Vladimir Safatle: o que vemos hoje é o fascismo mesmo, não é metáfora
Filósofo da USP afirma que populismo autoritário não é metáfora nem regressão, mas o próprio fascismo que emerge nas sociedades neoliberais
247 - O filósofo Vladimir Safatle, professor da Universidade de São Paulo, acaba de lançar o livro A Ameaça Interna — Psicanálise dos Novos Fascismos Globais, publicado pela editora Ubu Editora. Em entrevista ao podcast Ilustríssima Conversa, da Folha de S.Paulo, o autor sustenta que os fenômenos políticos recentes não devem ser entendidos como meras analogias históricas.
Segundo Safatle, o que se observa na cena contemporânea, marcada pela ascensão do populismo autoritário em diversos países, não se trata de uma metáfora do fascismo nem de uma simples regressão histórica. Para ele, trata-se do próprio fenômeno em novas condições sociais. “O fascismo não é uma marcha à ré!”, afirma o professor no podcast.
No livro, o filósofo propõe uma leitura que aproxima o que chama de fascismo global das mentalidades predominantes nas sociedades neoliberais. Ele aponta o individualismo exacerbado, a lógica permanente da competição e a naturalização da ideia de que sempre haverá derrotados como traços estruturais desse ambiente. Em vez de definir esses sistemas como democracias plenas, prefere classificá-los como “fascismos restritos”.
Para Safatle, o neoliberalismo criou o terreno propício para que, diante de uma crise estrutural, a alternativa fascista passe a ser percebida como racional. “O neoliberalismo criou as condições para que, numa situação de crise estrutural, a opção fascista se torne uma opção racional. A gente esquece que o projeto neoliberal também nasce com a ditadura de Pinochet, no Chile”, afirma.
O autor também chama atenção para a trajetória brasileira. Ele destaca que o país abrigou, na década de 1930, o maior partido fascista fora da Europa, o Partido Integralista, fundado por Plínio Salgado, que teve participação no movimento modernista. Para o professor, esse dado histórico costuma ser subestimado nas análises contemporâneas.
Na avaliação de Safatle, é preciso reconhecer que o próprio processo de modernização carrega, como possibilidade interna, o desdobramento fascista. Por isso, ele critica interpretações que explicam o avanço do autoritarismo apenas como retorno ao passado ou expressão de ressentimentos sociais.
Durante a conversa, o filósofo também aborda a repercussão de um artigo publicado na revista piauí, intitulado “Estudos decoloniais e o grande FMI universitário”, no qual problematiza certas abordagens das teorias decoloniais. A polêmica em torno do texto é retomada como parte do debate mais amplo sobre os impasses intelectuais e políticos do presente.