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Uma formiga por mais de R$ 1 mil: Tráfico transforma insetos em alvo de mercado ilegal milionário

O transporte ilegal chama atenção pela simplicidade

Uma formiga por mais de R$ 1 mil: Tráfico transforma insetos em alvo de mercado ilegal milionário (Foto: Sandeep Handa/Pixabay)

247 - O tráfico de vida selvagem ganhou um novo e inesperado protagonista: as formigas. No Quênia, o comércio ilegal desses insetos — especialmente de rainhas — tem crescido rapidamente, impulsionado por colecionadores internacionais dispostos a pagar altos valores. As informações são de reportagem da BBC.

O fenômeno tem como epicentro a região de Vale do Rift, onde cidades como Gilgil se tornaram pontos estratégicos para a coleta clandestina. Durante o período de chuvas, quando ocorre o voo nupcial das formigas, contrabandistas aproveitam para capturar rainhas fecundadas — consideradas as mais valiosas no mercado ilegal.

Entre as espécies mais procuradas está a Messor cephalotes, conhecida por seu comportamento de coleta de sementes e pela capacidade de formar grandes colônias. Cada rainha pode custar até £170 (cerca de R$ 1.185) e é capaz de dar origem a milhares de indivíduos ao longo de décadas.

O transporte ilegal chama atenção pela simplicidade. Segundo relatos, os insetos são acondicionados em tubos de ensaio ou seringas com algodão úmido, o que permite sua sobrevivência por semanas e dificulta a detecção em inspeções aeroportuárias. “No começo, eu nem sabia que era ilegal”, disse à BBC um homem que atuou como intermediário no esquema.

Casos recentes evidenciam a dimensão do problema. No ano passado, cerca de 5 mil rainhas foram encontradas em uma pousada na cidade de Naivasha, prontas para envio à Europa e à Ásia. Mais recentemente, um cidadão chinês foi detido no Aeroporto Internacional Jomo Kenyatta com outras 2 mil formigas embaladas para transporte.

O crescimento desse mercado surpreendeu especialistas. “Até eu, como entomólogo, fiquei surpreso com a extensão do aparente comércio”, afirmou o biólogo Dino Martins. Ele explica que as formigas exercem papel essencial no equilíbrio ambiental, atuando na dispersão de sementes e na manutenção dos ecossistemas.

Pesquisadores também alertam para os riscos da disseminação dessas espécies fora de seus habitats naturais. Segundo Zhengyang Wang, o comércio internacional pode “causar estragos” ao introduzir espécies invasoras em novos ambientes. “Se o volume de comércio de formigas invasoras continuar crescendo, é apenas uma questão de tempo até que algumas escapem de seus formicários e se estabeleçam na natureza”, afirmou.Além do impacto ambiental, o tráfico também levanta preocupações sobre a perda de biodiversidade no próprio Quênia. 

A retirada de rainhas pode comprometer a sobrevivência de colônias inteiras. “A coleta insustentável — especialmente a remoção das rainhas — pode levar ao colapso das colônias, perturbando ecossistemas e ameaçando a biodiversidade”, disse Mukonyi Watai.

Apesar de existir a possibilidade de coleta legal, mediante autorização e acordos de repartição de benefícios, autoridades afirmam que nenhum pedido formal foi registrado até o momento. Isso evidencia a predominância do mercado clandestino, ainda pouco monitorado.

Especialistas defendem a inclusão das formigas em acordos internacionais como a Cites, para ampliar a fiscalização global. Atualmente, nenhuma espécie de formiga está listada no tratado, o que dificulta o controle do comércio.Enquanto isso, o debate segue aberto entre o potencial econômico da atividade e os riscos ambientais. Para alguns analistas, o país pode transformar a criação controlada de formigas em fonte de renda sustentável. No entanto, sem regulamentação eficaz, o avanço do mercado ilegal segue como ameaça crescente e ainda pouco visível.