Suplicy ao 247: “Temer deveria renunciar e apoiar eleições diretas”

Em entrevista à TV 247, o vereador de São Paulo revelou que pergunta faria ao presidente Michel Temer se fosse Edson Fachin, o ministro relator da Lava Jato no STF, a respeito da gravação feita pelo empresário Joesley Batista; o petista discorda de Temer, que já declarou que não renuncia para não assumir culpa no episódio; amigo de Fernando Henrique Cardoso, recusou-se a opinar se o PSDB está certo ou errado em continuar apoiando Temer depois do episódio da fita, mas acha que o ex-presidente tucano e o ex-presidente Lula são as pessoas que deveriam dialogar em busca da pacificação do país; sobre a ação do prefeito João Doria na Cracolândia, avalia que "foi uma forma um tanto drástica, violenta" de enfrentar a situação

Em entrevista à TV 247, o vereador de São Paulo revelou que pergunta faria ao presidente Michel Temer se fosse Edson Fachin, o ministro relator da Lava Jato no STF, a respeito da gravação feita pelo empresário Joesley Batista; o petista discorda de Temer, que já declarou que não renuncia para não assumir culpa no episódio; amigo de Fernando Henrique Cardoso, recusou-se a opinar se o PSDB está certo ou errado em continuar apoiando Temer depois do episódio da fita, mas acha que o ex-presidente tucano e o ex-presidente Lula são as pessoas que deveriam dialogar em busca da pacificação do país; sobre a ação do prefeito João Doria na Cracolândia, avalia que "foi uma forma um tanto drástica, violenta" de enfrentar a situação
Em entrevista à TV 247, o vereador de São Paulo revelou que pergunta faria ao presidente Michel Temer se fosse Edson Fachin, o ministro relator da Lava Jato no STF, a respeito da gravação feita pelo empresário Joesley Batista; o petista discorda de Temer, que já declarou que não renuncia para não assumir culpa no episódio; amigo de Fernando Henrique Cardoso, recusou-se a opinar se o PSDB está certo ou errado em continuar apoiando Temer depois do episódio da fita, mas acha que o ex-presidente tucano e o ex-presidente Lula são as pessoas que deveriam dialogar em busca da pacificação do país; sobre a ação do prefeito João Doria na Cracolândia, avalia que "foi uma forma um tanto drástica, violenta" de enfrentar a situação (Foto: Gisele Federicce)

247 - Em entrevista à TV 247, realizada por Paulo Moreira Leite e Alex Solnik, o ex-senador da República por 24 anos e atual vereador em São Paulo Eduardo Suplicy (PT) revelou que pergunta faria ao presidente Michel Temer se fosse Edson Fachin, o ministro relator da Lava Jato no STF, a respeito do episódio da fita, levando-se em conta que o atual ministro da Fazenda foi, durante quatro anos, presidente da holding J&F, empregado de Joesley, portanto.

"Será que, senhor Michel Temer, alguma vez o senhor conversou com o ministro Henrique Meirelles sobre os assuntos que o senhor Joesley Batista conversou com o senhor? Será que Henrique Meirelles tinha conhecimento dessa prática?"

Se tivesse oportunidade de conversar com ele pessoalmente, Suplicy recomendaria a Temer renunciar e em seguida ajudar o Congresso Nacional a aprovar a emenda antecipando as eleições diretas para presidente da República para outubro deste ano. Discorda de Temer, que já declarou que não renuncia para não assumir culpa no episódio, recordando que houve renúncias das quais o estadista saiu engrandecido, como no caso do chanceler alemão Willy Brandt.

Amigo de Fernando Henrique Cardoso, recusou-se a opinar se o PSDB está certo ou errado em continuar apoiando Temer depois do episódio da fita, mas acha que o ex-presidente tucano e o ex-presidente Lula são as pessoas que deveriam dialogar em busca da pacificação do país.

