Os pés aqui, as mãos ali, e olha Cachoeira no Judiciário

As ligações perigosas do contraventor vão longe; cada dia uma nova surpresa; agora, uma teia que o coloca dentro do Judiciário goiano; uma teia que vai e volta à história mal contada da casa do governador

Os pés aqui, as mãos ali, e olha Cachoeira no Judiciário
Os pés aqui, as mãos ali, e olha Cachoeira no Judiciário (Foto: Folhapress)

Goiás 247 – Em Goiás, o contraventor Carlinhos Cachoeira tinha os dois pés no governo de Marconi Perillo (PSDB), as mãos na Câmara de Vereadores de Goiânia e na Assembleia Legislativa, e olhos firmes no Judiciário. Um nome que surge na teia de ligações com Cachoeira é o do desembargador Júlio César Cardoso de Brito. Brito já tem pedido do Ministério Público do Trabalho para deixar o cargo de vice-presidente do Tribunal Regional do Trabalho (TRT) de Goiás. Mas resiste.

Mas a história de Brito tem outro ponto que chama a atenção: ela fortalece os laços que indicam uma relação cada vez menos casual – como queriam fazer acreditar – entre Cachoeira e o dono da Faculdade Padrão, Walter Paulo. Cachoeira, como se sabe, foi preso pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo na casa que seria de Walter Paulo, que a teria comprado de Marconi Perillo. Teria, teria, porque o 247 já mostrou que essa outra história, a da compra a venda da casa, não bate. Nem essa nem a do aluguel daquela para a qual Marconi se mudou (leia mais aqui e aqui).

Entre os atos de Brito que chamam a atenção estariam a utilização de carro importado de um irmão de Carlinhos Cachoeira e viagem paga pelo grupo do contraventor a Buenos Aires. Com acompanhante, diga-se. Outro, que bate na porta do Palácio das Esmeraldas, sede do governo estadual. Em um dos diálogos captados pela PF na Operação Monte Carlo, há uma conversa (do dia 19 de maio de 2011) entre Cachoeira e a então Chefe de Gabinete do governador, Eliane Pinheiro, que dá a medida do carinho de que era alvo o desembargador, e de como o governo era usado pelo contraventor para também agradar companheiros.

CARLlNHOS: oi

ELIANE PINHEIRO: oi chefe.

CARLINHOS; doutoura ELIANE, estou indo para os ESTADOS UNIDOS, o que você quer que cu trago para você?

ELIANE PINHEIRO: não fala assim não. que eu peço.

CARLlNHOS: fala então.

ELIANE PINHEIRO: você vai hoje?

CARUNHOS: faz o seguinte, eu vou estar lá sábado, domingo, segunda e terça, ai você me liga.

ELiANE PINHEIRO: então tá. vai com deus. Eu vou pensar aqui e te ligo.

Ci\RLlNHOS: não sendo geladeira, fogão, essas coisas, sofá...

ELIANE PINHEIRO: tá bom. não vou abusar, não vou pedir isso não. Tá, eu vou pensar aqui, um bem especial. Igual o

que você trouxe pra mim da outra vez. Eu te ligo...

CARLlNHOS: deixa eu te falar o ( .... ?) prometeu uma medalha para o DESEMBARGADOR

JULIO CESAR, aquela lá de ( .... ?) anota o telefone dele aí...

ELIANE PINHEIRO: cu tenho o tc1efone do .IlJLIO. o WLADIMIR falou pra mim, vou vigiar. Essa medalha é em

JULHO, né.

CARLINHOS: cntão liga no celular dele aqui, fala com ele.

ELIANE PINHEIRO: tá vou ligar.

CARLlNHOS: tá legau

ELlANE PINHEIRO: tá, um beijo.

Júlio César Cardoso de Brito é um nome com trânsito fácil além do TRT. Ele sempre manteve boas relações no Tribunal de Justiça e participação frequente na vida da Faculdade Padrão, de seu amigo Walter Paulo Santiago, da Padrão.

A articulação do grupo era tamanha que promoveu até viagens de ministros do Tribunal Superior do Trabalho (TST) a Goiânia, como se vê em outra transcrição da PF – de 29 de abril do ano passado –, em que é citado, numa conversa entre Gleyb Ferreira da Cruz e o senador Demóstenes Torres no restaurante Troia, o nome do ministro Guilherme Caputo Bastos.

Como se trata de teia de relações perigosas com Cachoeira, há que se contar um outro caso que envolve a Vitapan Indústria Farmacêutica – empresa do contraventor em nome de sua ex-mulher e de seu cunhado – e a Sanofi S.A. em um processo, o de número 201192909399. Nele, a Sanofi pede a condenação da Vitapan por utilização de embalagem semelhante à Marca AAS. Valor envolvido na condenação: R$ 1.850.000,00. O caso provocou intensa movimentação do grupo. Está na 3a Câmara Cível e, até o dia 16, aguardava conclusão do relator, desembargador Rogério Arédio Ferreira.

