Temerária a situação do apito

É inadmissível que um árbitro de qualidade, por ser desse ou daquele Estado, seja preterido pela CBF no momento de ser indicado para ostentar o escudo da Fifa

Me perguntam por que não há renovação de árbitros no futebol brasileiro. Respondo: o principal motivo está na didática que é desenvolvida pelas federações estaduais há mais de uma década. Um exemplo específico de árbitros mal formados acontece na Federação Paranaense de Futebol, onde existem aproximadamente 320 árbitros inscritos, mas a FPF não consegue indicar há três anos um deles para o quadro de Asp/Fifa da CBF.

O último árbitro de ponta do futebol pentacampeão encerrou sua carreira há dois anos e desde então não surgiu nenhum com as características de Carlos Eugênio Simon. Simon, além de excelente árbitro, sabia transitar nos labirintos do futebol de maneira invejável, o que lhe proporcionou participar de três Mundiais consecutivos (2002, 2006 e 2010) e dirigir inúmeras partidas decisivas no futebol sul-americano.

Outro óbice para a renovação de apitos no nosso futebol é a política. Todo mundo apregoa a renovação no apito, mas, a partir do momento em que a mudança é anunciada, o discurso dos dirigentes e, sobretudo da imprensa, muda radicalmente. É necessário oxigenar a arbitragem e dar um basta no paternalismo vigente, principalmente na indicação dos nomes para compor a Relação Nacional de Árbitros de Futebol (Renaf).

É inadmissível que um árbitro de qualidade, por ser desse ou daquele Estado, seja preterido pela CBF no momento de ser indicado para ostentar o escudo da  Fifa. Se as federações estaduais fossem dirigidas por pessoas comprometidas com o futebol e a arbitragem, o descobrimento de futuros árbitros ocorreria no próprio campeonato que elas patrocinam.

Se houvesse comprometimento das comissões de árbitros dessas federações, as Escolas de Formação de Arbitragem seriam compostas por ex-árbitros com notório conhecimento sobre as Regras do Jogo de Futebol, e os treinamentos aos novos talentos deveria acontecer de forma constante.

Infelizmente, não é o que acontece. Em que pese os investimentos realizados pela CBF nos últimos anos no aprimoramento da condição física, teórica, tática, psicológica e uma seqüência de cursos na Granja Comary, entre outras ações, os resultados não atingiram o esperado.

Diante do exposto, entendo que a própria CBF deveria criar uma entidade nacional de formação de árbitros, mais atraente do que a Escola Brasileira de Futebol (EBF), já que os investimentos realizados até o presente momento na formação de futuros talentos na arbitragem nacional não conseguiu produzir árbitros de excelência.

O Brasil está precisando muito mais de uma escola: o Instituto dos Árbitros de Futebol, com ramificações em todas as federações estaduais. Fora disso, o tempo passará e o nível do apito brasileiro ficará onde está ou ainda mais abaixo.

PS: O ranking que versa sobre os melhores árbitros de futebol do planeta, divulgado pela Federação Internacional de História e Estatística, não traz nenhum apito do nosso futebol.

Valdir Bicudo é investigador da Polícia Civil em Curitiba/PR e ex-árbitro de futebol

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