Também lembrou que, embora por enquanto os tucanos estejam apostando no pós-Temer com eleições indiretas, "Fernando Henrique sabe muito bem do desejo da população por eleições diretas".

Chamado às pressas para socorrer as vítimas da invasão da Cracolândia pela PM, disse que "foi uma forma um tanto drástica, violenta" de enfrentar a situação. Fez questão de transmitir suas impressões ao prefeito João Doria: "Eu liguei pra ele e falei que houve abusos e violência".

Assista à íntegra da entrevista no vídeo abaixo e leia os principais trechos:

 

Se o senhor fosse o ministro Edson Fachin que é o relator da delação premiada do frigorífico JBS que pergunta faria ao presidente Michel Temer a respeito do episódio com Joesley Batista?

Em primeiro lugar, quero dizer que sempre tive com o vice-presidente Michel Temer uma relação de muito respeito e carinho. Me lembro de ter ido, em 2014, quando ele era candidato e estivemos juntos, diversas vezes, no palanque da presidenta Dilma Rousseff com Lula, Marta Suplicy,      que havia sido ministra e ele defendendo os propósitos daquilo que nós defendíamos. Então, fiquei um pouco preocupado... primeiro, se eu tivesse sido senador em 2016, por achar que a presidenta Dilma não cometeu qualquer crime de responsabilidade, muito menos de enriquecimento ilícito eu inclusive escrevi uma carta aos 81 senadores recomendando que não votassem pelo impeachment, mas a maioria não me ouviu e me lembro de em 2014 ter visitado Michel Temer na sua residência, ali em Pinheiros, e até lhe dei... conversei a respeito do meu livro “Renda básica da cidadania: a saída é pela porta”. Antes de lhe dizer a pergunta que eu faria, quero lhe dizer também que, como senador, eu sempre tive uma relação de muito respeito pelo então presidente do Banco Central, que inúmeras vezes veio ao Senado na comissão de assuntos econômicos da qual eu sempre fiz parte. E em todas as vezes em que ele foi arguido eu formulei perguntas e inclusive dei o meu livro para o Henrique Meirelles. Só para dizer o meu respeito por ambos. Mas, diante do que aconteceu e este diálogo que ele manteve com o presidente da JBS, Joesley Batista, eu fiquei pensando: puxa, afinal de contas o presidente Michel Temer parece ter tido conhecimento das ações de Joesley Batista, ele próprio divulgou, a partir do acordo de delação premiada que fez, onde ele relata que muitas pessoas dentro do governo e do Parlamento receberam recursos para ajudar a finalidade dos objetivos de incremento da JBS. Então, eu fiquei pensando, diante do diálogo que ele teve no Palácio do Jaburu, às 10 e meia da noite, recebendo-o num momento bastante difícil para o Joesley Batista, mas dado o diálogo que ele manteve, eu fiquei pensando: puxa vida, afinal de contas, Joesley Batista foi presidente, era o presidente da JBS, agora acho que se afastou, por muitos anos. E presidente da holding J&F de 2012 até 2016, até ser designado ministro da Fazenda e ex-presidente do Banco Central do governo Lula, por oito anos, foi o ministro Henrique Meirelles. Então, “será que, senhor Michel Temer, alguma vez o senhor conversou com o ministro Henrique Meirelles sobre os assuntos que o senhor Joesley Batista conversou com o senhor? Será que Henrique Meirelles tinha conhecimento dessa prática”? Essa é a pergunta que eu faria. Outro dia, o Rodolfo Gamberini levantou esse aspecto e eu fiquei pensando nisso.

Aquela fita precisava de perícia? O senhor conseguiu ouvi-la? Os trechos que comprometem Temer não estão bem nítidos?

Ouvi com dificuldade. Não é perfeita.     

Como aquela do Delcídio também era imperfeita mas provocou sua prisão...

Tem alguns momentos que fica inaudível. Mas parece uma conversa corrida e não propriamente editada. E o que está lá corresponde às vozes de Michel Temer e Joesley Batista. Podem fazer a perícia, tudo bem, mas o que está lá, está lá.

