O desejo não é linear. O erotismo é selvagem e imprevisível
Em entrevista, a psicanalista francesa Sophie Cadalen diz que um casal representa sempre vários casais. Há momentos em que as relações entre seus membros são tórridas. Há outros em que tudo caminha devagar, quase parando.
Por Pascale Senk – Le Figaro
Entrevista de Sophie Cadalen (*)
Le Figaro –Para a psicanálise, a questão do desejo sexual é central. Em quê ela determina sua ação clínica?
Sophie Cadalen – É verdade que quando visitamos um psicanalista, podemos estar certos de que nossa economia libidinal inteira será sondada. Mas é também verdade que, para nós, terapeutas, a questão sexual vai muito além da problemática genital. As perguntas que fazemos a nós mesmos ao ouvirmos um paciente são: «Em que ele investe sua energia?», «O que faz sentido para ele?». Porque você pode ter uma libido que flui bem e nem por isso ser um «performer» na cama; inversamente, fazer amor muitas vezes não significa necessariamente «ir bem».
E quando se trata primeiramente da questão do desejo sexual o que é levado em consideração pelo analista?
Na verdade, a sexualidade é um dos terrenos mais reativos do equilíbrio global da pessoa. Ela também é uma ótima desculpa para falarmos sobre muitas outras coisas: é nessa dimensão que sentimos os pesos, as mudanças que ainda não são ditas em outros lugares. É através dela que sondamos a boa saúde do casal. Quase sempre referindo-se ao seu ritmo sexual, nossos pacientes se perguntam: «Sou normal?» É então toda a sua relação com o normal que poderá ser repensada, trabalhada no divã. Eles também se perguntam: «Sou realmente um homem, uma mulher?» e poderemos discutir sua identidade sexual. Assim, vemos que, longe da frequência das nossas acrobacias sobre os lençóis , existem outras dimensões que a questão levanta.
Então, por que esse foco atual sobre a frequência da atividade sexual?
Porque hoje, a sexualidade é considerada como o novo «cimento» do casal. Um termo que evoca estabilidade, ou até mesmo a suspensão de qualquer movimento. Um termo que diz muito sobre a sua própria incongruência, pois se há uma dimensão variável, que se move e que evolui em nossas vidas, trata-se do desejo. Ele não é linear. No caso de um casal, o desejo convida continuamente os parceiros a serem móveis e sempre propensos a se reposicionarem um em relação ao outro. Às vezes, capazes de se esquecerem, às vezes, com uma tendência a contar com o outro, com a sua compreensão, pois temos o direito de simplesmente estarmos cansados… Os problemas surgem precisamente quando há uma repetição na construção da forma de estar juntos.
A que tipo de repetição você está se referindo?
Por exemplo, quando percebemos que nosso desejo some assim que o relacionamento assume um caráter mais compromissado; ou quando, após alguns anos de convivência, percebemos que não somos muito firmes nesse compromisso, ou que, de fato, nunca quisemos realmente estar com aquela pessoa. De modo geral, penso que qualquer postura rígida é suspeita: aqueles que se lamentam e dizem “Não transamos quase nunca”, ou aqueles que gritam em alto e bom som “Transamos todos os dias!”, tentam ambos a mesma coisa: “cimentar” a relação. Mas, o erotismo é sempre selvagem e imprevisível, e pede ao casal que saiba improvisar.
(*) Sophie Cadalen é escritora e psicanalista. Autora de “Tout pour plaire et toujours célibataire” (Tudo para agradar e continua solteiro, Edições Albin Michel).