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Saúde, educação e desemprego lideram preocupações entre países lusófonos

Estudo inédito do Barometro da Lusofonia mostra insatisfação com a democracia, alerta sobre fake news e revela diferenças entre países de língua portuguesa

Pessoas se reúnem na Praça do Rossio, em Lisboa, para comemorar o cinquentenário da Revolução dos Cravos em Portugal - 25/04/2024 (Foto: Foto: REUTERS/Pedro Nunes)

247 - Saúde, educação e desemprego aparecem como os principais problemas enfrentados pelos países de língua portuguesa, segundo a percepção de seus próprios cidadãos. O diagnóstico faz parte do Barometro da Lusofonia, levantamento inédito que mapeia valores, opiniões e expectativas da população sobre temas centrais da vida pública, como democracia, desigualdade de gênero, imigração, fake news e intercâmbio cultural.

Lançado oficialmente em janeiro de 2026, o estudo é liderado pelo Ipespe – Instituto de Pesquisas Sociais, Políticas e Econômicas e analisa aspectos da cultura, da sociedade e das instituições em nações lusófonas distribuídas por quatro continentes. Os dados mostram que as deficiências nos serviços públicos e as dificuldades de inserção econômica estão no centro das preocupações da população.

Segundo Antonio Lavareda, diretor-geral do Barometro e presidente do Conselho Científico do Ipespe, os resultados revelam um padrão comum entre os países pesquisados. “O Barometro revela que as preocupações centrais dos cidadãos da lusofonia estão ligadas à qualidade dos serviços públicos e às condições de inserção econômica. Em um segundo patamar, surgem temas como violência, inflação e acesso a água, energia e saneamento básico”, afirma.

Apesar de haver convergência sobre os grandes desafios, a hierarquia dos problemas varia de país para país. No Brasil, por exemplo, saúde (45%), violência (40%) e educação (35%) lideram o ranking das preocupações nacionais. O estudo observa que, após a megaoperação policial contra facções criminosas realizada pelo governo do Rio de Janeiro nos complexos do Alemão e da Penha, no fim de outubro de 2025, o tema da segurança ganhou maior destaque no debate público. Nesse contexto, não se descarta que os 8% registrados para política, guerras ou conflitos armados estejam associados à mesma percepção de insegurança.

O levantamento também chama atenção para a avaliação do funcionamento da democracia. Em média, 57% dos entrevistados nos países lusófonos declaram não estar satisfeitos com o regime democrático em seus países. Timor-Leste e Portugal destoam do padrão: são os únicos em que a maioria da população se diz satisfeita, com índices de 75% e 61%, respectivamente.

Outro ponto analisado é a participação eleitoral. Na maior parte dos países, os entrevistados afirmam votar com frequência, ainda que esses dados nem sempre se confirmem nos índices oficiais de comparecimento. Na média geral, 63% dizem votar sempre e 13% afirmam votar na maioria das vezes. Apenas 11% declaram votar raramente e 9% dizem nunca votar. O Brasil, único país da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP) com voto obrigatório, apresenta o maior nível de participação declarada: 88% afirmam votar sempre e outros 5% dizem votar na maioria das vezes.

O Barometro da Lusofonia também investigou a disseminação de fake news. Segundo o estudo, 64% dos entrevistados afirmam já ter recebido notícias falsas. Portugal (83%) e Brasil (80%) lideram esse ranking, seguidos por Angola e Moçambique (ambos com 71%) e Guiné-Bissau (67%). Os percentuais são menores em Cabo Verde e São Tomé e Príncipe (49% cada) e em Timor-Leste (40%). De acordo com a análise do levantamento, esses números mais baixos não indicam necessariamente menor incidência de desinformação, mas podem refletir maior dificuldade de identificação do problema em determinados contextos regionais.

Para esta primeira edição, foram realizadas 5.688 entrevistas em uma pesquisa simultânea envolvendo países da África — Angola, Cabo Verde, Guiné-Bissau, Moçambique e São Tomé e Príncipe —, da América do Sul, com o Brasil, da Ásia, com Timor-Leste, e da Europa, com Portugal. A abrangência geográfica é um dos diferenciais do estudo, que busca oferecer um retrato comparativo da lusofonia contemporânea.

O objetivo central do Barometro é contribuir para o fortalecimento da integração entre os países de língua portuguesa, aprofundando a compreensão sobre percepções e valores compartilhados. O estudo também destaca o papel estratégico do português, língua falada por cerca de 300 milhões de pessoas e considerada uma das mais difundidas do mundo em número de falantes nativos, com projeções de crescimento que apontam para mais de 500 milhões de falantes até o ano de 2100.

Os resultados do levantamento deram origem a um livro, em versões impressa e digital, além de um ciclo de seminários no Brasil e em outros países lusófonos. A base de dados produzida está sendo disponibilizada a centenas de instituições de ensino e pesquisa por meio da Associação das Universidades de Língua Portuguesa (AULP), permitindo que alunos, professores e pesquisadores desenvolvam dissertações, teses, artigos e outras publicações acadêmicas.

O Barometro da Lusofonia conta com apoio e participação de diversas instituições, entre elas a Comunidade dos Países de Língua Portuguesa, a AULP, o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento, o Ministério da Cultura do Brasil, universidades brasileiras e estrangeiras, fundações e centros de pesquisa, reforçando o caráter científico e colaborativo da iniciativa.