O senhor acha o que? Como vai terminar isso aí? As manifestações populares estão crescendo...

Estão crescendo...

O senhor vê o que? Para onde estamos indo?

Se eu tivesse a oportunidade de ter um diálogo respeitoso, construtivo com o presidente Michel Temer, a minha recomendação diante dessa dificuldade de voltar a ter um apoio popular significativo, ainda esta semana foi noticiado que dentro os chefes de estado o seu grau de popularidade é o mais baixo e os acontecimentos têm sido de tal ordem que está piorando a situação dele, então, eu diria a ele “olha, presidente Michel Temer: para contribuir, para efetivamente unificar, harmonizar e haver a pacificação da nação brasileira, neste momento em que tem havido tantas declarações de disputas, às vezes com ofensas, eu fico pensando que, quem sabe, pudéssemos aqui pensar”... Quem sou eu pra julgar o próprio presidente Michel Temer, mas “o perdão e a tolerância como caminhos para a paz e harmonia de cada um de nós e de todo mundo”, acho que nesse espírito do Papa Francisco eu recomendaria a ele “olha, acho que seria bom o senhor renunciar e ajudar o Congresso Nacional a realizar, então o senhor apoiaria uma emenda constitucional para que ainda este ano venhamos a realizar eleições livres e diretas para a presidência da República”.

Agora, ele está agindo em sentido oposto...quer ganhar tempo, prorrogar julgamento no TSE...

Ele está afirmando, ainda há poucos dias que de maneira alguma ele vai renunciar, você me perguntou a minha...

O que o senhor diria...

Eu diria pra ele...

Ninguém renuncia antes da hora! As pessoas só renunciam no dia da renúncia...ninguém renuncia na véspera. E só para lembrar um caso que eu sempre lembro: o Nixon ficou um ano e meio resistindo no Watergate. E quando renunciou ele tinha feito um acordo político de anistia prévia. Nenhum crime. Foi anistiado de tudo. Ficha limpa total. Essa é uma questão que pode ser colocada, na medida em que os indícios contra o Michel Temer podem fazer com que sua saída seja extremamente complexa. O PSDB está apoiando Temer mesmo diante dessas evidências de corrupção explícita. O que acha da posição do PSDB e de Fernando Henrique?

Olha, pensando no Fernando Henrique Cardoso que é uma das lideranças tais como Lula que podem agora estar dialogando para contribuir para justamente haver a pacificação do país e lembrando situações de renúncia de grandes estadistas, você, Paulo, lembrou do Nixon, mas há o caso de uma renúncia de uma pessoa que ao renunciar foi extremamente respeitada. Diante da hora e dos fatos.

Quem?

Willy Brandt. Ele era o chanceler da República Federal da Alemanha e ele foi um dos que cresceu muito quando fez a defesa de Berlim, respeitado pelo povo alemão, mas eis que um dia se descobre que um dos seus principais auxiliares era um espião da Alemanha Oriental. Ao saber disso, Willy Brandt disse: olha, eu não sabia que ele era o espião da Alemanha Oriental; entretanto, como eu o designei, eu avalio que eu tenho responsabilidade e por causa disso, então, eu renuncio. O que aconteceu? Ele renunciou. Deixou o cargo de chanceler da Alemanha, mas continuou sendo respeitado em toda a Europa e nos países do mundo como um grande estadista. Então, ainda outro dia, a Editora Saraiva me pediu que eu escrevesse um livro sobre os meus 24 anos no Senado. E há algumas passagens e discursos meus – veja que eu era um senador da oposição no tempo de Fernando Collor de Mello, Itamar Franco, Fernando Henrique Cardoso – e eu que me considero amigo do Fernando Henrique Cardoso, muitas vezes dialoguei com ele lá no Cebrap do qual ele era o presidente e em 1978 fui o candidato a deputado estadual que mais percorreu o estado apoiando ele como candidato a senador pelo PMDB...

