A centralidade do pensamento de Maria da Conceição Tavares, figura central do desenvolvimentismo brasileiro
Economista marcou a história do Brasil ao defender o papel do Estado, a industrialização e a soberania nacional como pilares do desenvolvimento
247 – Maria da Conceição Tavares, uma das mais influentes economistas da história do Brasil, permanece como referência incontornável para a compreensão dos desafios estruturais do país e para a formulação de estratégias de desenvolvimento. Nascida em 24 de abril de 1930, em Portugal, e naturalizada brasileira, Tavares construiu uma trajetória intelectual e política profundamente ligada à defesa de um projeto nacional soberano, industrializado e socialmente inclusivo.
Sua obra ganhou destaque a partir dos anos 1960, quando passou a analisar criticamente o modelo de crescimento dependente adotado pelo Brasil. Inspirada em correntes estruturalistas e na tradição da CEPAL (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe), Tavares argumentava que o subdesenvolvimento não era uma etapa transitória, mas uma condição estrutural produzida pela inserção desigual dos países periféricos na economia mundial.
Crítica ao modelo dependente e defesa da industrialização
Um dos pontos centrais do pensamento de Maria da Conceição Tavares é a crítica ao padrão de desenvolvimento baseado na dependência externa e na vulnerabilidade cambial. Para ela, a economia brasileira enfrentava ciclos recorrentes de crescimento e crise devido à fragilidade de sua estrutura produtiva e à dependência de capitais e tecnologias estrangeiras.
Nesse contexto, Tavares defendia a industrialização como caminho indispensável para romper com essa dependência. Mais do que ampliar a produção, tratava-se de construir uma base produtiva diversificada, capaz de gerar empregos, renda e autonomia tecnológica.
Ela também enfatizava o papel estratégico do Estado na condução desse processo. Em oposição às visões liberalizantes, que ganharam força sobretudo a partir dos anos 1990, Tavares sustentava que o mercado, por si só, não seria capaz de promover o desenvolvimento equilibrado e sustentável. Para ela, caberia ao Estado planejar, investir e coordenar políticas industriais e sociais.
O papel do Estado e a crítica ao neoliberalismo
A partir da década de 1980, com a crise da dívida externa e a ascensão do receituário neoliberal, Tavares se tornou uma das vozes mais contundentes contra as políticas de ajuste fiscal restritivo, privatizações e abertura indiscriminada da economia.
Ela alertava que tais medidas aprofundavam a vulnerabilidade externa do país e comprometiam sua capacidade de crescimento de longo prazo. Em suas análises, a financeirização da economia e o predomínio dos interesses do capital financeiro eram fatores que limitavam o investimento produtivo e ampliavam as desigualdades sociais.
Sua defesa do Estado não se restringia ao campo econômico. Tavares via o desenvolvimento como um processo político, que exigia a construção de instituições fortes, capazes de promover inclusão social e reduzir as desigualdades históricas do Brasil.
Atuação política e influência acadêmica
Além de sua produção intelectual, Maria da Conceição Tavares teve atuação política relevante. Foi deputada federal pelo Rio de Janeiro na década de 1990, período em que levou suas ideias para o debate legislativo, defendendo políticas voltadas ao crescimento econômico com distribuição de renda.
No campo acadêmico, foi professora da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), formando gerações de economistas e influenciando decisivamente o pensamento econômico brasileiro. Seu estilo combativo e sua capacidade de articular teoria e realidade concreta tornaram suas aulas e conferências marcantes.
Legado e atualidade de suas ideias
Décadas após suas principais formulações, o pensamento de Maria da Conceição Tavares segue atual diante dos desafios enfrentados pelo Brasil. Questões como desindustrialização, reprimarização da economia, vulnerabilidade externa e desigualdade social continuam no centro do debate nacional.
Sua defesa de um projeto de desenvolvimento baseado na soberania, na industrialização e na inclusão social dialoga diretamente com os dilemas contemporâneos. Em um contexto global marcado por disputas geopolíticas e transformações tecnológicas, a necessidade de políticas públicas ativas e de planejamento estatal volta a ganhar relevância.
Mais do que uma economista, Maria da Conceição Tavares se consolidou como uma intelectual pública, comprometida com o destino do país. Seu pensamento permanece como uma das bases mais sólidas para a construção de um Brasil mais justo, desenvolvido e soberano.

