O irismo está morto e será sepultado no próximo dia 26 de outubro
A vitória de Caiado para o Senado teve um custo elevado: transformou o DEM, em Goiás, em pó de traque
Política é tradição. É um axioma que vale até para a esquerda, que olha com mal disfarçada suspeita para o vocábulo. Mas o PCdoB se arroga herdeiro do partido fundado em 1922 por Astrogildo Pereira, e até já entoa loas a Luiz Carlos Prestes, outrora odiado pelos seguidores do já meio esquecido João Amazonas.
Limitar-me-ei a Goiás. Aqui, duas das mais tradicionais correntes políticas estão em franca decadência: PMDB e DEM. O DEM, para dizer a verdade, está em vias de extinção. E o PMDB, na batida que vai, logo estará fazendo companhia aos dinossauros. Já o PSDB e o PT, de tradição mais recente, vão melhorando de situação a cada eleição, com avanços e tropeços, claro, mas, no geral, seguindo uma linha de evolução.
Aqui o critério de avaliação é o desempenho nas eleições parlamentares. É aí que se nota o enraizamento de cada partido e a força de sua tradição.
O DEM é um caso triste. Embora mudando sempre de nome, o DEM goiano é, na verdade, o sucedâneo de um partido que já conheceu dias de glória, respeito geral e prestígio social. O DEM goiano era o PFL, que veio do PDS, que se chamava Arena, que era o prosseguimento da UDN, fundada em l945 para abrigar os opositores da ditadura de Vargas. A oposição a Vargas e a Pedro Ludovico em Goiás tinha duas alas: a mais tradicional, constituída pelos políticos caiadistas, liderados por Totó Caiado, avô do deputado Ronaldo Caiado, agora senador eleito. Aos Caiados – pejorativamente chamados de “carcomidos” - uniu-se a patota “libertadora” de Domingos Velasco, antigo aliado de Pedro Ludovico, chefe dos tenentistas goianos. Dessa vetusta “UDN de 45” resta, ainda vivo, apenas Ary Valadão, salvo engano.
A UDN goiana ganhou má fama por combater o fundador de Goiânia, Pedro Ludovico. Claro, Pedro não era santo. Em matéria de truculência, não era muito diferente dos Caiado. Mas não os julguemos pelos critérios morais vigentes, como nos ensinou Vico. O jogo político de outrora era disputado por homens valentes, aferrados a seus princípios, presos a uma noção de lealdade partidária aristocrática. Mas a poderosa máquina de propaganda do ludoviquismo sempre conseguiu demonizar a UDN e, sobretudo, os Caiado. Este não são os anjos que Ronaldo Caiado pretende que tenham sido, nem os demônios que o ludoviquismo pintou.
Durante a ditadura militar, surgiu no seio da Arena uma facção “progressista”, digamos assim. Era composta por jovens tecnocratas que, de certo modo, lembravam os tenentes das décadas de 20 e de 30. Eram adeptos do planejamento e o dirigismo estatal. Nisso, tinham muito em comum com Mauro Borges, que foi um caso de anomalia ideológica dentro do conservadorismo PSD goiano. Esta ala tem como referência o falecido ex-governador Otávio Lage de Siqueira, não por acaso filho do antigo deputado velasquista Jales Siqueira. Os otavistas viriam a constituir a espinha dorsal do PFL goiano. Com o ingresso de Ronaldo Caiado na sigla, os otavistas foram se dispersando. Hoje de esparramam pelo PSDB e pelo PSD de Kassab, que, diga-se de passagem, nada tem a ver com o PSD ortodoxo de Pedro Ludovico.
Ronaldo Caiado elegeu-se senador. Parabéns! Esta vitória, contudo, custou ao DEM goiano sua mais fragorosa derrota enquanto força partidária. O Partido chega à Assembleia com um único deputado, Hélio de Sousa, um otavista pragmático, marconista juramentado que, imagino eu, deve ter se sentido muito desconfortável compondo a coligação DEM/PMDB. Para a Câmara Federal, o DEM não elegeu um só candidato. Mas isso não tem muita importância para Ronaldo Caiado, imagino eu. Ele deve olhar para o árido deserto em que transformou seu partido e suspirar orgulhoso: “Este é o meu reino!”
Há muito sustento que velha rivalidade “UDN x PSD” há muitos anos foi superada historicamente, existe apenas na imaginação nostálgica de alguns passadistas. A rivalidade acabou em l986 quando a UDN de 45 se uniu aos velhos pessedistas no comitê eleitoral de Mauro Borges. Ali estavam eles esquecendo velhas mágoas para fazer frente a uma tradição que ia surgindo e se afirmando, o irismo. Na verdade, não era bem contra Santillo que combatiam. Tanto que hoje estão todos do lado de Marconi Perillo, o sucessor do santillismo. E se alguém ainda acreditava que o espectro da UDN ainda se batia contra o espírito do PSD ortodoxo, que baixa com frequência no terreiro do PMDB, pode reavaliar seus conceitos. A recente aliança de Ronaldo Caiado com Iris Rezende deixou definitivamente claro que udenismo e pessedismo são coisas do passado. São tradições mortas.
