Vera Lúcia ao 247: "quando o banco perde um cliente, sente; imagine, 12 mil?"
A presidente do Banese, Vera Lúcia Oliveira, afirmou que a retirada da folha de pagamento da prefeitura de Aracaju do Banco do Estado de Sergipe (Banese) "fragiliza muito” a instituição, uma vez que serão 12.476 clientes a menos, que tem um raio de atuação limitado, uma vez que só atua em Sergipe; para se ter uma ideia, a folha de pagamento do mês de julho da prefeitura foi de cerca de R$ 37 milhões; ela diz não acreditar que haja motivação política na ação do prefeito e reforça papel social do banco; "uma prova desse nosso trabalho é o Museu da Gente Sergipana. A gente investe aqui no Estado, patrocina várias instituições. Tudo que a gente produz é para remunerar funcionários, acionistas e também a sociedade", disse
Valter Lima, do Sergipe 247 – A decisão da Prefeitura de Aracaju de leiloar a folha de pagamento dos seus servidores, retirando-a assim do domínio do Banco do Estado de Sergipe (Banese) terá impacto muito negativo para a instituição financeira. Em entrevista ao Sergipe 247 na tarde desta quinta-feira (13), a presidente do Banese, Vera Lúcia Oliveira, afirmou que “a catástrofe que isso pode causar ao banco, só o tempo vai mostrar, mas de antemão, já dá para dizer que fragiliza muito”, uma vez que serão 12.476 clientes a menos na instituição, que tem um raio de atuação limitado, uma vez que só atua em Sergipe. Para se ter uma ideia, a folha de pagamento do mês de julho da prefeitura foi de cerca de R$ 37 milhões.
“A Prefeitura é o segundo maior cliente, sempre foi nossa parceria, desde o início do banco, há 52 anos. Vai ter quebradeira, vai quebrar o banco? Não, mas vai ter um impacto muito grande. Nós temos 74% da folha paga aqui. Quando o banco perde um cliente, ele sente, imagine perder dez, doze mil? Vai ser um trabalho redobrado de conquista, de trazer de novo essas pessoas, porque a portabilidade não é tão simples”, ressaltou.
Segundo Vera, há dois meses, o secretário municipal de Finanças, Nilson Lima, a procurou para falar da decisão de vender a folha. “O que ele me alegou foi dificuldade financeira. Não mostrou insatisfação com o banco. Agora, os R$ 40 milhões, que é o valor mínimo, que a prefeitura colocou para venda, não resolvem os problemas dela. Todos os gestores passam por dificuldades quando assumem, mas, em nenhum momento, houve esse desejo de vender a folha. Só agora que a prefeitura vai fazer isso? Deu reajuste aos servidores, aos cargos de comissão, então não entendo porque agora vai leiloar a folha”, afirmou.
MOTIVAÇÃO POLÍTICA?
Questionada pelo Sergipe 247, se enxergava na decisão do prefeito uma motivação política, Vera disse que não sentiu isto. “Agora causou muita surpresa. Uma coisa que me deixou intrigada é que o secretário Nilson Lima foi presidente do Conselho do Banco e ele sabe como encontramos o banco e o que fizemos. E ele ajudou muito. O banco sempre foi prestigiado pela prefeitura, mesmo quando o controlador do Banese era o prefeito (João) e o governador (Déda) era o prefeito [entre 2003 e 2006]. Então confesso que não quero acreditar que seja político. Qual a culpa que esse patrimônio tem? Não quero pensar que seja política”, disse.
Vera Lúcia frisa que o Banese não irá participar do leilão. Segundo ela, não é viável, o banco pagar R$ 40 milhões pela folha de Aracaju, pois isso irá gerar um efeito cascata. “Já imaginou se compramos todas as outras folhas de prefeituras? Se cada uma custar R$ 2 milhões, mais a de Aracaju, gastaremos quase R$ 200 milhões. O patrimônio do banco é de R$ 236 milhões. Não dá para fazer isso”, explica.
“A GENTE PRODUZ PARA A SOCIEDADE”
A presidente ressalta que o Banese tem uma preocupação com a sociedade, em dar respostas para a comunidade daquilo que a instituição arrecada. “Nosso mercado de atuação é o Estado. É pequeno, mas é um desafio para gente. Toda riqueza produzida no Estado é revertida para o Estado. Quanto menos eu faço negócio, menos eu tenho capacidade de produzir riqueza. E essa riqueza é revertida para quem? Para os sergipanos. Uma prova desse nosso trabalho é o Museu da Gente Sergipana. A gente investe aqui no Estado, patrocina várias instituições. Tudo que a gente produz é para remunerar funcionários, acionistas e também a sociedade”, argumentou.
Na conversa com o Sergipe 247, Vera Lúcia lembrou que o governador Marcelo Déda optou por não receber os dividendos que o Estado tinha direito, por ser o controlador, para fortalecer o banco. “Qualquer ação, se é de prestigiar, fortalece. Se é de retirar, enfraquece”, frisou. A presidente do Banese disse ainda que, diante da saída da prefeitura da lista de clientes do banco, será necessário fazer um re-planejamento das ações. “Se estamos perdendo mercado, não poderemos, por exemplo, contratar mais, porque teremos menos resultado”, lamentou.
