‘Prefeitura quer forçar remoção de famílias na Dique’
Em 2009, a Prefeitura de Porto Alegre começou o processo de reassentamento e transferências das famílias da Vila Dique para uma nova comunidade construída no Porto Novo; até 2012, 922 famílias receberam novas casas; posteriormente, mais 554 casas deveriam ser entregues, o que já foi adiado várias vezes e não deve ocorrer antes do final do ano; o bloqueio da Av. Dique, obriga os moradores a pegarem dois ônibus e gastarem mais de uma hora para acessar escolas, postos de saúde, hospitais e supermercados mais próximos; para a moradora e líder comunitária Scheila Motta da Silva, 45 anos, presidente da Associação de Moradores da Dique (Amodique), a Prefeitura quer aproveitar a oportunidade e os prejuízos causados pela obra para pressionar as famílias a deixar o local
Luís Eduardo Gomes, Sul 21 - Em 2009, a Prefeitura de Porto Alegre começou o processo de reassentamento e transferências das famílias da Vila Dique para uma nova comunidade construída no Porto Novo. O objetivo era desocupar toda a região em que a comunidade está instalada para abrir espaço para as obras de ampliação do aeroporto Salgado Filho. Até 2012, 922 famílias receberam novas casas. Posteriormente, mais 554 casas deveriam ser entregues, o que já foi adiado várias vezes e não deve ocorrer antes do final do ano. Enquanto não ocorre, cerca de 300 famílias permanecem no local. Elas tocavam a vida normalmente até o dia 23 de maio, quando as obras de ampliação da Av. Severo Dullius cortaram o único acesso direto da comunidade com a Av. Sertório.
O bloqueio da Av. Dique, que deixa de existir com a ampliação da Severo Dullius, obriga os moradores a pegarem dois ônibus e gastarem mais de uma hora para acessar escolas, postos de saúde, hospitais e supermercados mais próximos. Além disso, a impossibilidade de acessar a Sertório por carroça, prejudicou a principal atividade econômica da região, a coleta e reciclagem de lixo.
Para a moradora e líder comunitária Scheila Motta da Silva, 45 anos, presidente da Associação de Moradores da Dique (Amodique), a Prefeitura quer aproveitar a oportunidade e os prejuízos causados pela obra para pressionar as famílias a deixar o local e se mudarem de uma vez por todas para a Vila Nova Dique, onde a maioria dos antigos moradores da Dique foram reassentados nos últimos anos, ou outros locais.
“O Demhab [Departamento Municipal de Habitação] chega e diz para as famílias: ‘vocês saiam se não vão perder o cadastro de vocês’. As pessoas ficam com medo de perder a casa lá e saem. Só que o cadastro dentro do Demhab não se perde nunca. Fica para sempre, para outros projetos, de outras moradias populares. Mas o Demhab chega aqui, pega uma família frágil, que não sabe ler nem escrever, que não sabe o que está assinando e faz as famílias assinarem e obriga as famílias a ir para lá. Muitos não querem. A maioria que tem cadastro não quer”, afirma.
Eugênio Borges, 46 anos, mais de 30 morando na Dique, também acredita que o bloqueio da avenida tem como objetivo retirar as famílias da vila. “Isso é uma estratégia do Demhab para pressionar o pessoal a sair”, diz. Sua família é uma das que está cadastrada para se mudar para a Nova Dique e aguarda reassentamento, mas ainda não tem informações sobre quando isso deve ocorrer. “Só fizeram a gente assinar o papel, mas não ofereceram nada”, complementa.
Pai de 10 filhos, sendo cinco menores de idade que ainda moram em sua casa, Eugênio também está reticente com a mudança, especialmente porque a casa que deve ter direito na Vila Nova Dique não teria espaço suficiente para abrigar toda a família.
Jade Martins, assistente social que trabalha para a Coopsol (Cooperativa Habitacional Solidariedade Ltda.), empresa que presta serviços terceirizados para o Demhab no processo de reassentamento das famílias que ainda permanecem na Vila Dique para o Porto Novo, pondera que há uma grande divisão entre os moradores da Dique. “Tem famílias que gostariam de fazer o reassentamento e tem muitas famílias que se identificam bastante com a comunidade. É uma comunidade bem rural. Tem trabalhadores da Ceasa”, afirma.
Instalada há mais de 40 anos ao longo da Av. Dique, entre a Sertório e a Freeway, a Vila Dique hoje é apenas uma fração do que já foi. Todas as casas que se espalhavam ao longo da parte asfaltada da Av. Dique e em um terreno pertencente à Infraero foram demolidas, incluindo o antigo posto de saúde, uma creche e uma padaria construída pela comunidade. Agora, vai apenas até o fim da Av. das Indústrias.
Segundo a Amodique, 1,9 mil famílias moravam na Dique antes da remoção. Dessas, 900 estão morando na Vila Nova Dique, localizada no Porto Novo, um terreno próximo ao sambódromo, e centenas se mudaram para outros locais – algumas por meio do aluguel social. Restam 300. “E crescendo mais. Daqui a pouco os jovens casam. Na periferia é assim, 18, 19 anos os jovens já casam”, diz Scheila.
A líder comunitária afirma que, com a retirada do posto de saúde da Dique, diminuiu a preocupação com a prevenção da gravidez, o que ajuda no surgimento de novas famílias. “Meninas de 12 anos estão engravidando. Não tem mais distribuição de camisinhas. A nossa ginecologista reunia um grupo de meninas em uma casa, conversava com elas sobre a prevenção. O médico conversava com os meninos sobre a prevenção a doenças sexualmente transmissíveis. Hoje não temos nada”, afirma.