O senhor e Lula, né?

Eu e Lula. Tem foto nossa lá apoiando Fernando Henrique Cardoso no seu comitê. E sempre tive um diálogo com ele. Vou contar uma passagem mais pessoal. Certo dia, o senador Severo Gomes... era 1976... convidou a mim, a Marta e meus filhos para irmos a Picinguaba, no litoral Norte, ali em Ubatuba, para almoçarmos ali uma peixada na casa que ele havia reformado de um pescador. Severo Gomes tinha conhecido Picinguaba porque tinha uma casa na Praia Grande e de barco ia às vezes a Parati e tal, conheceu Picinguaba, que é um lugar muito bonito, simpático, uma vila de pescadores e ele resolveu comprar e reformar a casa do pescador e Fernando Henrique fez o mesmo. Comprou uma casa e a reformou num lugar simpaticíssimo. E então, no almoço, estava Fernando Henrique, seu filho Paulo Henrique, a dona Ruth e tal, foi tão agradável e eu gostei tanto do lugar que Fernando Henrique ia em seguida para a Sorbonne, ficar seis meses fazendo palestras e eu perguntei a ele “você não quer alugar a sua casa para mim durante esse tempo que você ficar na Europa”? “Não. Basta você tomar conta da casa, pagar a caseira, você pode ficar à vontade”. Tô contando isso pra dizer do grau de amizade e respeito que eu tinha por ele. Mas eu era senador único do PT no período 1995-98 e daí começaram a aparecer aquelas denúncias, surgiu um telefonema gravado entre Luis Carlos Mendonça de Barros e André Lara Resende relativamente a possivelmente ajudar o Grupo Opportunity a comprar a Telemar e tal e então eu relembrei esse episódio do Willy Brandt. Mas Fernando Henrique continuou e ainda foi reeleito e tudo.

E a posição dele, de continuar apoiando Temer depois de tudo isso, é correta?

Eu acho que eles estão pensando muito qual a melhor solução entre eles. Ainda domingo último eu assisti à entrevista no “Canal Livre”, da TV Bandeirantes, Fernando Henrique Cardoso foi tão atencioso ao relembrar o momento em que ele votou a favor do meu projeto de garantia de renda mínima e também lembrou que em 1996 eu pedi a ele uma audiência para conversar com o professor Felipe Vampares, a maior autoridade sobre a renda básica incondicional e estava o Paulo Renato Souza e sua equipe, Nelson Marchezan, um dos que tinham apresentado projetos para ajudar municípios que adotassem atividades de educação e ele nos recebeu por 50 minutos, Felipe Vampares disse “olha, o propósito maior será um dia chegarmos à renda básica incondicional, mas iniciarmos a garantia de uma renda para as famílias carentes, desde que as suas crianças estejam indo à escola, constitui um investimento em capital humano. Portanto, é um passo positivo”. E Fernando Henrique, então, deu o sinal verde para que fosse aprovado aquele projeto de lei de Nelson Marchezan apensados ao qual três da Câmara e três do Senado, foram todos apensados e surgiu em 1997 e ele sancionou a lei 9533 pela qual a União financiaria 50% os municípios que adotassem o programa de renda mínima associado à educação e vieram a ser chamados bolsa-escola e que...

Uma hora chegaria ao bolsa-família...

Exatamente. Ele recordou estas passagens, o que me fez telefonar pra ele...

Agora...

... ele me ligou de volta e combinamos um encontro proximamente.

O senhor acha que isso foi uma cantada para amolecer o PT, o partido que está fazendo mais força pelas diretas, possivelmente, porque priorizam, querem de qualquer maneira aprovar as reformas, que eles sabem que não têm base popular, querem indiretas de todas as maneiras, o senhor acha que ele está querendo dar uma amolecida, usar o senhor, seu prestígio...?

