bilhetinhos do jogo ilegal correm diariamente. PM faz vista grossa e CPI que seria instalada para investigar a contravenção foi arquivada. A farra do bicho já havia sido flagrada na Câmara Municipal de Belo Horizonte
Minas 247 - Todos os dias o apontador anota as fezinhas de deputados e servidores na entrada da Assembleia Legislativa, no bairro Santo Agostinho, em Belo Horizonte. Seria normal se não fosse ilegal. Com um posto funcionando em frente, a PM finge que não vê. Deputados arquivaram pedido de instalação de CPI para investigar o jogo do bicho no estado. Será medo de acabar a brincadeira?
Vereadores da capital também ignoram a contravenção. Na porta da Câmara Municipal, outro ponto ignora a lei vigente e permite a funcionários da Casa jogarem com liberdade. Clique aqui para ler a matéria publicada pelo 247 no início deste mês.
Confira abaixo a matéria do jornalista Gustavo Prado, do jornal O Tempo
Em meio ao livre comércio de pipocas, balas, doces e água de coco, sem contar a venda de CDs e DVDs piratas na portaria da Assembleia Legislativa de Minas Gerais (ALMG), outro tipo de serviço prestado ali, sem qualquer tipo de inibição, se destaca - o jogo do bicho.
A Casa decidiu pelo arquivamento do pedido de instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para investigar o esquema de exploração do jogo do bicho e de máquinas de caça-níqueis em Minas. Mas, na portaria da Assembleia, o jogo permanece com o seu ponto fixo e ativo bem embaixo do nariz de quem um dia cogitou a hipótese de coibí-lo.
A Assembleia não é a única a ignorar a contravenção. O jogo também consegue passar despercebido pela Polícia Militar, que possui um posto - em pleno funcionamento - instalado a menos de 50 metros da entrada do Legislativo. Mesmo com a presença constante de policiais no local, o apontador, chamado Marcelo não aparenta sentir qualquer tipo de intimidação. Alheio ao vai e vem de pedestres transitando pelo local, o apontador realiza seu serviço tranquilamente, praticamente todos os dias, sentado na mureta em frente à entrada da Assembleia, na rua Rodrigues Caldas, ou em uma das mesinhas da praça Carlos Chagas, conhecida como pracinha da Assembleia.
Sem qualquer tipo de pudor ou constrangimento, portando uma pochete, levada nos ombros, Marcelo é figurinha conhecida de servidores e até de deputados, que passam por ele e o cumprimentam. A clientela também é grande e fiel. Por duas semanas, a reportagem de O TEMPO acompanhou o trabalho no local. Inúmeras apostas são realizadas diariamente. Da pochete, o apontador retira o bloquinho de apostas e o caderno de anotações com os resultados.
Ao chegar um cliente, alguns com crachás da Assembleia, Marcelo logo retira sua caneta, guardada atrás da orelha, e realiza a aposta. Ele recebe as notas do pagamento e as coloca junto a um "bolo de dinheiro".
Conhecido na área, o contraventor tem livre acesso ao prédio da Assembleia. Por algumas vezes, a reportagem o flagrou entrando no prédio principal. Localizado em frente, o edifício Tiradentes, anexo do Legislativo, também permite o acesso livre de Marcelo. Logo na entrada do anexo, a cadeira de um engraxate também é utilizada para que o apontador realize o seu trabalho.
Apesar de Marcelo ser o principal apontador do jogo no local, ele parece não trabalhar sozinho. Sempre rodeado de outros homens, o contraventor costuma trocar diversos papéis e dinheiro com eles.
A pracinha é outro ponto da jogatina. Lá, diversas pessoas permanecem jogando cartas e damas nas mesas e bancos públicos. Mas o lugar também é usado por Marcelo, que passa horas sentado ali. Sempre ao telefone, o apontador chega a cantar os números das apostas falando alto e sem nenhuma preocupação.
Entenda
Inspiração. As propostas de criação de CPI para investigar os jogos ilegais em Minas ocorreram após ter sido deflagrado o escândalo nacional envolvendo o bicheiro Carlinhos Cachoeira e políticos.