Assim como a Arena foi a continuidade da tradição udenista incorporando novos agentes políticos, o MDB, do qual o PMDB é sucedâneo, dá continuidade ao PSD, agregando valores novos, contudo. Uma nova geração de políticos com origem na classe média urbana, com boa formação universitária e uma visão modernizante do mundo, daria ao MDB aquela combatividade e dimanismo que o velho PSD de Pedro Ludovico já não tinha. Homens como o falecido Lúcio Lincoln de Paiva, os irmãos Santillo, Divino Dorneles, Iram Saraiva, Derval de Paiva, Frederico Jayme, Fernando Cunha – para ficar só nesses, renovaram a tradição de que herdaram herdeiros. Na verdade, criaram uma nova tradição.
O PMDB chega esplendoroso ao poder regional em 1982, liderado por Iris. O Iris daquela época, porém, era apenas um “primus inter paris”, não o divino imperador de hoje. Hoje, visto em retrospecto, não passa de um anão que ascendeu apoiado em ombros de gigantes. Iris não soube renovar a tradição. Sempre colocando o seu interesse pessoal acima do bem maior do partido, conduziu o PMDB de fracasso em fracasso.
O PMDB começa a próxima legislatura com uma bancada menor do que tinha o velho MDB nos tempos da ditadura. Elegeu minguados cinco deputados estaduais. Se na eleição passada, quando elegeu apenas oito estaduais, o declínio era perceptível, agora é evidente. Ainda será a segunda maior bancada. Mais uma eleição, porém, perde o posto para o PT, que saiu de três para 4 parlamentares. A propósito, o PMDB já não está sozinho no ranking. O PSD kassabista fez cinco cadeiras. Será, junto com o PSDB, a segunda bancada da próxima legislatura. Com uma diferença, porém: esta é a primeira eleição disputada pelo PSD. Estreia auspiciosa.
O desastre maior, porém, aconteceu na composição da bancada goiana na Câmara Federal. O PMDB elegeu apenas dois deputados, Daniel Vilela, empurrado por papai Maguito, e Pedro Chaves, eleito, como sempre, por seus próprios méritos. Dona Iris Araújo, esposa do doutor Iris Rezende, antiga campeã de votos do PMDB, foi deseleita. Ficou numa primeira suplência que, no caso dela, é mais um opróbrio do que uma honra. A coligação elegeu ainda outro filhinho de papai, Lucas Vergílio. Eu o via na propaganda do TRE, olhando embevecido para Ronaldo Caiado, um de seus endorsers, e comentava com meus botões: “Inocente, sabe nada!” O PT perdeu uma cadeira das duas que tem. Continua lá o velho Rubens Otoni de Guerra. Isso é bom para o PT da tradição. Com o afastamento d Marina Santana, a banda podre do PT goiano, liderada pelo doutor Paulo Garcia, perde sustentação. Não será surpresa se ele, Paulo Garcia, trocar o PT pelo PMDB.
Já o PSDB foi, sem dúvida, o grande vitorioso, enquanto partido político. Continua a maior bancada da Assembleia Legislativa, com sete deputados. Para a Câmara Federal, vai mandar seis representantes, que, juntos com os eleitos na coligação marconista, somam 13 membros de uma bancada de 17.
O PSDB goiano é o continuador histórico da corrente santillista, um grupo políticos gerado nas entranhas do velho MDB mas sem maiores vínculos com o PSD ludoviquista. O espólio político de Pedro Ludovico foi disputado por Mauro e por Iris, tendo Iris levado a melhor. Mauro não era ludoviquista, embora filho do homem. Pedro não gostava de Iris Rezende – ainda vou contar essa história, aguardem – mas acabou adotado pelos velhos pessedistas.
Voltando a Henrique Santillo. Ele estava muito à esquerda do mainstream emedebista dos anos 70 e 80. Ele foi o primeiro a falar em “participação popular”, “diálogo com os movimentos sociais”, “fortalecimento do mercado interno de consumo”, “transparência na administração pública”, “políticas sociais”, “modernização da economia goiana” e outros conceitos que acabaram virando clichês. Quando Iris rompeu com Santillo e expurgou os santillistas, estes foram, em parte para o PSDB. Mais adiante, todos, inclusive Henrique, aterrissaram na legenda tucana. Adhemar chegou por último, mas chegou.
O irismo está morto. Será sepultado no próximo dia 26 de outubro. Ninguém acompanhará o féretro, a não ser, quem sabe, o doutor Paulo Garcia e as pauletes alopradas.
Helvécio Cardoso, jornalista