Rodoviários levarão proposta à assembleia
Na reunião desta segunda-feira, os empresários concordaram em conceder 7,5% de aumento; a cobrança dos trabalhadores é por um reajuste de 14%; caso seja aceita, os ônibus passarão a circular de forma gradativa a partir do meio-dia, passando a contar com 70% da frota nas ruas até as 16h
Samir Oliveira
Sul 21 - Após uma reunião de quase quatro horas no Tribunal Regional do Trabalho (TRT), nesta segunda-feira (3), os empresários que operam o transporte público em Porto Alegre apresentaram uma nova proposta aos trabalhadores rodoviários – que estão em greve há oito dias. Desde o início da mobilização, a patronal ainda não havia proposto um reajuste real à categoria, limitando-se a oferecer a reposição de 5,5% relativa à variação anual do INPC. Na reunião desta segunda-feira, após uma série de propostas e contrapropostas, os empresários concordaram em conceder 7,5% de aumento. A cobrança dos trabalhadores é por um reajuste de 14%.
Outras duas pautas tidas como prioritárias pela categoria também foram parcialmente atendidas. O vale-refeição, que é de R$ 16,00, passará a ser de R$ 19,00. A cobrança inicial dos trabalhadores é por um vale de R$ 20,00.
No que diz respeito ao plano de saúde, a negociação também foi bastante complicada. Atualmente, os rodoviários não precisam pagar nada pelo benefício. Entretanto, os empresários alegam que neste ano houve um aumento de 50% nos custos do plano e, por isso, precisarão repassar parte dos custos aos trabalhadores, descontando R$ 40,00 do contracheque. A proposta inicial dos rodoviários é a de não pagar nada pelo plano e ainda ampliá-lo, fazendo com que contemple também a internação hospitalar, e não apenas o atendimento ambulatorial. Entretanto, o que se costurou no TRT foi um desconto menor, de R$ 10,00, e a manutenção do benefício nos atuais parâmetros.
Um fator decisivo para que os trabalhadores aceitassem a proposta mediada pelo TRT foi a garantia, por parte dos patrões, de que não haverá retaliação aos grevistas, nem corte do pagamento relativo aos dias parados. Isso ficou consignado na ata da reunião e foi assinado por todos os presentes.
Com essa decisão, ficou acertado que os rodoviários farão uma assembleia nesta terça-feira (4), às 8h, no ginásio Tesourinha, para submeter a proposta à categoria. Caso seja aceita, os ônibus passarão a circular de forma gradativa a partir do meio-dia, passando a contar com 70% da frota nas ruas até as 16h. O cenário permanecerá o mesmo até a meia noite de quinta-feira (6) – prazo mediado pelo TRT para que os trabalhadores e os empresários negociem o restante da pauta de reivindicações. Os itens que deve gerar mais conflito é a redução da jornada de trabalho para seis horas diárias e a extinção do banco de horas. Atualmente, os rodoviários trabalham de sete a oito horas por dia.
Na avaliação de Alceu Webber, da comissão de negociação dos rodoviários, a proposta apresentada não é a ideal, mas é melhor do que o que vinha sendo posto até então. Ele considera que a reunião desta segunda no TRT comprovou que os empresários podiam, sim, conceder um reajuste real à categoria – diferentemente do que vinham dizendo até então. “Essa greve nem precisava ter ocorrido se eles tivessem proposto algo concreto na primeira negociação”, observou.
Reunião tensa
A reunião desta segunda-feira no TRT contou com alguns momentos bastante tensos. A desembargadora Ana Luiza Kruse, que conduzia os trabalhos, ameaçou por duas vezes encerrar a mediação e chegou a se irritar com os representantes da comissão de negociação.
Ela dizia que era preciso negociar a pauta de três itens estabelecidos como principais, enquanto, em vários momentos, os grevistas colocavam outras questões como o reajuste da passagem de ônibus e a proposta de operar com catracas liberadas.
Em uma dessas situações, a desembargadora afirmou que não era possível ficar voltando o raciocínio para pautas que ela considerava não dizerem respeito a uma relação entre empregados e patrões. Ela chegou a retirar a palavra de Alceu Webber, liderança da comissão de negociação dos rodoviários, após ele mencionar novamente o reajuste da tarifa. “O senhor não me enrola, agora chega!
Eu posso cassar a palavra de quem eu quiser e estou cassando a sua”, disse a magistrada.
Lideranças da comissão
Quem menos se pronunciou durante esta reunião do TRT foi o presidente do Sindicato dos Rodoviários, Júlio Gamiliel. Quem mais falou em nome da categoria foram os integrantes da comissão de negociação, liderados por Alceu Webber.
Durante a reunião, a desembargadora Ana Luíza Kruse deixou claro que as lideranças presentes tinham o compromisso de convencer a categoria a aprovar a proposta mediada. Os integrantes da comissão de negociação afirmaram que fariam o possível para sensibilizar a base, mas ressaltaram que não têm como antecipar o resultado da assembleia.
Os empresários frisaram, a todo momento, que o reajuste de 7,5% estaria sujeito ao fim imediato da greve. Entretanto, diante da negativa dos trabalhadores, a desembargadora ponderou outros termos: se a proposta for aceita pela categoria, 70% da frota deverá ser restabelecida após as 16h de terça até a quinta-feira. Durante esse período, os outros pontos da pauta deverão ser equacionados.
O índice de 70% corresponde ao que já havia sido determinado pela desembargadora em decisão liminar proferida na última terça-feira.
A decisão vem sendo descumprida pela categoria, que a considerou uma afronta ao direito à greve. Desde então, 100% dos ônibus estão parados na cidade e o Sindicato dos Rodoviários está sujeito a uma multa de R$ 100 mil por dia.
Caso a assembleia da categoria aprove a proposta nesta terça (4), os efeitos da multa passarão a valer apenas até esta segunda-feira. Se a assembleia rejeitar a proposta, a multa seguirá valendo e todo o acordo firmado no TRT será anulado, fazendo com que as negociações tenham que ser retomadas desde o início.