Sinceramente, eu percebo o Fernando Henrique  Cardoso como uma das pessoas que mais esteve junto conosco, do PT, na campanha pelas eleições diretas.

É verdade, é verdade...

Permita recordar o primeiro comício das diretas, convocado sobretudo pelo PT em novembro de 1983 lá na Praça Charles Miller, defronte o Pacaembu. Compareceram umas 30 mil pessoas, foi um sucesso para a época e estava se pensando, me lembro bem, “puxa, será que o PMDB vai ser bem recebido”? Porque a maioria ali era PT, PCdoB e tal e o governador André Franco Montoro foi ao Jockey Clube que era o Grande Prêmio São Paulo. E quem falou pelo PMDB foi o então senador Fernando Henrique Cardoso, que havia sido eleito suplente, Montoro tornou-se governador e ele assumiu. E aí o pessoal estava meio preocupado, “será que ele vai ser bem recebido”? e eis que, como naquele noite havia falecido o senador Teotônio Vilela, muito querido e respeitado por todos, batalhou pela anistia, foi solidário com Fernando Henrique Cardoso nas greves do ABC, era um dos grandes batalhadores pela redemocratização do país e então, Fernando Henrique Cardoso, primeiro orador, fez uma homenagem a Teotônio Vilela, abriu o comício das diretas e, claro, todos fizeram um minuto de silêncio e aplaudimos e daí ele foi bem recebido. Claro que Teotônio Vilela naquele momento era a pessoa muito querida de todos nós. Então, só pra lembrar que eu acredito que Fernando Henrique Cardoso sabe muito bem do desejo da população por eleições diretas.

Ele sempre soube muito bem, quase tudo; o problema é se ele faz o que ele sabe! Ele sabe tudo! Mas muitas vezes ele fala uma coisa e faz outra!

Se ele perguntar para mim eu vou dizer que eleições livres e diretas é a melhor solução.

O PSDB é que está segurando Temer. A Globo já abandonou, a OAB, a CNBB, todos querem a renúncia dele, só o PSDB que não.

Mas o Fernando Henrique, sabe...?

Eles estão corretos?

Mas o Fernando Henrique sabe que é muito sensível ao apelo popular...

Ele não está querendo amolecer o senhor, não?

Fui eu que disse a ele que gostaria de bater um papo com ele, porque ele me telefonou de volta e eu agradeci a menção que ele fez a mim no “Canal Livre”. Mas daí eu que sugeri: eu gostaria até de conversar com você como é que nos mais diversos países do mundo, a Finlândia, Macau, Holanda, muitas cidades querem experimentar a renda básica da cidadania, Quênia, Namíbia estão iniciando experiências e então eu gostaria até de transmitir a ele o que é a evolução da renda básica da cidadania no mundo. Até porque ele falou com muita simpatia pelo tema e sobretudo assinalou que automação que está havendo, muito rápida, em muitos países do mundo, o conceito de garantia de renda ganha mais e mais importância.

Como é que está o seu embate com o PSDB aqui de São Paulo? Vamos pegar um caso concreto: que é a Cracolândia. Na mesma semana em teve esse grande protesto em Brasília teve o ataque policial à Cracolândia e teve uma reação também! Teve um protesto a esse ataque! Uma reação popular! Como é que o senhor está vendo isso?