Fato relevante: entre os advogados da Vitapan está João Batista Fagundes Filho (os outros são Jeovah Viana Borges Júnior e Marcelo Jacob Borges). Fagundes Filho vem a ser irmão do Juiz (da 9ª. Vara Civel de Goiânia) Sandro Cássio de Melo Fagundes, que supostamente atendeu pedidos de Cachoeira a favor da empresa CAPS Participações, que é do filho de Walter Paulo, Alex Marcório Santiago. Coincidência?

Se é, há outra: os advogados do delegado da PF Deuselino Tavares, sócio da Ideal Segurança, empresa que também tem como sócio Carlinhos Cachoeira, vêm a ser João Batista Fagundes Filho e João Batista Fagundes (mais Luziano Batista Dias Miranda Medeiros), respectivamente irmão e pai do juiz Sandro Cássio de Melo Fagundes, que teria deferido solicitações do Grupo Cachoeira e (ou seria ‘&’) Padrão.

Os nomes Ideal Segurança e Júlio Cesar Cardoso de Brito aparecem juntos no histórico ‘resumo’ em uma das transcrições da PF, com data de 25.05.2011. Diz: “Conversa com MARCELO sobre solução do problema no TRT e balanço para  Deuselino em 169 mil de dívidas pagas da IDEAL SEGURANÇA. Conversa com JÚLIO sobre telefone de crédito (SECRETO).

Há mais citações ao desembargador Júlio Cesar Cardoso de Brito. Sobre as ligações dele com o grupo Padrão, não é difícil verificar como era natural. Basta ver a participação dele em eventos públicos promovidos por Walter Paulo. Em uma visita à faculdade, por exemplo, Brito foi saudado assim: “A Faculdade Padrão recebeu na manhã do dia 05/04, a honrosa visita do Presidente em erxercício do egrégio TRIBUNAL REGIONAL DO TRABALHO - 18ª Região, eminente Desembargador Dr. JÚLIO CÉSAR CARDOSO DE BRITO, vice-presidente, que foi recebido pelo presidente da Mantenedora, professor Walter Paulo Santiago. Na foto: Sr. André Luiz, Administrador, Professor Walter Paulo, Mantenedor da Faculdade Padrão, Dr. Júlio César Cardoso de Brito, Presidente em Exercício do TRT - 18ª Região e Dr. Ascânio Darques, Advogado.” A foto é a que se vê no alto desta página.

O desembargador participou também de colação de grau na Padrão. E há um registro curioso: Brito, Walter Paulo e o ativista cultural – e Cidadão Goiano, com título e tudo – José Zunga Alves Lima, o ‘Zunga’, em uma residência que seria do governador Marconi Perillo. A mesma onde Cachoeira foi preso? A teia...


Ligações perigosas

O jornal O Popular registrou em reportagem as ligações do desembargados com o grupo de Cachoeira. Veja:

As interceptações telefônicas que indicam a suposta ligação do desembargador com o grupo liderado por Cachoeira foram feitas em junho do ano passado. Nelas, Júlio César é mencionado por Marco Antônio de Almeida Ramos, irmão de Carlinhos Cachoeira. Ele pede a Gleyb Ferreira da Cruz – que seria assessor no gerenciamento das atividades da quadrilha – que informe ao desembargador sobre uma ação que tramitava na Justiça do Trabalho. Segundo a PF, Marco Antônio e Júlio César trataram do assunto por um “telefone seguro”.

Alguns dias depois, a PF registrou que o desembargador estava com o carro importado de Marco Antônio. As escutas telefônicas também revelam Gleyb convidando o Júlio César para uma viagem a Buenos Aires com Marco Antônio. O assessor de Cachoeira ainda ajuda o magistrado a converter moeda nacional em dólar.

O desembargador, ouvido em abril pelo POPULAR, negou qualquer facilitação ou favorecimento aos membros da quadrilha. No entanto, ele admitiu ter uma “amizade recente em fase de conhecimento” com Gleyb. Em relação a Carlinhos Cachoeira, sustentou que teve convívio “apenas superficial”. Júlio César confirmou a viagem para Buenos Aires, mas alegou ter pago as próprias despesas. Ele apresentou o comprovante de viagem emitido por uma concessionária, referente a uma promoção que lhe dava direito às passagens para a capital argentina por ter comprado um carro zero quilômetro.

Sobre o automóvel, Júlio César explicou que Gleyb havia estacionado na porta do prédio onde mora e deixado a chave na portaria. Precisei ir à casa da minha mãe e, como estava sem condução, utilizei o automóvel que pensava pertencer ao Gleyb. No mesmo dia, um funcionário do Gleyb o buscou”.

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