Perfil do consumo e qualidade de vida

Dize-me o que consomes que eu tirei quem és. É o que sugere a Pesquisa de Orçamentos Familiares realizada pelo IBGE, que revela – entre outros dados importantes – o perfil da nova classe média

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Dize-me o que consomes que eu tirei quem és. É o que sugere a Pesquisa de Orçamentos Familiares realizada pelo IBGE, que revela – entre outros dados importantes – o perfil da nova classe média que ascendeu socialmente a partir das políticas públicas e da retomada do crescimento econômico patrocinados pelo governo Lula.

Que milhões de brasileiros ingressem no mercado consumidor é, em si, positivo. Significa redução da pobreza absoluta e mobilidade de parcela expressiva da população. Mas o padrão de consumo da nova classe média não difere em nada do que já se consolidara na população razoavelmente aquinhoada. Ou seja: a reprodução do padrão adotado pelos mais ricos, ainda que em termos materialmente bem menos inferiores, correspondentes ao seu real poder aquisitivo.

O estudo do IBGE servirá de referência para o cálculo oficial do índice inflacionário, o IPCA. Agora terão peso menor nesse cálculo gastos com educação e empregados domésticos, por exemplo, enquanto figurarão com destaque gastos com cursos extras, aparelhos celulares, carro novo e combustível – traduzidos num impacto de 0,4 a 0,5 ponto.

Uma questão se depreende disso: consumo corresponde à melhoria da qualidade de vida? Necessariamente não.

Começa que o brasileiro não tem a cultura da poupança – como o povo chinês, por exemplo. Aqui se gasta o que se ganha, e muitas vezes, além disso, na esteira da ampliação da oferta de crédito. O percentual de famílias endividadas tem crescido em proporção importante, justamente pela facilidade das compras a prazo.

Depois, o ato de comprar está fortemente influenciado pela propaganda, a da TV especialmente. Daí uma hierarquização precária das prioridades de consumo, seja quanto à qualidade dos itens – melhor dizendo: a utilidade real para o bem estar familiar; seja em relação aos benefícios do que se compra, em geral de curta duração.

O sujeito atrasa o pagamento da escola do filho e a taxa do condomínio, mas faz questão de adquirir um carro do ano. Descuida do plano de saúde, mas almeja comemorar os quinze anos da filha com uma viagem à Disneylândia. Veste-se de acordo com a moda, ainda que em prejuízo da boa alimentação.

Que fazer? Uma campanha massiva em defesa do consumo bem orientado, me assegurou, dias atrás, uma professora idealista. Quem faria essa campanha? Ninguém, claro. Os meios de comunicação de massa nada mais fazem do que reproduzir os interesses dos fabricantes dos produtos que devem ser despejados no mercado – e, portanto, consumidos. O capitalismo é assim – e pronto. Sem um elevado padrão educacional e uma consciência política avançada, produto de transformações estruturais na sociedade, estaremos distantes de um padrão de consumo que corresponda, na prática, a uma qualidade de vida satisfatória.

* Luciano Siqueira é membro do Comitê Central do PCdoB e deputado estadual em Pernambuco.

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