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Transplante de órgão visível. O desafio da reconstrução da identidade

Desde o primeiro transplante de rim oriundo de um doador vivo em 1952 e o primeiro transplante de coração em 1967, inúmeras questões éticas foram levantadas sobre o transplante, voltadas mais para o doador de órgão do que para o recebedor.

Transplante de órgão visível. O desafio da reconstrução da identidade

 

 

Por  Edgardo Carosella* et Thomas Pradeu**. Le Figaro

  

As respostas variam conforme os países e as culturas, da venda de órgão à doação, incluindo a proibição absoluta do transplante. Na França e no Reino Unido, uma pessoa falecida é considerada como um doador em potencial, salvo recusa explícita mencionada pela família. Abordar a família mostra que os transplantes envolvem questões culturais, incluindo o respeito pela individualidade e pelo parentesco: a identidade do indivíduo vai além dele próprio e inclui a família, quando se trata de tomar uma decisão ética e médica da doação de órgão. Como até agora o transplante era vital, questões éticas relativas ao recebedor eram levantadas com menos acuidade, salvo quando a religião ou a cultura proibiam de se receber um órgão.

Além disso, tratava-se de órgãos internos, não aparentes, que poderiam apenas parcialmente dizer respeito ao recebedor e às pessoas à sua volta. A identidade do recebedor não era fortemente questionada, mesmo que às vezes, o paciente não podia deixar de imaginar a vida e o caráter do doador.

Uma mudança importante ocorreu com o transplante de órgãos aparentes e não estritamente vitais, principalmente a mão (França 1998) e o rosto (França 2005). Novas questões éticas têm surgido a respeito do doador e do recebedor. No que diz respeito ao doador, o foco deve estar na família, que deve enfrentar a continuidade de um ente querido, por exemplo, quando a mão (ou, de forma mais significativa, o rosto) de um parente falecido, retoma vida em outra pessoa. Esta questão é particularmente relevante, por causa do número muito limitado de doações de órgãos aparentes e da ampla divulgação na mídia, o anonimato do doador e do recebedor dificilmente será preservado.

Uma ruptura profunda se instala

Os transplantes, de órgãos aparentes, levantam ainda mais perguntas sobre o recebedor. Os órgãos aparentes são a expressão direta da identidade do indivíduo e estão muito envolvidos nas relações com terceiros e na imagem que as pessoas têm do indivíduo. As mãos são um meio muito importante de comunicação e mantêm em si a história e a personalidade do indivíduo, e o rosto expressa ainda mais a identidade da pessoa. Para um recebedor, se encontrar diariamente com um transplante aparente pode ser difícil, pois isso implica em aceitar o outro e admitir uma modificação da expressão da sua própria personalidade. O transplante deve não somente contribuir para a função orgânica, mas também para a expressão desta função, e, portanto, para a imagem que o indivíduo tem de si mesmo, a imagem que os outros têm dele, e, especialmente, a imagem que ele acredita que os outros têm dele (imagem social «espelhamento»).

Com um transplante de órgão aparente, uma ruptura profunda se instala, pois a autoimagem é alterada radicalmente. Talvez se dê uma funcionalidade ao órgão transplantado, mas  o recebedor deve reconstruir a expressão deste novo órgão, que é ao mesmo tempo ele mesmo e diferente dele. O transplante parece ser necessário em alguns casos, especialmente quando um estado de depressão coloca a vida do paciente em risco.

A avaliação deve ter em conta, tanto as condições de vida do paciente quanto suas possibilidades de reconstruir uma identidade. Qualquer transplante de órgão aparente leva a uma ruptura de identidade, cujas consequências podem ser muito prejudiciais, caso o recebedor não consiga se reconstruir. Daqui em diante, pode se dizer que um transplante é bem sucedido, caso ele assegure não apenas a função, mas a reconstrução de identidade do recebedor. Para isso, seria útil e desejável que grupos de acompanhamento, compostos por psicólogos, mas também por filósofos e sociólogos sejam implementados.

Este trabalho de reconstrução da identidade, apesar de difícil, é frutífero, pois a característica da identidade é justamente evoluir continuamente. Um transplante de órgão aparente pode ser acima de tudo, expressar plenamente sua identidade, ao tomar justamente consciência do fato que ser você mesmo é estar em mudança constante e se aceitar como alguém que muda.

Concluindo, é importante que os debates éticos sejam abertos hoje para as perguntas específicas relativas à identidade do doador e a reconstrução de identidade do recebedor. Os transplantes de órgãos aparentes podem ser considerados como bem sucedidos quando garantem tanto uma boa funcionalidade quanto uma reconstituição da identidade, com base na renovação e na aceitação de um novo «eu».

 

* Serviço de pesquisas em hemato-imunologia, , Commissariado da energia atômica (CEA-DRM-DSV), hospital Saint-Louis, Paris.

** Instituto de história e de filosofia das ciências e das técnicas, departamento de filosofia, Paris I-Sorbonne.