Você deveria temer a inflação. Entenda o porquê
Mesmo em níveis aparentemente baixos, como o atual, a inflação pode ser muito danosa para o patrimônio do investidor
Por Fábio Portela, do site "O pequeno investidor"
Depois do Plano Real, acabou a inflação no Brasil, certo? Errado. A inflação, mesmo em níveis aparentemente baixos, como o atual, pode ser muito danosa para o patrimônio do investidor. Em poucos anos, uma inflação aparentemente baixa pode levar um bom patrimônio a não valer praticamente nada.
Simulação mostra o quanto a inflação pode ser danosa
No fim da década de 1980 e no início dos anos 1990, era comum vermos inflação na casa dos 30% ao mês e dos 1.000% ao ano no Brasil. Em 1993, por exemplo, o IPCA anual foi de estratosféricos 2.447,15%.Em 1995, primeiro ano em que o Plano Real esteve em vigor, o índice já caiu para 22,41%. Baixinho para quem enfrentou o período imediatamente anterior, mas ainda assombroso para nossos padrões atuais. Por isso, muita gente deve estar achando que os atuais 5,83% de IPCA não são nada a se preocupar, não é?
Mas veja a seguinte tabela:
Essa tabela mostra o valor real de um patrimônio de R$ 100.000,00 daqui a dez anos, com uma taxa de inflação variável. Na primeira coluna, estão os cálculos baseados no centro da meta do Banco Central. E as colunas seguintes aumentam a inflação até chegar a 10%.
E mesmo que a inflação bata o centro da meta do Banco Central – algo que não ocorre desde 2009 -, o investidor já teria bons motivos para se preocupar. Em apenas dez anos, seu patrimônio já valeria apenas 63,10% do que vale hoje. Os R$ 100.000,00 teriam valor de compra equivalente a R$ 63.100,63 hoje. A 5%, os R$ 100.000,00 equivaleriam a R$ 59.873,69; e a 6,50%, apenas 51,06% do valor original. Com uma inflação de "apenas 10%", o poder de compra do patrimônio já cairia para apenas 34,87%. E nosso histórico recente no IPCA aponta para algo mais próximo de 6,50% do que de 4,50%. Em 2011, o IPCA foi de 6,50%, e em 2010, de 5,90%. No ano passado, 5,83%.
Com o tempo, as coisas só pioram. Veja a seguinte tabela, que mostra o poder corrosivo da inflação em apenas 20 anos:
Em apenas 20 anos, com uma inflação "no centro da meta" de 4,50%, os R$ 100.000,00 teriam o poder de compra de apenas R$ 39.816,90 nos padrões atuais. Ou seja, mais de 60% do valor seria destruído pela inflação. Com uma taxa de 10% ao ano, o patrimônio valeria apenas 12,16% de seu valor atual em 2033.
E eu riz as contas pelo IPCA, que tem tido sua composição bastante alterada pelo governo nos últimos anos – certamente, para maquiar a real inflação que nos aflige. Se considerarmos o IGP-M, por exemplo, a situação está ainda pior: no triênio 2010-2012, esse índice apresentou, respectivamente, as seguintes taxas: 11,32%; 5,09%; e 7,81%.
É por essa razão que considero uma irresponsabilidade alterar a composição de índices de inflação quando se bem entende e deixar a inflação ficar "frouxa", mesmo que por alguns "poucos" períodos de tempo. Quem ganha com isso? Só o governo que, com uma inflação mais alta, consegue depreciar o valor de sua dívida. Mas nós, investidores, temos muito a perder.
Outro ponto importante que essas tabelas mostram é a relevância de investir sempre.A única maneira de combater os efeitos danosos da inflação é por meio de investimentos. Guardar dinheiro em casa não faz sentido: é como se, a cada ano, um ladrão viesse e furtasse um pedaço dele. No primeiro ano, você quase nem perceberia o furto. Mas depois de dez anos, qualquer um perceberia o estrago feito.
