Global Times: Narrativa sobre ameaça de espionagem chinesa é caso de ‘ladrão gritando pega ladrão’
Editorial do Global Times, critica apreensão de domínios de internet ligados a supostos agentes chineses
247 - A ampliação das acusações dos EUA contra a China voltou ao centro do debate internacional após o Departamento de Justiça dos Estados Unidos e o FBI anunciarem a apreensão de 13 domínios de internet sob a alegação de que os sites seriam ligados a “suspeitos agentes chineses” e teriam tentado obter informações confidenciais de pessoas com autorização de segurança no governo norte-americano, as informações são do Global Times.
Em editorial publicado pelo Global Times, o jornal chinês afirmou que a ofensiva de Washington se soma a um alerta recente da aliança Cinco Olhos, que acusou espiões chineses de utilizarem plataformas de emprego online para recrutar pessoas. Para o veículo, as acusações fazem parte de uma narrativa construída sem provas verificáveis e representam um caso clássico de “ladrão gritando ‘parem o ladrão’”.
Segundo o texto, nem o Departamento de Justiça dos EUA nem a aliança Cinco Olhos apresentaram elementos concretos que sustentem as acusações contra a China. O editorial critica o uso de expressões como “suspeitos” e afirma que, quando o tema envolve Pequim, setores políticos e instituições ocidentais recorreriam à lógica de “primeiro chegar a uma conclusão e depois fabricar provas”.
O jornal também sustenta que rótulos como “risco à segurança nacional” e “ameaça à inteligência” vêm sendo aplicados de forma indiscriminada. Para o editorial, atividades comuns de consultoria, recrutamento, intercâmbio acadêmico e cooperação tecnológica não deveriam ser tratadas como espionagem sem base factual.
A crítica central do Global Times recai sobre o papel histórico da aliança Cinco Olhos, formada por Estados Unidos, Reino Unido, Canadá, Austrália e Nova Zelândia. O editorial afirma que o grupo, amplamente reconhecido por sua capacidade de inteligência, teria longo histórico de operações de vigilância em escala global, inclusive por meio de plataformas digitais e mecanismos de coleta de informações.
O texto cita o caso do programa PRISM, revelado em 2013 por Edward Snowden, ex-contratado da Agência de Segurança Nacional dos EUA. Segundo o editorial, o programa expôs a capacidade de agências de inteligência de obrigar empresas de internet a cooperar na coleta de grandes volumes de dados de usuários, incluindo e-mails, conversas e transferências de arquivos.
O Global Times também menciona episódios de espionagem envolvendo líderes estrangeiros, como a ex-chanceler alemã Angela Merkel, e a exploração de cabos submarinos em países como a Dinamarca. Para o jornal, essas práticas demonstrariam uma postura de hegemonia que viola a soberania de outros países e os direitos de privacidade de seus cidadãos.
O editorial afirma ainda que a atuação da aliança Cinco Olhos não se restringiria a seus aliados e teria alcançado países em desenvolvimento da América Latina, da África e da Ásia. De acordo com o texto, sob o pretexto de compartilhamento de inteligência, o grupo teria lançado ciberataques, disseminado desinformação e interferido em assuntos internos de outros países.
Na avaliação do jornal chinês, a insistência em promover a narrativa da “ameaça de espionagem chinesa” serviria para desviar a atenção internacional, difamar a China e justificar operações de inteligência conduzidas há anos pelos próprios países acusadores. O editorial afirma que os envolvidos jamais refletiram sobre essas ações nem se desculparam por elas, optando por ampliar seu aparato de espionagem.
O texto reconhece que todo país tem o direito de proteger informações sensíveis, mas critica a tentativa de enquadrar consultas comerciais, intercâmbios acadêmicos e cooperação científica como atividades de espionagem. Para o Global Times, empresas, pesquisadores, estudantes e candidatos chineses no exterior não devem ser tratados automaticamente como suspeitos.
O editorial também afirma que diversos casos de suposta espionagem chinesa fabricados pelos EUA acabaram arquivados por falta de provas, embora já tivessem causado danos a cidadãos chineses. Segundo o jornal, esse tipo de repressão afeta a circulação internacional de talentos e prejudica a cooperação global.
Além disso, o Global Times avalia que a continuidade dessas acusações deteriora o ambiente de intercâmbio econômico, comercial, cultural e interpessoal entre China e Estados Unidos. Para o editorial, a estratégia prejudica os interesses de ambos os lados ao reforçar a desconfiança e dificultar uma relação bilateral mais estável.
O texto também menciona que, em maio, os presidentes da China e dos Estados Unidos concordaram com uma nova visão para construir uma “relação construtiva China-EUA de estabilidade estratégica”. Na avaliação do jornal, Washington precisa demonstrar por meio de ações concretas que seu compromisso com essa estabilidade é genuíno.
Para o Global Times, a continuidade da campanha sobre uma suposta “ameaça de espionagem chinesa” mostra que o pensamento confrontativo ainda influencia setores da política dos EUA e da aliança Cinco Olhos em relação à China. O editorial conclui que a apreensão dos domínios não suprimirá a verdade e apenas tornará mais evidente, segundo o jornal, quem estaria criando tensões no cenário internacional.
O veículo defende que os países envolvidos abandonem a mentalidade da Guerra Fria e retomem uma abordagem racional e pragmática em relação à China, encerrando o que classificou como uma campanha de “ladrão gritando ‘parem o ladrão’”.




