HOME > Geral

Tempos de escárnio e escarradeiras

Assim como o vexaminoso "metrô" de superfície que está em construção há mais de 12 anos [e já é ruína] em Salvador, a luta para devolver ao aeroporto Deputado Luis Eduardo Magalhães o seu nome histórico e original (2 de Julho) já se arrasta há anos

Peço licença aos demais brasileiros para tratar de um assunto que diz respeito mais aos soteropolitanos em particular e aos baianos em geral: a usurpação do nome e a consequente descaracterização de toda a simbologia que envolvia o aeroporto internacional da mais bela cidade do estado da Bahia.

Originalmente, chamava-se Aeroporto de Santo Amaro do Ipitanga. Em 1955, o poder público mudou seu nome para 2 de Julho – como o próprio nome já indica e exalta, em homenagem à data-símbolo para os baianos: o dia da sua independência. Em 1988, passou a se chamar Aeroporto Internacional Deputado Luis Eduardo Magalhães  – para júbilo e consolo de uma família enlutada e desalento de todos os baianos. Teriam os baianos simbolicamente perdido, naquele ano de 1988, a sua independência?

A observação cuidadosa do histórico dos três nomes com que foi batizado o aeroporto nos sugere uma lição: que houve um tempo, em nosso país, em que se homenageava e reverenciava os grandes vultos, as datas cívicas e a história do seu povo. E que vivemos em outros tempos, hodiernos, de homens medíocres, nos quais se homenageia e reverencia os poderosos de ocasião e seus descendentes. Isso por si já diz muito da alma de uma nação – e do seu povo. Essa é uma lição por demais emblemática para ser negligenciada. Temos muito a aprender com ela.

Então, percebe-se agora, esse assunto não interessa só aos baianos – como dito aqui inicialmente. Esse episódio diz respeito a todos os brasileiros. Por quê?

Primeiro, porque é preciso acabar nesse país, de uma vez por todas, com essa desfaçatez e despudor dos chamados "poderosos" se apropriarem dos espaços e aparelhos públicos, sem constrangimento algum, como se lhes fosse um direito inato. Quem lhes atribuiu tamanho poder? Quem lhes deu autorização ou procuração para tanto? O Brasil já não é mais um império de "sinhozinhos", uma República de Bananas.

Foi-se esse tempo em que os ricos mandavam e subjugavam os mais pobres ao seu bel prazer. Tempos de escárnio e escarradeiras. Tempos de escravidão que perduraram, silentes, até os dias "em que  preto não entrava no Bahiano, nem pela porta da cozinha", como já nos ensinava a canção Tradição, na voz de Gilberto Gil – referindo-se a um tradicional, e quase centenário,  clube de Salvador, hoje já um tanto decadente, outrora frequentado pelos bem nascidos da Bahia. Tempos e modos que ainda perduram?

Segundo, porque é descabido e vergonhoso anacronismo que nesse país, em plena democracia e em pleno século XXI, ainda existam oligarquias. Sim, pois são os patriarcas dessas oligarquias, seus filhos e netos, aqueles que ainda batizam com seus nomes os bens públicos – como se estivessem marcando a ferro o gado de suas fazendas. Sob o silêncio e mansidão bovinos dos covardes e/ou incautos. Pois, nunca é demais lembrar, na democracia é a população votante, os chamados cidadãos, que escolhem "livremente" (ou nem tanto) os seus governantes. O povo elege os seus próprios senhores e seus capatazes.

É uma ignomínia que ainda subsista na nossa sociedade concentração de renda tão aviltante, notadamente em cidades como Salvador e São Luis do Maranhão – mas isso, desgraçadamente, ainda se dá por todo o país.

A concentração da riqueza e da renda nas mãos de poucas famílias é um dos fatores que, a princípio, explicaria a subsistência e mando desses redivivos coronéis até os dias que correm – alguns hoje chamados de "cordatos" em inúmeras, ainda remanescentes, "sesmarias" do Nordeste, do Sudeste e do Norte. Se você já passou pelo constrangimento de tentar explicar/justificar essa vergonha e iniquidade a algum amigo estrangeiro, sabe do que estou falando. E vou um pouco além, explicando melhor: as oligarquias existem não porque os oligarcas sejam fortes, mas porque o povo é fraco, submisso, por vezes ignorante. Essa é a essência da questão. É por aí que as coisas precisam mudar.

Assim como o vexaminoso "metrô" de superfície que está em construção há mais de 12 anos [e já é ruína], essa questão da luta para devolver ao aeroporto o seu nome histórico, original já se arrasta há anos. Já tivemos na Bahia diversos movimentos em defesa dessa causa; existem blogs, abaixo assinados e manifestos diversos espalhados por aí; inúmeras manifestações populares no carnaval – como, por exemplo, no irreverente e politizado bloco Mudança do Garcia.

Por quê? Por que então não se resolve essa questão?

Por que será que os homens públicos e os cidadãos de Salvador (e da Bahia), durante tantos anos subjugados pelo mandonismo dos coronéis, não conseguem fazer com que sejam concluídas as obras do metrô e devolver ao seu aeroporto seu glorioso nome?

Essa ultrapassada cultura dos coronéis, espera-se, já faz parte do passado, passou. Dessa cultura da opressão teria restado apenas uma má e difusa lembrança? Não. Restou o vergonhoso estado de  miséria no qual vive a maioria da população, decorrente da concentração da renda nas mãos de poucas famílias.

Não bastaram para nos ensinar dos nossos erros, os registros históricos e literários desse passado. Esse triste passado, que insiste em assombrar o presente, foi muito bem representado e apresentado a todo o país, e ao o mundo, através da obra de Jorge Amado, um dos mais notáveis e brilhantes filhos da boa terra – e um grande humanista. Lembro também a obra "Coronelismo, enxada e voto", de Victor Nunes Leal, que analisa os caudilhos rurais. Nesse artigo dei mais ênfase aos chamados "caudilhos urbanos".

Mas, ao que parece, ainda podem ter restado cicatrizes morais e atavismos recalcitrantes. Pois o povo de Salvador a pouco devolveu, resignado, a chibata de volta às mãos de um remanescente dessas oligarquias.

Com a palavra os homens públicos da Bahia. Com a palavra os seus intelectuais, as suas lideranças políticas e religiosas. Com a palavra o pobre povo da Bahia. Por que tanta resignação e omissão?

O meu aeroporto ainda se chama 2 de Julho! E você, meu conterrâneo? Você também gostaria que o seu, o nosso aeroporto voltasse a se chamar, para o nosso orgulho Aeroporto Internacional 2 de Julho?

Já não passou da hora de termos o nosso aeroporto e a nossa altivez de volta?