EDITAL
Pelo edital da licitação, a venda da folha custará, no mínimo, R$ 40 milhões, com contrato válido por cinco anos. Segundo o documento, “a contratação de uma nova instituição financeira para prestação de serviços bancários à Administração Direta e Indireta do Poder Executivo do Município de Aracaju, inclui, entre outros o pagamento da folha de salário dos servidores ativos, inativos e pensionistas da administração direta, autárquica e fundacional do Poder Executivo, e das empresas dependentes; o pagamento aos beneficiários de eventuais Programas Sociais e Auxílios do Município; a centralização da arrecadação das receitas municipais no âmbito do Poder Executivo, autárquica, fundacional, empresas dependentes e fundos especiais, e; concessão de empréstimos aos servidores municipais, mediante consignação em folha de pagamento”.
“Não e verdade dizer que conta única vai ficar aqui no Banese, quando digo que vai centralizar a arrecadação. Como você diz que vai centralizar no banco que vai ganhar e que a conta única vai ficar aqui? Não tem como”, diz Vera Lúcia, rebatendo argumento da prefeitura sobre os impactos que a mudança ocasionará.
JACKSON APELA A JOÃO
Através do Facebook, o governador em exercício Jackson Barreto (PMDB) fez um apelo ao prefeito João Alves Filho (DEM) para que reveja a decisão. “Dr. João, tirar a folha de pagamento da Prefeitura de Aracaju do Banese enfraquece o banco. O senhor foi governador e sabe da importância do Banese para Sergipe”, disse.
O presidente do Sindicato dos Bancários de Sergipe (SEEB) também externou sua preocupação com uma possível privatização do Banese, caso João vença as eleições de 2014, como governador. “De forma monocrática o prefeito baixou um edital com essa proposta de licitar a folha de pagamento. Toda conta vai ser transferida do Banese para outro banco. Quando tomamos conhecimento não titubeamos e levamos ao conhecimento do poder público para fazer o seu juízo. Hoje prefeito vai lá e tira a conta do Banese, se em 2014 esse prefeito virar governador ele privativa o Banese porque ele está considerando o Banese algo desnecessário, uma instituição de pouca importância, então essa é a questão. Acho que tem que ter esse debate”, ressaltou Souza, em entrevista à rádio Ilha FM.
NILSON NÃO VÊ ENFRAQUECIMENTO
Na coletiva que concedeu na quarta-feira, o secretário da Fazenda, Nilson Lima, disse que nem o servidor e nem as instituições oficiais que já atuam irão ter qualquer tipo de prejuízo. "Não haverá mudança no sistema de conta única. O que vai acontecer é que o servidor terá mais uma opção de recebimento do seu pagamento e, como consequência, poderá escolher qual a instituição poderá oferecer mais benefícios para ele", afirmou.
De acordo com Nilson Lima, o que irá acontecer é apenas a consolidação de um processo que já está em andamento. "Com esse processo licitatório só temos a ganhar, pois, através dele a prefeitura pode arrecadar R$ 40 milhões, este que é o valor mínino no lance do processo licitatório. Esse quantitativo será utilizado para o próprio benefício de Aracaju, já que poderemos pagar as dívidas herdadas da gestão passada, as quais temos cerca de R$ 60 milhões para pagar, e também poderemos usar em outros investimentos para a capital", frisou.
Segundo Nilson, com o processo, a Prefeitura não vai retirar todas as contas do Banco do Estado, porque a principal conta que a PMA tem na instituição é a função tesouro, que é a conta única, e esta permanecerá como está. O processo licitatório abrirá a oportunidade para que outras instituições financeiras privadas possam atuar na operacionalização da folha de pagamento do servidor municipal, além de a Prefeitura de Aracaju ser beneficiada com o valor que está estipulado em R$ 40 milhões no lance mínimo.
NOTA OFICIAL DO BANESE
O Banese divulgou na tarde desta quinta-feira (13) uma nota de esclarecimento sobre o caso:
A Diretoria Executiva do Banco do Estado de Sergipe (Banese) vem a público esclarecer que o afastamento do Banco da administração da folha de pagamento dos servidores públicos do município de Aracaju representará uma perda considerável para a instituição. Todos os baneseanos e boa parte da sociedade aguardam com preocupação o resultado dessa iniciativa da Prefeitura Municipal de Aracaju que trará prejuízos para uma instituição que investe todo o seu capital no próprio Estado.
Não compreendemos o motivo dessa insatisfação da atual gestão da prefeitura com o nosso Banese, já que o Banco sempre atendeu às solicitações do município, dentro da lógica da reciprocidade negocial.
O Banese possui a maior rede de atendimento bancário do Estado e está presente em todos os municípios sergipanos, inclusive em lugares onde nenhum outro banco está. O Banese tem compromisso com o desenvolvimento sustentável do Estado, de forma que apoia diversos projetos filantrópicos, educativos, socioambientais e culturais em todo o Estado.
Somente com a implantação do Museu da Gente Sergipana, uma das principais atrações turísticas e culturais de Aracaju, o Banese investiu mais de R$ 20 milhões.
Esses investimentos têm sido possíveis principalmente graças ao apoio que o Banese recebe do Governo do Estado, que, desde o início da administração do governador Marcelo Déda, em 2007, abdicou de parte dos dividendos a que tem direito para capitalizar o Banco e permitir que ele tenha um bom desempenho e possa continuar contribuindo para o fortalecimento da economia do Estado e desenvolvimento da nossa gente.
Por fim, entendemos que é dever dos gestores públicos fortalecer o Banese, único banco estadual existente no Nordeste, orgulho e patrimônio dos sergipanos.