Sobre juros e comichões (E)

A deciso do governo, de reduzir a taxa de juros dos bancos oficiais ao consumidor final, pressiona as grandes instituies privadas a seguirem o mesmo ritmo; Contudo, o aumento da capacidade de endividamento das famlias, sem o devido controle fiscal, pode gerar a to temida inflao por demanda

Sobre juros e comichões (E)
Sobre juros e comichões (E) (Foto: Montagem PE247)
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Paulo Emílio _PE247 - Foi uma queda longa, onde o baque demorou mais que o esperado. Mas aconteceu. O Governo Federal forçou a mão e utilizando o peso dos bancos oficiais (Banco do Brasil e Caixa Econômica) e reduziu a taxa de juros junto ao consumidor final. Pressionados, as grandes instituições privadas não estão tendo outra alternativa a não ser acompanhar a maré e, desta forma, ofertar crédito mais barato. A medida tem como pano de fundo a redução do custo do spread bancário brasileiro, um dos mais elevados do mundo, e manter a economia aquecida.

Neste quesito, o Governo está mais do que certo. Com a economia dando sinais de desaquecimento desde 2011, era preciso fazer alguma coisa para manter a mola em movimento. Enquanto se reduzem gastos da máquina pública, com destaque para o custeio, por exemplo, mantém-se o nível de investimentos para que a economia continue crescendo. Mesmo assim é menos dinheiro circulando, menos gente comprando... Então a solução encontrada foi reduzir o custo do spread bancário, transferindo de certo forma parte da responsabilidade do dinheiro circulante para a iniciativa privada. E ainda existe margem.

O spread bancário embute os custos administrativos, o risco de inadimplência, a baixa concorrência – o sistema financeiro brasileiro é pouco competitivo com quatro ou cinco instituições no comando criando uma espécie de oligopólio -, os custos com impostos e uma margem de lucro para lá de elevada. O lucro médio beira os 30%. De acordo com o professor de Finanças da Universidade Federal de Pernambuco, Pierre Lucena, no cheque especial este índice pode chegar a 80%.

Apena as alterações promovidas na taxa básica de juros, a Selic, não se mostraram suficientes para reaquecer a economia, uma vez que a queda não chegava na ponta final, junto ao cliente ou consumidor final. Agora, com a redução geral dos juros, aumenta-se a oferta de crédito e dilui-se o risco em função dos novos usuários que passam a acessar o sistema. Outro resultado é a diversificação das carteiras ofertadas pelos bancos.

A redução do spread pelos bancos oficiais fez com que a iniciativa privada finalmente se mexesse nesta direção, resultando exatamente naquilo que o governo esperava: aumentar a oferta de crédito ao mercado sem que ele mesmo tenha que mexer, pelo menos no momento, no estoque da dívida pública (lembrando que quanto maior os juros, maior o tamanho da conta pendurada).

O Bradesco foi a primeiro das grandes instituições privadas a trilhar este caminho, reduzindo juros em cerca de 50% para o crédito pessoal e para pessoas jurídicas, além de injetar R$ 21 bilhões em novos recursos para as linhas de financiamento já existentes. Outras instituições devem seguir a mesma estrada nos próximos dias.

Mas e o risco de inflação? Ele é real, mas não é tão monstruoso como muitos profetas do caos andam apregoando por aí. Nos últimos 12 meses a inflação caiu de pouco mais de 7% para pouco mais de 5%. Portanto, ainda existe uma boa margem de manobra. O economista e Diretor Financeiro da Ceplan Consultoria Econômica e Planejamento, Jorge Jatobá, observa que a maior oferta de crédito provocada por esta movimentação resultará num aumento do consumo, podendo impactar o nível de endividamento das famílias e gerar, caso não haja um controle fiscal e um olhar crítico sobre a economia, a tão temida inflação por demanda.

Mas de certa forma, até isto é um risco calculado. Segundo Pierre Lucena, o nível de endividamento das famílias brasileiras, quando em comparação com o Produto Interno Bruto (PIB), é bem inferior aos dos chamados países desenvolvidos. Este índice gira em torno de 40% no Brasil, o que dá uma certa margem para possíveis ajustes caso estes se façam necessários.

E caso o dragão da inflação comece a grunhir, o Governo poderá descer o porrete para mantê-lo quieto com medidas como a elevação do custo do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) ou mesmo elevando a taxa Selic, muito embora isto também eleve o estoque da dívida pública. Seja como for o Governo parece disposto a cumprir o seu papel de condutor da economia e a iniciativa privada, que costumava desdenhar das iniciativas oficiais, começa a se coçar.

 

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