No sábado (20/5) acompanhei a Virada Cultural na noite de sábado, queria ver como é que estava, vim aqui à Praça da República, depois andei pela 24 de Maio onde tinha o hip-hop, depois fui à Avenida São João, ao Anhangabaú, depois fui ao Largo São Bento, onde também tinha o hip-hop e depois voltei a pé. Naquilo tudo eu vi que tinha não tanta gente quanto nas Viradas ao tempo de Fernando Haddad, mas tinha um certo movimento, mas acontece que fui dormir às 2 da manhã. Apaguei a luz. Eis que 6 e 54 da manhã a Daniela, uma daquelas moças que trabalham nas organizações de apoio aos usuários de drogas me telefona “vereador, por favor, venha correndo aqui porque tropas, centenas de policiais estão avançando sobre a Alameda Dino Bueno para retirar as pessoas do fluxo”. Às 7 e 15, 7 e 20 eu já estava lá e fiquei até quase às 10 e meia da manhã, acompanhando os mais diversos episódios. Eu achei que foi uma forma um tanto drástica, violenta, ainda que, eu encontrei o comandante da operação, comandante Alberto, que me disse “olha, nós recebemos da Justiça 62 mandados de busca e apreensão, 83 de busca, mais 44 hotéis e pousadas para averiguar e fizemos oito meses de escuta telefônica, então está havendo a busca dessas pessoas” que, em princípio, seriam traficantes. Mas, com isso foram derrubando todas aquelas tendas e espalhando cobertores e vestimentas e documentos e tudo. Quando eu cheguei já o pessoal do fluxo tinha se espalhado. Tanto é que no caminho eu fui vendo muitas daquelas pessoas que depois acabaram indo para a Praça Princesa Isabel e estão lá realizando atividades...

... reconstruindo a Cracolândia!

Mas eu lá vi cenas muito difíceis. Por exemplo, um rapaz chamado Vinicius, um engraxate que um dia engraxou meus sapatos no dia do meu aniversário na Praça Dom José Gaspar até lembrou que ao final da graxa que ele fez ele acendeu fogo no sapato, eu nunca tinha visto engraxate que acendia fogo no sapato, daí eu lembrei dele e ele falou “olha, eu moro no hotel lá, mas não estou conseguindo entrar, eu estou com receio do que é que foi feito com os meus objetos” e daí eu peguei na mão dele, fui com ele até o quarto dele, um hotel com 33 quartos já no fim da Alameda Dino Bueno, e vi que felizmente o quarto dele ele abriu com a chave, não havia sido danificado como outros. Um aparelho de televisão, um micro-ondas, um radinho e o seu celular estavam lá e então ele ficou mais sossegado e falou “o que é que eu vou fazer se me tirarem daqui, se destruírem esse hotel, porque eu pago o meu quarto aqui, além de ser engraxate durante o dia, de noite eu faço a limpeza do hotel e com isso pago minha hospedagem”? Eu vi que alguns quartos estavam com a porta arrebentada porque eles foram quebrando com martelos e machadinhas...

Foi um ataque selvagem?

Foi. Foi uma coisa que eu acho, assim, incompreensível. Depois, eu vi uma moça que estava um tanto alcoolizada e tinha tido uma convulsão, o próprio comandante Alberto tinha chamado o SAMU, me disse “olha, só que o SAMU não está vindo”, eu liguei pro SAMU, reforcei o pedido, chegou em dez minutos e essa moça, de 25 anos, não quis sair do lugar “não, eu não vou sair daqui de maneira alguma” então o SAMU pediu para alguém que conhecia assinasse que ela não quis ir no posto de saúde ou no hospital e daí eu estava nesse episódio e comecei a ouvir tiros. Fui ao último quarteirão da Dino Bueno, tem a Helvetia, depois a Glete, e no quarteirão seguinte, uns 15 ou 20 daqueles que estavam no fluxo começaram a caminhar em direção à barreira de policiais, uns oito, pelo menos, que, com rifles, começaram a atirar com balas de borracha, algumas pessoas ficaram feridas, neste momento eles estavam apontando as balas de borracha para o chão e daí o pessoal saiu correndo. Eu perguntei pra eles “o que vocês estão querendo”? “Ah, os nossos pertences e documentos estão lá na confusão toda”... Então, eu perguntei aos policiais se eles poderiam ir, um a um, não todos juntos. “Pode. O que não pode é que venham todos juntos”. Eu peguei na mão de um e trouxe até lá para pegar as suas coisas, depois mais um, depois eu falei “bom, agora vocês combinam com os policiais, um de cada vez”. Daí aconteceu mais um episódio a respeito do qual eu encontrei o secretário Julio Semeghini, porque estavam querendo que um lugar onde havia uma pensão com umas 30 e tantas pessoas, onde a proprietária falou “olha, eu pago 4 mil de aluguel e as pessoas pagam pra mim” isso até foi no dia seguinte, após o episódio o João Dória foi lá e quis começar a destruição das casas e dos hotéis lá e daí ordenou que um trator derrubasse um muro. E aconteceu que...

