Os papéis invertidos de Marconi e Agnelo
Todo pimpão, governador de Goiás é o feliz, enquanto titular do Distrito Federal lamentou convocação à CPI do Cachoeira; mas Perillo, mostram os fatos, só tem motivos para preocupação, enquanto Queiroz pode dar lições
Marco Damiani _247 – Troquem-se os papéis, que, de resto, estão invertidos na vida real. A casa em que o contraventor Carlinhos Cachoeira foi preso não ficava em Goiânia nem pertencera, imediatamente antes, ao governador de Goiás, Marconi Perillo, como é fato real. A mansão, nessa hipótese, passa a ser mais uma das muitas residências elegantes do Lago Sul de Brasília, e sua propriedade, onde o contraventor seria preso, estava em nome, meses atrás, do governador do Distrito Federal.
Imagine-se que fora Agnelo Queiroz, e não Marconi Perillo, quem tivesse sido o beneficiário de uma absolutamente nebulosa operação imobiliária em cima dessa mansão. Uma venda que teve valores alterados para efeito de recolhimento de impostos; envolvimento de personagens laranjas; e paga de pelo menos R$ 1 milhão, como se pode supor pelo inquérito da Operação Monte Carlo, com dinheiro em espécie, alojado numa caixa de computador. Volume entregue em palácio. O Buriti. E não no das Esmeraldas, como, na vida real, suspeita a Polícia Federal.
Na troca de posições, vale, ainda, imaginar o governo do Distrito Federal, e não o de Goiás, como é fato, lotado de funcionários comissionados sob a indicação direta de Cachoeira (o contraventor que passou a viver na casa que pertencia ao governador), inclusive titulares do primeiro escalão. Um deles, a chefe de gabinete, fazia parte do Clube do Nextel, com celular dado e conta paga por Cachoeira, estando a serviço dele para lances estratégicos, como adiantar hora e local de operações policiais. Na vida real, foi assim em Goiás, mas para efeito de exercício, faça-se de conta que foi em Brasília.
Ninguém exagera ao projetar que, se as situações acima tivessem ocorrido em torno do governador Agnelo Queiroz, do PT, dificilmente ele exibiria, hoje, a desenvoltura que seu vizinho Marconi Perillo, do PSDB, tenta manifestar. Se é que ainda estaria flanando por ai, como está Perillo, todo pimpão, ainda no cargo.
No mundo real dos espertos da política, no entanto, Marconi trabalha, neste momento, como se ele fosse Agnelo – um governador que viu sua administração em Brasília acossada pelo esquema comandando por Carlinhos Cachoeira, resistiu, agiu, denunciou e contra quem não se encontra uma única prova de participação, conivência ou acobertamento. Agnelo é quem pode, sem medo, encarar a CPI que não encontra, em relação a ele, no inquérito da Monte Carlo, prova de ligação com Cachoeira. Mas é Perillo quem se dispôs, num gesto em tudo midiático, interromper na terça 29 a sessão regular da mesma CPI para provar, paladino heróico, sua inocência.
A verdade é que pela cachoeira de provas e indícios que a Monte Carlo encontrou sobre ele e seu alinhamento com os interesses da organização criminosa, Marconi Perillo seria convocado a depor na CPI de toda maneira, inexoravelmente. Agnelo Queiroz, ao contrário, estará diante da Comissão pela circunstância política de ser de um partido-alvo, o PT que venceu as três últimas eleições para presidente e desbancou do poder no DF um esquema político de duas décadas – e não porque está efetivamente implicado com Cachoeira.
Nos dias 12 e 13, quando Marconi e Agnelo, respectivamente, irão encarar a CPI, a troca de posições tende a ser revertida, dada a desproporção entre o volume de grampos que unem Perillo e sua administração a Cachoeira, e a escassez de elos entre Agnelo e seu governo com o esquema do contraventor. Mas esse alinhamento entre verdade e versão, pelo que já se anuncia, poderá depender menos das provas colhidas pelo inquérito da PF, e mais das articulações que os governadores realizarem entre os integrantes da Comissão. Para eles, a CPI do Cachoeira virou mesmo um jogo no qual a mentira e a verdade são curingas de pesos diferentes.