Jornal chinês Global Times condena campanha difamatória dos EUA contra o porto de Chancay
O Departamento de Estado questiona supervisão do terminal ligado à China, enquanto autoridades e especialistas defendem soberania e legalidade do projeto
247 - As recentes declarações do governo dos Estados Unidos sobre o Porto de Chancay, no Peru, ampliaram a tensão em torno de um dos principais projetos de infraestrutura da América Latina. O Departamento de Estado norte-americano afirmou estar “preocupado com os últimos relatos de que o Peru poderia ser impotente para supervisionar Chancay”, classificando o caso como “um alerta para a região e o mundo: dinheiro chinês barato custa soberania”.
A informação foi divulgada pelo jornal chinês Global Times, que destacou o posicionamento do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental do Departamento de Estado em publicação na rede social X. A manifestação dos EUA ocorreu após decisão de um tribunal peruano que concluiu que a agência reguladora de infraestrutura Ositrán não possui jurisdição sobre o Porto de Chancay.
A Ositrán é responsável pela regulação de grandes portos do país que operam sob concessões em terras públicas. O Porto de Chancay, no entanto, é um empreendimento privado, o que fundamentou a decisão judicial. Diante das críticas norte-americanas, representantes do terminal portuário reagiram.
Em entrevista à Bloomberg, o gerente-geral adjunto do Porto de Chancay, Gonzalo Ríos, refutou a interpretação de que haveria perda de soberania. “Chancay não é um enclave. Não é um lugar onde o Estado peruano não tenha soberania”, afirmou, ressaltando que diversas entidades estatais, incluindo a alfândega, atuam na regulação das atividades no local.
O debate também mobilizou especialistas. Pan Deng, diretor do Centro de Direito da América Latina e Caribe da Universidade de Ciências Políticas e Direito da China, criticou a posição de Washington. Segundo ele, “ao tomar uma decisão específica sobre jurisdição regulatória e distorcê-la deliberadamente, os EUA estão essencialmente presumindo a culpa primeiro e depois ajustando os fatos para se adequarem à narrativa, retratando deliberadamente a cooperação comercial normal e os procedimentos legais como uma suposta transferência de soberania”. Para Pan, essa postura demonstra “desrespeito à soberania nacional do Peru, à autoridade judicial e à capacidade de governança”.
Localizado a cerca de 80 quilômetros ao norte de Lima, o Porto de Chancay é considerado um dos principais projetos de cooperação entre China e Peru no âmbito da Iniciativa Cinturão e Rota. O terminal iniciou oficialmente suas operações em 14 de novembro de 2024. Empresas chinesas participaram de sua construção e operação, em um processo que, segundo o Global Times, passou por revisões e procedimentos legais conduzidos pelas autoridades peruanas.
As críticas dos Estados Unidos foram interpretadas, na análise publicada pelo jornal chinês, como parte de uma estratégia mais ampla de Washington na América Latina. O texto associa o episódio a outros temas sensíveis, como o Canal do Panamá e o petróleo da Venezuela, sugerindo que há preocupação norte-americana com a perda de influência tradicional na região.
Pan Deng reforçou essa avaliação ao afirmar que “os EUA há muito tempo colocam seus próprios interesses acima dos interesses dos países da região, sacrificando habitualmente a soberania e os direitos de desenvolvimento de outras nações para salvaguardar sua hegemonia”. Segundo ele, Washington utilizaria “as chamadas ameaças como pretexto para interferir e difamar a cooperação normal de outros países”, com o objetivo de tornar os países latino-americanos dependentes.
Nas redes sociais, a publicação do Escritório de Assuntos do Hemisfério Ocidental também gerou reações. Usuários comentaram frases como “Não precisamos de intervenções dos EUA” e “Não existe dinheiro ‘barato’; existe dinheiro ‘útil’”.
Desde sua inauguração, o Porto de Chancay passou a reduzir o tempo de transporte marítimo entre China e Peru para cerca de 23 dias, além de diminuir custos logísticos em mais de 20%, segundo dados mencionados pelo Global Times. O terminal é apresentado como um novo polo logístico estratégico no Pacífico sul-americano e como exemplo de cooperação econômica entre países fora do eixo tradicional de influência norte-americana.
O episódio evidencia o acirramento do debate geopolítico em torno de infraestrutura estratégica na América Latina e recoloca no centro da discussão a autonomia dos países da região na definição de seus parceiros comerciais e projetos de desenvolvimento.