Como consequência direta dos surgimentos de novas famílias – os chamados desmembramentos familiares -, Scheila explica que muitas pessoas não estão cadastradas no Demhab para reassentamento. Segundo Scheila, 80 pessoas assinaram os documentos necessários para obter uma casa no Porto Novo e outras 40 estariam em processo de regularização de documentos. “Muitos desmembramentos não vão ganhar casa e vão ficar para trás. Um total de 182 famílias vai ficar para trás”, diz a líder comunitária.
No entanto, mesmo entre as pessoas que já estão cadastradas para se mudar para a Nova Dique, há muitas famílias que não gostariam de ir. Por dois motivos principais: falta de empregos e de segurança.
Tomada pelo tráfico
Scheila conhece bem o problema da violência da Nova Dique. Há três anos, um de seus filhos foi morto no local. Ele tinha 17 anos. A líder comunitária conta que ele foi baleado quando foi ver a namorada, antiga vizinha de Dique. “Foi um dos primeiros meninos que foi morto lá. Ele foi ver a namorada, que já tinha sido transferida. Ele saiu do serviço 18h30, 19h. Tomou um banho e disse: ‘mãe, vou lá ver a Patrícia’. Era 20h30, 21h, me ligaram de lá: ‘Scheila, teu filho tá morto’. Ele foi morto na guerra”, diz.
A assistente social Jade Martins confirma que os moradores da nova Dique reclamam que a comunidade antiga era mais segura. “Nós que trabalhamos aqui viemos sexta-feira à noite, à tarde, não temos relatos de violência. E lá a gente não vai à tarde, nem à noite. Não vimos nada, mas as famílias falam que tem muita violência, tem toque de recolher, que é bem complicado o Porto Novo”, diz.
Segundo ela, isso ocorre porque a Nova Dique está cercada por comunidades que já eram dominadas por traficantes. “Tem a Amazônia, a Morada do Sol, então é bem violento” , diz a assistente social.
Scheila salienta ainda que muitas famílias que não se adaptaram a esta realidade já estariam voltando. “Tu pega uma comunidade pacífica e coloca no meio de outras que estão em guerra. O que acontece com essa comunidade pacífica? Ou ela aceita o ajoujo ou sofre a consequência. Mas pessoas que não estão acostumadas com isso, estão voltando para a Vila Dique. Muitas pessoas fecharam as casas e estão lá as casas abandonadas. E aqui é como se fosse interior. As famílias criam porco, galinha, cavalo e gado. O pessoal amanhece fazendo seus churrascos, suas festas”, diz.
Falta de trabalho
Outra causa apontada para violência da Nova Dique é a falta de oportunidades de trabalho, especialmente para os jovens. “Aqui, os meninos faziam curso na nossa padaria (fechada com a remoção da comunidade, junto com a creche, o posto de saúde) comunitária, construída por nós (em parceira com uma ONG alemã). Ali nós dávamos curso de padaria e confeitaria para meninos e meninas. Inclusive o meu filho está trabalhando na padaria do Bourbon Country. Os nosso meninos não ficavam soltos aqui”, diz.
Como alternativa para inclusão social das famílias que dependem do ciclo de reciclagem de resíduos para sobreviver, a Prefeitura ofereceu cursos profissionalizantes no Senac e do Pronatec. No entanto, em uma comunidade em que muitas pessoas não sabem ler nem escrever, isso não surte efeito.
“Como é que uma pessoa que não sabe ler nem escrever, que lida com reciclagem, que tira o seu sustento da reciclagem há quase metade da sua vida, vai fazer um curso no Senac? Como? Como a Prefeitura vem e me esfrega um curso no Senac para uma pessoa que não sabe ler nem escrever? Isso é horrível. É uma maneira de o governo pisar no povo. Pisar nas comunidades. Massacrar”, diz Scheila. Eu fui fazer um curso do Senac, oferecido pela Ambev. Quando entrei, tinha 40 pessoas. Quando precisou se aprofundar no curso, que tinha que saber ler e escrever, eu vi as pessoas olhando umas para as outras sem saber o que fazer. ‘O que eu estou fazendo aqui?’ Eu lembro que tinha uma senhora que chorava porque não sabia ler e não entendia o que o professor estava falando. É vergonhoso o que eles estão fazendo com a gente”.
Jade concorda que oferecer cursos de formação não é a solução para muitas das famílias que trabalhavam com a reciclagem. “Até para o EJA tem um dificultador. É complicado porque são deliberações que vem de cima para baixo em todas as nossas políticas, da gente poder trabalhar essa lógica invertida, de estar conversando com as comunidades no dia a dia”, diz. Para piorar, com o corte de verbas do governo federal para o Pronatec, isso também está parado no momento.
Com o bloqueio da Av. Dique e a queda no volume de trabalho de reciclagem, Scheila teme que a comunidade antiga também sofra com o aumento da violência e que muitos jovens sejam seduzidos pelo tráfico.
“O que vai acontecer aqui dentro da comunidade se não tiver mais trabalho, vão roubar? Aí vão fazer mais presídios? Aí vai preso? Um pai de família com cinco filhos para sustentar vai preso? Porque vai ter que roubar. É coisa que na Vila Dique não se precisa, porque a gente vai nas empresas e elas dão o papel”, diz a líder comunitária. “Eu não ensino meus filhos a roubar. Eles trabalham. A gente não quer também só do dinheiro do governo, nós queremos trabalhar. É isso que a comunidade quer, e ter seus direitos respeitados. Quer saúde, educação, porque muitos pais não sabem ler nem escrever, mas botam seus filhos na escola porque querem que eles aprendam. Isso o governo não está vendo. Não está nem aí. Em vez de ele dar, está tirando”.
O Demhab foi procurado pela reportagem, mas, até o fechamento desta matéria, não tinha respondido as perguntas enviadas.