Safatle defende que intelectuais nomeiem o fascismo sem receio
Filósofo da USP afirma que o fascismo permanece atual, critica resistência acadêmica ao termo e relaciona o fenômeno às crises contemporâneas
247 - O filósofo e professor da Universidade de São Paulo (USP) Vladimir Safatle defendeu que intelectuais, pesquisadores e pensadores abandonem a resistência em classificar movimentos autoritários contemporâneos de extrema direita como fascistas. Para ele, compreender corretamente o fenômeno é uma condição fundamental para enfrentar seus efeitos políticos e sociais.
Em entrevista à Agência Brasil, Safatle argumentou que o conceito de fascismo continua sendo uma ferramenta adequada para analisar formas atuais de autoritarismo. Autor do livro A ameaça interna: psicanálise dos novos fascismos globais, ele participará do debate Novos Fascismos Globais durante a programação d’A Feira do Livro, em São Paulo.
Ao longo da conversa, o professor da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP (FFLCH-USP) sustentou que práticas associadas historicamente ao fascismo foram naturalizadas dentro de democracias liberais, especialmente quando direcionadas a grupos específicos e territórios marginalizados.
Fascismo além dos anos 1930
Safatle criticou a interpretação que restringe o fascismo exclusivamente à experiência histórica da Itália e da Europa nos anos 1930. Segundo ele, essa limitação impede uma compreensão mais ampla das formas contemporâneas de violência política.
“Eu sou daqueles que acham que o uso do termo fascismo é adequado para dar conta das formas de autoritarismo contemporâneo”, afirmou.
Para o filósofo, democracias liberais convivem historicamente com mecanismos de violência que se aproximam de estruturas fascistas. Em sua avaliação, essas práticas permanecem restritas a determinados grupos sociais, mas tendem a se expandir em períodos de crise.
“Por isso que eu sou daqueles que acham que, melhor do que falar de uma democracia liberal como uma forma natural da nossa estrutura política, seria mais interessante falar de fascismos restritos, que, em situação de crise, se generalizam, como o que está acontecendo agora.”
Violência colonial e realidade brasileira
Ao discutir as origens históricas do fascismo, Safatle argumentou que muitas de suas tecnologias de violência foram desenvolvidas inicialmente em contextos coloniais. Ele citou elementos como supremacismo racial, desaparecimentos forçados, extermínio de populações e massacres administrativos.
Segundo o professor, países com forte herança colonial, como o Brasil, mantiveram parte dessas estruturas ao longo do tempo, especialmente na relação do Estado com populações vulneráveis.
Ao abordar a realidade brasileira, Safatle questionou a ideia de que a democracia se manifesta de maneira uniforme para todos os cidadãos. Como exemplo, comparou a experiência de moradores de bairros privilegiados à vivida por habitantes de regiões periféricas e favelas.
“Eu tendo a dizer, basicamente, que é impossível falar em democracia se você não coloca uma questão posterior que é: democracia na perspectiva de quem?”
Extrema direita e formas de violência
Questionado sobre a relação entre fascismo e extrema direita, Safatle respondeu que considera os dois fenômenos diretamente conectados. Embora reconheça a existência de diferentes formas de violência política ao longo da história, ele rejeita equiparações simplificadas entre experiências distintas.
O filósofo argumenta que a violência fascista possui características próprias, marcadas por uma lógica de mobilização permanente para o conflito e pelo incentivo ao sacrifício coletivo.
“A violência fascista é outra coisa, é um tipo de violência suicidária, ou seja, ela desenvolve uma lógica auto-sacrificial de natureza tal que até mesmo o próprio Estado começa a entrar em colapso.”
Segundo ele, essa dinâmica se manifesta atualmente em governos de extrema direita por meio da forma como enfrentam crises climáticas, sanitárias, ecológicas e humanitárias, frequentemente naturalizando níveis crescentes de destruição social.
Crises contemporâneas e pandemia
Safatle também relacionou o debate sobre fascismo à forma como diferentes sociedades respondem às crises contemporâneas. Em sua avaliação, muitas vezes prevalece uma lógica de adaptação à destruição em vez da tentativa de eliminar suas causas estruturais.
“A gente tem cada vez mais crises ecológicas brutais no nosso presente e no nosso futuro. Diante delas, você tem duas opções a fazer: gerenciá-las, ou seja, tratar as causas dessas crises para que elas não voltem a ocorrer, ou simplesmente não fazer nada e tratar como se elas fossem casos normais a partir de agora.”
Ao comentar a pandemia de covid-19, o professor afirmou que aquele período foi decisivo para o desenvolvimento de suas reflexões sobre os novos fascismos globais.
“Sim, foi. Eu diria que foi aí, inclusive, que eu comecei a escrever esse livro.”
Para ele, a atuação do governo federal à época promoveu uma naturalização da exposição da população à morte, transformando o sacrifício em elemento central da gestão da crise.
O cálculo racional do fascismo
Um dos pontos centrais da entrevista foi a crítica à ideia de que a adesão ao fascismo decorre apenas de ignorância, irracionalidade ou manipulação. Segundo Safatle, existe um componente racional que precisa ser compreendido.
“Primeiro, entender mais claramente o que é o fenômeno e não ter medo de nomear o fenômeno. Dar nome correto às coisas é a primeira condição para conseguir resolver os problemas.”
Na avaliação do filósofo, parte dos apoiadores dessas ideias realiza um cálculo baseado na percepção de escassez e competição social. “Na verdade, é uma escolha racional do fascismo. É importante entender esse cálculo racional.”
Ele resumiu essa lógica da seguinte maneira: “não tem mais sociedade para todo mundo, não tem mais espaço para todo mundo, alguém vai ter que sair e alguém vai ficar. E é melhor que esse alguém que vai ficar seja eu. Se for você que tiver que sair, desculpe, mas é você ou sou eu”.
Para Safatle, esse processo depende da destruição de vínculos de solidariedade e da disseminação da indiferença diante do sofrimento alheio.
“Eu não posso sentir que o seu destino diz respeito a mim também, eu não posso imaginar que o que acontecer com você e que a sua tragédia também seja uma tragédia minha.”
Autocrítica acadêmica e história do fascismo no Brasil
O filósofo também criticou a resistência de parte da academia brasileira em utilizar o conceito de fascismo para analisar a realidade nacional. Segundo ele, a própria trajetória histórica do país justificaria um debate mais profundo sobre o tema.
Safatle destacou a relevância da Ação Integralista Brasileira nos anos 1930 e sua influência sobre setores do regime militar instaurado em 1964. “A história do fascismo nacional é uma história constituinte do Brasil.”
Para o professor, as universidades precisam refletir sobre os motivos que levaram intelectuais e pesquisadores a negligenciar essa dimensão da história brasileira.
“A universidade deveria começar fazendo uma profunda autocrítica sobre como é que foi capaz de não enxergar essa história por tanto tempo.”
Ao concluir sua análise, Safatle afirmou que a recusa em reconhecer a presença histórica do fascismo no país pode contribuir para a manutenção de estruturas de violência e exclusão.
“Eu diria que uma boa parte dos intelectuais que hoje se recusam a sequer pensar na possibilidade de que há mesmo um fascismo que é um elemento constituinte da nossa história, da nossa realidade, eles acabam sendo cúmplices desse processo.”