Foi ele próprio?

Ele falou: pode derrubar. E aí três pessoas ficaram feridas, um casal (ela, grávida) e outro homem. Ao perceberem que as pessoas foram feridas houve assim como que uma revolta da população que começou a hostilizar o prefeito, que precisou sair de lá. Eu acho que houve muita arbitrariedade e, olha, eu fui Secretário de Direitos Humanos na gestão de Fernando Haddad de 2 de fevereiro de 2011, logo depois de terem terminado meus 24 anos de mandato como senador até março de 2016. Acompanhei de perto o Programa De Braços Abertos que conferia a cada um dos 500 participantes o valor de 15 reais por dia, um quarto de hotel e três refeições – café da manhã, almoço e jantar – e em retribuição o participante tinha que realizar 30 horas semanais de estudo e trabalho. Uns 10 meses depois de iniciado o Programa, Fernando Haddad convidou a todos os 500 para estar lá no Paço das Artes, que tem um auditório grande e ouviu os depoimentos de um número significativo deles. Era um programa reconhecido pela ONU, no Canadá, nos Estados Unidos, em diversos lugares. Pois bem. Me lembro bem do depoimento de um deles, que falou: “eu estava consumindo 30 ou 40 pedras de crack por dia; tinha me isolado da família, deixado de estudar e não estava nem conseguindo trabalhar; ingressei no programa; hoje, dez meses depois estou consumindo só duas ou três pedras por dia, voltei a estudar, voltei a ter contato com a família, estou completando o ensino médio e depois vou fazer o vestibular”. Essa é a política chamada de “redução de danos”. Havia cerca de 1500 pessoas perambulando pela Estação Júlio Prestes quando começou o governo Fernando Haddad; quando acabou o governo Fernando Haddad, o fluxo, que se mudou para a Alameda Dino Bueno, onde foi proibido que houvesse tendas e cabanas onde debaixo das tendas se fazia o tráfico de crack, isso não mais havia, mas tinha lá o fluxo e alguns fumando e tal, mas acontece que o fluxo tinha diminuído para cerca de 300 pessoas. De janeiro deste ano até maio já estava em cerca de 700 pessoas e as tendas e as cabanas voltaram àquele lugar. E o prefeito João Dória disse que ia começar o Programa...como é que se chama?

Renascer? Redenção?

Redenção! Só que, vocês, jornalistas, sabem quais são as normas do Programa Redenção? Eu, que sou vereador, não sei. Eu perguntei na terça-feira última para a líder Adriana Ramalho “você pode explicar quais são as regras do Redenção”? “O Programa Redenção vai ter assistência social”... mas não disse os termos. E até hoje não se sabe. Quando aconteceram, domingo, aquelas operações eu liguei pro celular do prefeito João Dória, porque às vezes eu ligo, em emergências e ele me retornou à noite, quando eu estava vendo o show dos Racionais no Centro Cultural do Grajaú. Eu falei “estou no meio do barulho”. Eu estava no palco. Depois eu liguei pra ele e falei “eu acho que houve abusos e violência e tudo e também um outro problema sério, uma senhora, mãe de oito filhos que mora na Alameda Dino Bueno disse que a filha dela foi presa e ela já estava há três dias sem saber onde estava”. Depois consegui saber que ela estava na penitenciária de Santana, ali na Ataliba Leonel, no quarto dia. Coisas desse tipo aconteceram.      

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