Pastor denuncia compra de voto em Nova Lima
Sem saber que estava sendo gravado em vídeo, pastor da Igreja Quadrangular fala sobre votos comprados que teriam ajudado na eleição de Cassinho Rodrigues (PMDB). Justiça Eleitoral já intimou o prefeito eleito e pode até cassa-lo
Minas 247 - Um vídeo com câmera escondida e que começa a fazer sucesso nas redes sociais pode levar à cassação do prefeito eleito de Nova Lima, Cassinho Magnani (PMDB). A gravação mostra um pastor da Igreja Quadrangular da cidade, localizada na Grande BH, admitindo um esquema para apoiar o peemedebista. As suspeitas são de que Magnani teria contado com um esquema de “corretagem” para obter o apoio político de associações comunitárias, igrejas e outras entidades da cidade, tudo com o apoio do atual prefeito, Carlinhos Rodrigues (PT) -- que apoiou o peemedebista.
Leia a reportagem publicada no portal BhaZ. Depois, segue o vídeo polêmico:
O atual prefeito de Nova Lima, Carlinhos Rodrigues (PT), foi intimado pela Justiça eleitoral nesta segunda-feira (17) para que se defenda das denúncias de compra de votos durante a campanha do candidato eleito em outubro para administrar a cidade, Cassinho Magnani (PMDB). Documentos e gravações entregues à 194ª Zona Eleitoral provam que a atual gestão implantou um esquema de “corretagem” com o intuito de conseguir o apoio político de associações comunitárias, igrejas e outras entidades da cidade ao peemedebista, que teve como vice em sua chapa a petista Fatinha Aguiar.
Em 2012, a gestão de Carlinhos cedeu o direito de uso de 89 imóveis públicos. Comparado à quantia de terrenos repassados pela prefeitura no ano anterior, esse número representa um aumento de quase 80% na soma de beneficiários. A denúncia apurada pela Justiça eleitoral aponta que os decretos favoreceram, principalmente, entidades que poderiam influenciar nos votos de muitos eleitores.
Em um dos vídeos entregues ao juiz Juarez Morais de Azevedo, da 194ª Zona Eleitoral, um pastor da Igreja Quadrangular de Nova Lima conta que a direção da instituição apoiava o principal adversário de Cassinho até 20 dias antes do pleito. Sem saber que era gravado, o religioso admite que, com a intervenção do prefeito Carlinhos Rodrigues, houve uma mudança de posição.
O político teria prometido doar e regularizar a situação de três terrenos que interessavam aos líderes da igreja. Na gravação, o pastor ainda conta que a instituição é influente e tem mais de quatro mil seguidores em Nova Lima, o que atraiu o interesse do candidato à prefeitura. Ele ainda revela que Carlinhos teria se comprometido a oficializar as negociações após o dia 7 de outubro, para não ficar caracterizada a compra de votos.
Outro caso que também será analisado pela Justiça eleitoral envolve a Associação de Moradores do Conjunto Paulo Gaetani. Um recorte do Jornal Institucional da Prefeitura de Nova Lima comprova que Carlinhos Rodrigues promoveu uma reunião em 22 de setembro, 15 dias antes das eleições, na qual assinou a documentação de repasse de um terreno público à comunidade.
Testemunhas relatam que, durante o encontro, o prefeito teria dito que Cassinho seria a continuidade do trabalho da administração e que ele construiria a sede da entidade. Nos documentos entregues ao juiz, pessoas ainda confirmaram que, no mesmo mês, foi realizado um comício do candidato na região, oportunidade na qual Carlinhos já teria anunciado a entrega do imóvel para a associação. Segundo as denúncias, a partir de então, os líderes dos moradores passaram a promover visitas às casas do Conjunto Paulo Gaetani pedindo votos e argumentando que a comunidade receberia a doação de um terreno.
A Justiça eleitoral pode cassar o mandato de Cassinho Magnani diante da comprovação das informações repassadas pelas testemunhas e dos conteúdos dos vídeos apresentados. A assessoria de imprensa da prefeitura de Nova Lima foi procurada na manhã desta terça-feira (17) para esclarecer os trâmites relacionados à cessão dos terrenos públicos. Até o momento, a administração municipal não respondeu aos questionamentos feitos.
A reportagem do Bhaz também procurou o líder da Igreja Quadrangular de Nova Lima, pastor Ademir Guedes, para comentar as denúncias. Fies que trabalham com o religioso informaram que ele está viajando e só poderia atender à demanda durante a quarta-feira (18).
Nenhum representante da Associação de Moradores do Conjunto Paulo Gaetani foi encontrado para falar sobre o suposto apoio à candidatura de Cassinho diante da doação de um terreno.
Carlinhos e Cassinho teriam aprovado doações irregulares em outras ocasiões
O atual prefeito de Nova Lima responde a uma ação judicial por improbidade administrativa, diante da constatação de repasses ilegal de terrenos públicos. O Ministério Público de Minas Gerais (MPE) contabilizou 11 doações irregulares que teriam sido promovidas por Carlinhos Rodrigues.
As empresas que ganharam os terrenos estariam interessadas em construir empreendimentos de alto luxo na cidade. Diante do fato, o MPE propôs um Termo de Ajuste de Conduta (TAC) garantindo que o município recebesse 40% do valor dos imóveis repassados, cerca de R$ 11 milhões, em investimentos feitos pela companhias.
“O Poder Público pode praticar atos para atrair a atividade empresarial em seu território, mas tem que ser transparente e justificar as doações. E aquele que se beneficia com essa medida deve não apenas retribuir, gerando empregos e pagando tributos, mas também com ações e valores que possam ser revertidos em benefício da comunidade”, declarou a promotora de Justiça de Defesa do Patrimônio Público de Nova Lima, Ivana Andrade Souza, na época.
Já o candidato a prefeito eleito, Cassinho Magnani, chegou a ser ouvido pela Polícia Civil no último mês de setembro em um inquérito que investiga se os vereadores de Nova Lima receberam propina para autorizar repasses de terrenos públicos promovidos por Carlinhos. Os valores teriam sido pagos por empreiteiras.
Na época em que as doações se concretizaram, o peemedebista era presidente da Comissão de Legislação e Justiça (CLJ) e foi favorável aos projetos de lei apresentados pelo Executivo. A decisão contrariou o parecer da Comissão de Meio Ambiente da Câmara Municipal.