Testada em ratos, vacina é esperança contra câncer de mama
Cientistas americanos desenvolveram um protocolo testado em ratos, que permitiu reduzir em 80% o volume de tumores mamários; os pesquisadores planejam testar, em breve, a vacina em pacientes; "Combinada com a detecção precoce, esta abordagem poderá transformar o tratamento desta doença", diz o professor Geert-Jan Boons, um dos pesquisadores; o câncer de mama é o tumor mais comum entre as mulheres e atinge uma em cada oito no decorrer de suas vidas
Por Martine Perez - em 31/01/2013
O câncer de mama atingirá uma em cada oito mulheres no decorrer de suas vidas . Trata-se do câncer feminino mais comum. A quantidade de casos está crescendo sob a influência de vários fatores, especialmente a alimentação, o sedentarismo e o envelhecimento da população. Será que um dia haverá a possibilidade de desenvolver uma vacina que previna esta doença que está surgindo com tanta frequência? Ainda estamos longe disso. Mas cientistas americanos do Centro de controle do câncer da Mayo Clinic do Arizona estão trabalhando numa vacina terapêutica que estimularia o organismo a produzir anticorpos contra as células cancerosas, e somente elas. Eles desenvolveram um protocolo testado em ratos, o que permitiu reduzir em 80% o volume de tumores mamários. Suas descobertas muito interessantes, publicadas toda segunda-feira na revista da Academia Americana de Ciências (PNAS), abrem uma nova abordagem promissora, mas que ainda precisa ser testada em seres humanos.
Durante décadas, os pesquisadores se perguntaram como fazer para que o sistema imunitário reconheça as diferenças entre células normais e cancerosas, de modo a encorajá-lo por uma vacina, por exemplo, a destruir as células cancerosas e somente elas. Até hoje, o organismo não é capaz de distinguir os tecidos normais do câncer e, portanto, não manifesta nenhuma rejeição espontânea em relação a este último. No entanto, recentemente, pesquisadores descobriram que quando as células se tornam cancerosas, os hidratos de carbono na superfície de certas proteínas celulares apresentam diferenças em relação aos das células saudáveis. Estas são diferenças microscópicas que estão na base da vacina contra o câncer de mama, desenvolvida por pesquisadores da Mayo Clinic.
Eles examinaram ratos que desenvolvem facilmente cânceres mamários e que sobre-expressam uma proteína MUC1 na superfície de suas células (como é o caso de muitos cânceres de mama da mulher). Esta proteína está associada a um grupo de hidratos de carbono específicos, distintos daqueles das células sadias.
Os testes continuam
A partir daí, os pesquisadores elaboraram uma vacina relativamente simples. Totalmente sintética, ela contém três componentes: um fator de estimulação do sistema imunitário (usado como adjuvante), um fator capaz de dopar especificamente a produção de células T (destruidoras do câncer) e um peptídeo que tenha como alvo a reação imunitária contra as células carregando a proteína MUC1 associada aos hidratos de carbono específicos do câncer de mama.
"Esta vacina injetada em ratos com um tumor mamário, resultou em uma reação imune muito importante, diz um dos coautores deste trabalho, Geert-Jan Boons, que foi capaz de ativar três componentes do sistema imunológico para reduzir em 80% o tamanho do tumor."
"É a primeira vez que uma vacina é desenvolvida para treinar o sistema imunológico a reconhecer e matar células cancerosas através de estruturas de hidratos de carbono sobre a proteína MUC1", avalia Sarah Gendler, coautora desta pesquisa.
De acordo com o Instituto americano do câncer, esta proteína é uma das mais importantes para o desenvolvimento da vacina anticâncer. Ela pode ser encontrada em células do câncer de mama, mas também em outros locais, pâncreas, ovários… Sendo assim, o MUC1 seria superexpresso em 90% das pacientes atingidas do câncer de mama dito «triplo negativo» e que resistem ao tratamento hormonal e outros medicamentos.
Os pesquisadores continuam testando esta vacina em vários modelos experimentais. Em curto prazo, eles planejam testá-la em pacientes. «Com a ideia, diz o professor Boons, que, estando combinada com a detecção precoce, esta abordagem poderá transformar o tratamento desta doença.»
Por enquanto, esta estratégia é sobre pesquisa pura. Outros protocolos tendo o objetivo de desenvolver uma vacina terapêutica contra o câncer falharam. O tempo dirá o resto.